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Mundial 2018

Jogo de futebol ou desculpa para o confronto? Chamem-lhe antes a Batalha de Santiago

É considerada uma das partidas mais violentas de sempre e o ponto de partida para a invenção dos cartões amarelos e vermelhos. Entre um terramoto, violência e insultos xenófobos, o futebol ficou para segundo plano no embate entre Chile e Itália no Mundial 1962 (Esta é a sétima história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

Tiago Oliveira

O italiano Mario David foi um de dois expulsos pelo árbitro Ken Aston no jogo entre os transalpinos e o Chile que marcou o Mundial de 1962 no país sul-americano

Getty Images

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Quando o locutor da BBC, David Coleman, entrou em antena para apresentar o resumo do jogo da fase de grupos do Mundial 1962 entre os anfitriões Chile e a Itália, não saberia que a frase que escolheu para abrir a transmissão ficaria para a história. A sua veemência assim o ditou, ao descrever a partida como "a mais vergonhosa, estúpida, e reprovável exibição de futebol" a que já tinha assistido e "possivelmente da história do desporto." É a triste fama da Batalha de Santiago.

Aquele que deveria ter sido recordado como o Mundial da luta contra a adversidade e da consagração do bicampeão Brasil entrou para os livros como um dos mais violentos da história da competição, assim como o primeiro onde as táticas defensivas prevalecerem sobre as ofensivas. Nem o génio de Garrincha valeu para apagar a imagem de uma equipa (a Itália) a ter que sair do campo escoltada pela polícia.

Consequência de um discurso incendiário que teve a sua semente na atribuição da prova. Após duas edições na Europa, as federações sul-americanas ameaçaram a FIFA com um boicote se o mundial não se realizasse no seu continente, o que foi prontamente aceite perante o descontentamento dos europeus, numa altura em que as viagens transcontinentais ainda exigiam grandes custos.

Se o Brasil estava fora da corrida por já ter recebido a prova, o grande favorito era a Argentina, com a sua rede de estádios e de transportes bem desenvolvida. Para dar uma aparência de competição, a FIFA procurou uma candidatura simbólica de outro país que, como provavelmente já adivinharam, acabou por ser o Chile. Liderados por Carlos Dittborn (que morreu um mês antes do mundial começar), deixaram o simbólico de lado e, perante a ideia argentina de que a vitória era um dado adquirido, visitaram muitos países à procura de apoios. Com um plano ambicioso de construção ganharam sem que nada o fizesse prever no congresso da FIFA de 1956 em Lisboa, e lançaram mãos à obra. Até que a natureza falou.

Banho de sangue

Quando estava em plenos preparativos, o Chile foi atingido em 1960 pelo maior terramoto jamais registado na história, o abalo de Valdivia. Com mais de 50 mil mortos, 2 milhões de pessoas sem casa e grande parte do país em ruínas, a opinião consensual apontava para o final do mundial chileno. Mas Carlos Dittborn fez um apelo ao orgulho nacional e afirmou que "se não temos nada, vamos construir tudo." A tragédia fez com que só quatro cidades acolhessem o evento, com o estádio da capital, Santiago, a receber dez jogos, por exemplo, e nenhum dos outros estádios a chegar aos 20 mil de capacidade.

Contra todas as expectativas, estava tudo de pé e pronto a receber a prova em que o goal average foi utilizado pela primeira vez como critério de desempate. Só se esqueceram de dizer às equipas para se preocuparem mais com o futebol jogado. O tónico foi dado desde cedo com a lesão de Pelé por uma entrada violenta, que praticamente o afastou do resto do Mundial, e relatos de muitos arrufos entre as equipas. Um jornal anunciou que "o torneio dá todos os sinais de se estar a transformar num banho de sangue."

Foi o que decidiram assumir os jogadores de Itália e Chile para o encontro da segunda jornada da fase de grupos que os colocou frente a frente. Classificar a organização do torneio como "uma loucura" por parte dos italianos já tinha deixado a tensão elevada, quando o incêndio foi ainda mais atiçado. Ao país chegaram ecos de um artigo na imprensa italiana, da autoria de Antonio Ghirelli e Corrado Pizzinelli, que descrevia Santiago quase como um enorme bairro de lata onde "os telefones não funcionavam e os táxis são tão raros como um marido fiel" e com uma população onde grassavam a "malnutrição, iliteracia, alcoolismo e pobreza" num país "orgulhosamente miserável."

Em resposta, os chilenos pintaram os italianos como fascistas, mafiosos e drogados enquanto um jornalista argentino, confundido com um italiano num bar, foi de tal modo agredido antes de se conseguir explicar que teve que ser hospitalizado.

Do semáforo para os cartões

O cenário não augurava nada de bom, e o jogo fez questão de confirmar o clima de exacerbada animosidade. A primeira falta ocorreu logo aos 12 segundos e, aos 12 minutos, a primeira expulsão. Ferrini entrou a matar e foi mandado sair (na altura não existiam cartões) pelo árbitro inglês Ken Aston, o que só fez arrastado pela polícia.

O chileno Landa rapidamente ripostou com um soco, mas o juiz não terá visto. Seguiram-se mais uns socos que culminaram com um pontapé na cabeça executado por Mario David e que levou à sua expulsão perante a revolta generalizada. Na violência que se seguiu, um jogador italiano ficou com o nariz partido perante a falta de ação do árbitro e as cuspidelas e confontos foram-se sucedendo até final, quando a equipa italiana só conseguiu abandonar o estádio sob proteção policial. Por incrível que pareça ainda houve lampejos de futebol, com o Chile a ganhar 2-0.

A Batalha de Santiago marcou tanto o ábritro inglês Ken Aston, que seria uma das inspirações para a criação dos cartões amarelos e vermelhos

A Batalha de Santiago marcou tanto o ábritro inglês Ken Aston, que seria uma das inspirações para a criação dos cartões amarelos e vermelhos

Express

A seleção da casa ainda chegou às meias-finais da competição enquanto a Itália saiu logo na fase de grupos perante acusações de parte a parte e que ainda hoje ganham eco quando os dois países se encontram. Além dos jogadores envolvidos, o encontro também marcou a carreira de Ken Aston, que para sempre ficou associado ao caos daquele dia. Experiência que acabou por ser um dos fatores principais para ter criado os cartões amarelos e vermelhos, inspirado no sistema dos semáforos.

Quando, infelizmente, a violência e os discursos incendiários continuam (mais que nunca) a fazer parte do dia a dia do futebol, 1962 não parece assim tão distante.

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