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Mundial 2018

Choque, corrupção e um toque de voodoo: assim se fez a receita do Haiti

Em 1974 os haitianos apuraram-se pela primeira e única vez para o Mundial numa história que conta protagonistas improváveis e golos quebra recordes. É ler para crer (Esta é a décima história na nossa série enquanto Portugal não entra em campo no Mundial da Rússia)

Tiago Oliveira

Adeptos haitianos a apoiar a equipa na sua histórica participação no Mundial de 1974 na Alemanha

Getty Images

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Se lhe perguntarem qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça quando dizem o nome Haiti, o mais provável é que a escolha seja entre o terrível terramoto de 2010 ou a prática do voodoo. Com algum grau de certeza, o futebol nem sequer andará perto da discussão. Falamos de um país com muito pouca história na modalidade, sem futebolistas de renome ou grandes troféus. Só que a história que existe, vale por muitas.

No Mundial de 1974, onde uma das mais míticas seleções de sempre, a Holanda do futebol total de Cruyff, foi derrotada na final pela anfitriã Alemanha, que contava com craques como Beckenbauer ou Muller, houve também espaço para o pequeno Haiti deixar a sua marca. Que começou com a qualificação inédita para a competição da FIFA.

Após a qualificação perdida no último jogo para o Mundial 1970, o regime ditatorial que governava o Haiti definiu o apuramento para a próxima edição como imperativo e tratou de tudo o fazer para o conseguir. O presidente era então "Baby Doc" Duvalier, filho de "Papa Doc", e um dos mais novos chefes de estado de sempre do alto dos seus 20 anos. Sob pressão intensa para liberalizar o regime, olhou para o futebol como forma de ganhar os mentes e corações do seu povo e tratou de investir. Com dinheiro fresco de um pacote financeiro de boa vontade internacional dos EUA, criou uma conta bancária especial para a federação, investiu num centro de treinos, num novo estádio e deu melhores condições aos jogadores.

Frenesim sobrenatural

Os resultados começaram a aparecer e quando a CONCAF decidiu mudar as regras de apuramento para um mini campeonato em que todas as equipas jogavam entre si, os responsáveis viram a sua oportunidade. Por razões que nunca foram totalmente esclarecidas, decidiu-se que todos os jogos iam realizar-se no novo estádio Sylvio Cator em Port-au-Prince, capital haitiana, perante um público de 30 mil não se coibiu de criar um ambiente infernal e uma milícia pretoriana, os "Tonton Macoute", que faziam ameaças ao abrigo do regime.

Elementos que se juntaram todos para aquele que acabou por ser o jogo decisivo da fase de qualificação, contra Trindade e Tobago. Os haitianos ganharam por 2-1, num jogo em que quatro golos limpos foram inexplicavelmente anulados aos adversários, bruxos foram convocados para fazer feitiços voodoo nas bancadas e músicos especiais colocaram os adeptos num frenesim que, quem lá esteve, descreve quase como sobrenatural.

Os jogadores haitianos despedem-se do público após a derrota por 4-1 frente à Argentina no seu último jogo do Mundial 1974

Os jogadores haitianos despedem-se do público após a derrota por 4-1 frente à Argentina no seu último jogo do Mundial 1974

Getty Images

"As artes negras ajudaram o Haiti a ultrapassar-nos, não me podem dizer que aquele jogo foi justo e tratado por cima da mesa", acusou o avançado Steve David. Seja como for, após mais uma vitória contra a Guatemala, a histórica qualificação estava garantida, com o próprio "Baby Doc" a descer aos balneários para agradecer aos jogadores, classificando-os como heróis. Num ambiente de verdadeiro carnaval, a festa foi longa em Port-au-Prince.

Apesar dos atletas continuarem a ser amadores, o presidente deu-lhes seis meses só para se prepararem para o Mundial e a viagem para a Alemanha foi feita com a esperança. Eram os únicos, pois na imprensa foram descritos como não tendo genética para defender e oriundos de um país onde "as pessoas vinham de burro para se juntar a ver o jogo em ecrãs gigantes nos bairros de lata para capital."

Desfeiteado por Sanson

Clássica desconfiança ocidental que, ainda assim, não antevia nada de bom para o primeiro jogo contra a eterna candidata Itália que, entre outros, contava com Dino Zoff. O guardião vinha de 12 jogos a nível internacional sem sofrer um único golo e, recentemente, tinha sido capa da "Newsweek" como "O melhor do mundo." Mais fácil era saber quantos é que os haitianos iam sofrer.

Na primeira parte, nenhum, perante uns transalpinos cada vez mais frustrados. E depois, apareceu Emmanuel Sanson. Logo no início da segunda parte, o avançado foi lançado em profundidade pelo colega Philippe Vorbe e após ganhar em velocidade ao seu marcador, só tinha Zoff pela frente. Seguramente não podia ser desta? Foi, e com que classe. Bola para a frente, guarda-redes no chão e golo. Estava quebrado o recorde do italiano com o tento mais famoso da história do Haiti, para choque de todos os que estavam a ver. A equipa até acabou por perder 3-1, mas disso, como acontece nestes casos, ninguém se recorda.

Se este jogo encheu a nação de orgulho o segundo redundou numa derrota por 7-0 frente à Polónia "que podia ter sido por mais", segundo Philippe Vorbe, e acabou com as hipóteses de apuramento para a fase seguinte. A partida com a Argentina acabou com novo golo de Sanson (num belo remate de longe) e nova derrota, desta feita por 4-1. O importante já estava feito.

Os jogadores foram acolhidos como heróis no país, que nunca voltou a repetir o feito e viu 20 mil pessoas a despedirem-se de Sanson em 2008, outra vez no estádio Sylvio Cator, como o marcador do "golo que humilhou Dino Zoff", com honras de emissão em direto na televisão para um país parado. Bastou um remate para a história.

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