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Mundial 2018

Vizinho do meu adversário, meu adversário é. Ou como as seleções se preparam para um Mundial

É coisa vista, batida, repetida e, talvez, pouco reparada, que acontece a cada prova de seleções: escolhem-se adversários para jogos de preparação com base na vizinhança geográfica com os países que se enfrentará na fase de grupos. Abram o mapa, espreitem os agrupamentos do Mundial e venham daí, antes do Portugal-Tunísia marcado para esta segunda-feira (19h45, RTP1)

Diogo Pombo e Carlos Esteves

Denis Doyle - FIFA

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A cada dois anos, quer dizer, antes de qualquer Europeu e Mundial, todo o selecionador que se preze tem uns quantos neurónios por queimar assim que abandona a pompa do sorteio da fase de grupos, que lhe dá as circunstâncias que encontrará na dita competição. Sabendo dos três adversários contra os quais jogará, os treinadores têm, depois, de saber com quem hão de se preparar para os enfrentar.

É convenção que os selecionadores, a equipa técnica e quem manda nas respetivas federações - porque isto é coisa para mexer com cachets, viagens e dinheiro a ser gasto - tenham, aí, que tomar decisões. Uma vez decididas, será assim que as veremos jogar durante o magro mês, mais ou menos, em que as seleções têm todos os convocados a treinarem juntos, antes do Campeonato do Mundo.

São os badalados e muito batidos jogos que cada seleção faz a brincar, antes de passar aos que se disputam a sério. São os encontros particulares, ou de preparação, ou amigáveis ou seja lá o que lhes queiram chamar. Portugal, à semelhança de muitos dos restantes 31 países que vão estar no Mundial, tem três agendados. O primeiro será já esta segunda-feira, contra a Tunísia (19h45, RTP1), os que seguintes terão a Bélgica (2 de junho) e a Argélia (7 de junho) como adversários.

Mas como, e porquê, são estes os adversários?

As escolhas terão a ver com o estilo de jogo que praticam, a forma como atacam, a maneira como defendem, a disposição tática de que os jogadores partem e os pontos fortes e fracos de cada seleção, por comparação a todas estas mesmas coisas das equipas que Portugal enfrentará na fase de grupos do Mundial.

E, depois, tem a ver com a mesma razão que, em certos casos, fez Portugal preparar-se para a Alemanha, os EUA e o Gana com a Grécia, o México e a Irlanda, antes do Mundial de 2014; para precaver a Islândia, a Áustria e a Hungria com a Noruega, a Inglaterra e a Estónia, no pré-Europeu de 2016; e para acautelar Espanha, Marrocos e Irão com belgas, argelinos e tunisinos, agora que se aproxima o Mundial de 2018 - essa razão é a proximidade geográfica entre os países.

Pode não ser, e por certo não será, o único fator que hoje é matutado por quem escolhe os adversários. Mas se há generalização feita no futebol, pelo menos um pouco, é a de que seleções vindas do mesmo sítio do planeta tenderão a jogar da mesma forma, ou a ter algumas parecenças no estilo - quando, dentro da definição de estilo, podem existir incontáveis diferenças na forma como treinadores pensam e jogadores executam. Mas isso parece ser mais fraco do que a confiança na influência que a geografia tem no futebol.

Não sabemos se assim o é - o que sabemos é que, pelo calendário, muitas seleções (e pessoas) parecem pensar assim.

A preocupação mais nutrida parece ser com o Uruguai. Os russos pensaram com antecedência e já defrontaram o Brasil, em março, e os sauditas vão jogar com o Peru, em breve. Apesar de estarem no mesmo continente, apenas a terra do samba faz fronteira com o país de Luis Suárez, Edinson Cavani, Diego Godín e companhia.

Há um meio check geográfico a fazer, pois o Egito tem por suficiente enfrentar apenas uma equipa forte, e os uruguaios, bom, os uruguaios ignoraram qualquer lógica simplista ao escolherem jogar contra os uzbeques.

Um grupo no qual existem três países ligados por fronteiras é um valente desafio. Ceuta está do outro lado do estreito de Gibraltar e pertence a Espanha. Logo, os nossos vizinhos, tal como nós, poderiam precaver-se com a Argélia, que está colada a Marrocos no mapa, mas preferiram alinhar-se com o que toda a gente fará, ou fez - jogar com a Tunísia.

Estando Portugal no grupo, e puxando a brasa à sardinha portuguesa, é de acreditar que os espanhóis jogaram contra a Alemanha para terem noção o que é defrontar uma seleção forte, assim como os jogadores de Fernando Santos se vão testar contra a Bélgica. Ou os marroquinos não têm portugueses e espanhóis em alta estima, ou pretendem apenas ganhar ritmo, porque terão a Eslováquia e a Estónia como adversários.

É um berbicacho fazer qualquer preparação geográfica para um futebol que vem da maior ilha do mundo, portanto, só os peruanos se deram ao trabalho arranjar uma partida frente a uma seleção que pertence à mesma confederação (sim, a Austrália compete na zona de qualificação asiática, onde está a Arábia Saudita).

A arrelia aparente é o Peru e todas as demais seleções combinaram encontrar-se ora com a Colômbia, ora com o Chile. Os australianos e peruanos, vendo a Dinamarca no grupo, arriscaram na lógica nórdica para agendarem amigáveis com a Noruega e a Islândia (que é uma ilha tão isolada quanto a Austrália, mas pronto).

Entre 1994, 2002, 2010 e 2014, os nigerianos foram-se tornando nos felizardos que mais vezes se cruzam com argentinos, em Mundiais. E, partindo do pressuposto que qualquer preparação anti-Messi (porque esta Argentina é uma dependente crónica nele) será quase em vão, eles abdicaram de amigáveis com qualquer equipa vinda da América do Sul.

Ao contrário de islandeses, que já jogaram com o Peru, à semelhança dos croatas, únicos a colidirem em campo com um adversário africano tendo em conta a coincidência, no grupo, com a Nigéria.

Forçada ou não, a lógica geográfica é desafiada pelo planeamento da Sérvia. A par de revelar os convocados para o Mundial em plena bomba de gasolina (sim, sucedeu), a seleção balcânica já jogou contra dois conjuntos africanos, algo que compensa por ser a única a precaver o Brasil jogando contra um vizinho, o Chile.

Uma vénia aos brasileiros, obreiros de particulares frente à Croácia e à Áustria, que fazem fronteira com sérvios e suíços

Tudo bem, a Dinamarca está colada territorialmente à Alemanha, mas no futebol há um pequeno oceano de diferenças que, mesmo assim, mexicanos e suecos vão usar como preparação.

Ninguém se dá ao trabalho de testar a convivência com uma seleção asiática como a Coreia do Sul e o México acautelou-se para a Suécia (no papel, a principal adversária para o segundo lugar do grupo) com particulares frente à Dinamarca e à Islândia.

O Panamá fica na América Central, portanto, as restantes seleções jogarão, ou já jogaram, com a Costa Rica, salvo todos e quaisquer distinções futebolísticas que haja entre essas equipas caribenhas.

Já os panamenhos terão visto semelhanças entre o estilo da Irlanda do Norte e tudo o que vão defrontar neste grupo.

A Colômbia resistiu com muita força ao fácil e óbvio, fiando-se no salto que, há uns anos, a Austrália deu para a qualificação asiática, na qual é tão ou mais forte que o Japão. Pelo contrário, polacos e senegaleses respeitaram a proximidade com a Coreia do Sul, marcando os respetivos encontros particulares.

Os meticulosos japoneses, pois claro, terão um amigável para cada um dos continentes de onde vêm os adversários do grupo.