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Mundial 2018

A FIFA e os capitães adversários estão com Paolo Guerrero, mas um chá com cocaína está contra ele

Alegadamente sem o saber, Paolo Guerrero bebeu um chá que continha cocaína, foi apanhado, a FIFA puniu-o com uma suspensão que cumpriu até maio, mas a Agência Mundial de Anti-Dopagem apresentou um recurso ao Tribunal Arbitral do Desporto, que prolongou o castigo. O capitão do Peru não poderá estar no Mundial e a Austrália, a França e a Dinamarca, que vão estar no mesmo grupo, pediram à FIFA que faça algo - só que, mesmo tendo pena, a entidade já não tem poder para reverter a situação

Diogo Pombo

ERNESTO BENAVIDES

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“O Peru vai voltar ao maior palco do futebol depois de uma ausência de 36 anos e acreditamos que o Paolo Guerrero devia ser autorizado a comandar o seu país e a celebrar o que será o ponto alto de uma carreira.

Na nossa opinião, seria totalmente errado exclui-lo de um feito pelo qual trabalhou tanto, durante tantos anos - com base nas provas que confirmaram que ele não tinha intenção de enganar e melhorar a sua performance com substância proibidas.”

São dois parágrafos de uma carta redigida a três mãos, ou seis, que por estes dias não há caneta que se segure, mas teclas nas quais se batem. Os dedos que a redigiram pertencem a Mile Jedinak, Hugo Lloris e Simon Kjaer, o australiano, o francês e o dinamarquês cujo hábito é terem uma fita a apertar-lhes o braço para sinalizar, a toda a gente, que são os capitães das respetivas seleções.

A carta em questão, assinada pelos três e fechada, carinhosamente, com o “yours, sincerely”, foi enviada à FIFA.

A ideia era pedir clemência para o capitão de outra seleção, o Peru, que partilhará um grupo do Mundial com a Austrália, a França e a Dinamarca e onde, a manterem-se as coisas como estão agora, não estará Paolo Guerrero, o visado pelo documento em que adversários pedem para que se deixe jogar o melhor futebolista de uma equipa contra a qual irão jogar.

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O trio de capitães, em conjunto com a FIFPro, o sindicato internacional de jogadores, sugeriu à FIFA que uma suspensão de 14 meses que se aplicou a Guerrero fosse, escrevamos assim, suspensa durante o Mundial, para ser retomada assim que o Peru saísse da competição à qual regressa, volvidos 36 anos. Foi “um pedido urgente de clemência”.

Porque, dizem, “toda a gente concorda” que Paolo Guerrero não fez "para enganar" o que lhe acusam de ter feito.

Um dia houve em que o avançado, no conforto do hotel onde a seleção peruana descansava, bebeu um chá. Na bebida, para desconhecimento de Guerrero, constava uma infusão de folha de coca, que o jogador bebeu e deu origem à substância despistada num teste à urina: benzoilecgonina, um composto de cocaína que é produzido quando a substância principal passa pelo fígado do corpo humano.

É a versão defendida pelo jogador e respetivos advogados, pelos companheiros de seleção, por Diego Maradona e pelos quase 10 mil peruanos que, no domingo, marcharam em Lima a favor de um herói nacional, o tatuado, polémico, dono de mau feitio e melhor futebolista do país, onde nunca jogou profissionalmente numa carreira que já o tem com 34 anos.

Essa versão não caiu bem ou, pelo menos, com a força suficiente, na FIFA, que em novembro suspendeu o peruano, provisoriamente, por 30 dias. No mês seguinte, o Comité de Disciplina da entidade ditou um castigo de um ano por o jogador "ter testado positivo a uma substância proibida” na lista da Agência Mundial de Anti-Dopagem (WADA, na sigla inglesa) - que existe apenas na cocaína ou na folha de coca.

Algumas semanas passaram até o Comité de Apelos da FIFA cortar seis meses à sanção. E o caso assim ficou, durante muito tempo, com Paolo Guerrero a treinar-se sozinho e a esperar pelo dia em que pôde voltar a treinar com o Flamengo, o seu clube de há quatro anos, no Brasil. Esse dia chegou no início deste mês e o peruano voltou a jogar pela equipa do Rio de Janeiro. Participou em três partidas e marcou um golo à Chapecoense.

Anakena

Tudo parecia estar bem e ir acabar bem, para ele e a seleção do Peru.

Só que, entre as linhas das decisões e dos recursos, o WADA acrescentou os seus. A agência apresentou um recurso no Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), pedindo que o castigo, ao invés de acabado, fosse prolongado para 22 meses. A entidade suíça concordou, em parte, com os motivos invocados pelo WADA e decidiu restaurar o castigo original. Ou seja, decretou que Paolo Guerrero cumprisse os restantes oito meses da suspensão, retomando-a a partir de 14 de maio.

Desde então que o Peru está em estado de comoção, ou algo parecido. No domingo, perto de 10 mil pessoas marcharam em Lima, capital do país, em apoio ao jogador. Entraram no Estádio Nacional, liderados pela mãe de Guerrero, que se fez acompanhar pelas mães de muitos futebolistas da seleção nacional peruana. Esta terça-feira, a versão engravatada, encamisada e encasacada do jogador e Edwin Oviedo, presidente da Federação Peruana de Futebol, reuniram-se em Zurique, Suíça, com Gianni Infantino, dono de “uma profunda compreensão” pela situação do peruano.

O líder da FIFA, no fundo, revelou a pena que sente pelo avançado, agarrando-se, contudo, ao inevitável - “Foi o TAS que impôs a sanção”. O que retira quaisquer poderes de intervenção à FIFA e reduz as opções de Paolo Guerrero ao Tribunal Federal da Suíça (os tribunais são sediados no mesmo país), ao qual o jogador já enviou um recurso para tentar reverter a decisão.

É a última esperança para o peruano conseguir reduzir o castigo, ou lograr uma espécie de perdão temporário que vigore durante o Campeonato do Mundo.

A 23 dias para o arranque da competição, não se sabe quando o tribunal suíço vai dar resposta ao apelo. Uma forma de parafrasear que Paolo Guerrero, mesmo dizendo ao New York Times que fará “tudo o que estiver nas [suas] mãos para ir ao Mundial”, não depende só dele. “Joguei pela primeira vez na seleção aos 19 anos. Dei tudo para levar o meu país ao Mundial e agora não o posso jogar por algo tão injusto. Vou continuar a lutar, continuarei a demonstrar a minha inocência. Não vou deixar a cabeça cair e limitar-me a ir para a cama e dormir”, disse, ao icónico jornal norte-americano.

JUAN RUIZ

E de tudo o que tanta gente tem dito sobre ele, chegamos a Diego Armando Maradona. Entre 1991 e 1994, o argentino cumpriu, ao todo, 15 meses de suspensão por ter acusado positivo num controlo anti-doping e resolveu pronunciar-se sobre o caso do peruano.

O craque, inventor de uma mão de Deus e de golos em que, sozinho, enfrentou o mundo no Mundial de 1986, também foi castigado devido à cocaína e quase perdeu (como Claudio Caniggia, outro argentino, que jogou no Benfica, igualmente devido a cocaína) a edição de 1994, nos EUA, última em que jogou. “Estou ao lado de Paolo Guerrero neste momento tão feio, pelo qual também passei. Tive uma doença e ninguém teve pena de mim, pelo contrário. Ninguém me ofereceu uma saída e acho que isso tem de acabar. Se a nova FIFA condena os jogadores que fazem as pessoas felizes, por terem cometido um erro, deveria ajudá-los a curarem-se. Não deveria tirar-lhes o trabalho”, opinou.

Paolo Guerrero dá e já deu felicidade a muitos peruanos: é o melhor marcador (34 golos em 84 jogos) da história do Peru, o melhor jogador, o mais carismático, o capitão e o exemplo de uma luta para cortar com uma espera que demorou 36 anos.

E, mesmo que o problema do chá com cocaína se resolva, haverá sempre outro por remediar, porque Guerrero não foi pré-convocado para o Mundial, por culpa da suspensão - logo, tendo em conta as regras da FIFA, alguém terá que se lesionar para que o seleccionador, Ricardo Gareca, o possa chamar. É um imbróglio problemático que, a resolver-se, será substituído por outro cuja resolução também não será fácil.