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Mundial 2018

Fernando Signorini: "Se fosse o Messi, tinha dito que não à convocatória. Que joguem aqueles que o criticam"

Esteve em quatro Mundiais (1986, 1990, 1994 e 2010) e passou muitos anos, sobretudo, a cuidar da forma de Diego Armando Maradona, antes de olhar pela de Lionel Messi. A Tribuna Expresso falou com Fernando Signorini, antigo preparador físico da Argentina, no dia em que a seleção joga com a Islândia (14h, Sport TV1). Além da Pulga inevitável e da "crise" do futebol argentino, a conversa tocou na falta que fazem outra mentalidade e mais jogadores que, no fundo, pensem - porque "ganhar nunca é uma obrigação, é sempre uma possibilidade" e "um grau de tecido cerebral pesa mais do que 80 quilos de músculo"

Diogo Pombo

Fernando Signorini, à esquerda, a conversar com Diego Maradona, na África do Sul, durante o Campeonato do Mundo de 2010, no qual foi preparador físico da seleção argentina - treinada, precisamente, por Diego.

DANIEL GARCIA

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Na descrição da sua conta de Twitter escreveu que fazem falta mais Iniestas no futebol.
[Ri-se] Porque é um jogador extraordinário. E no futebol, como em qualquer disciplina, há falta de gente que tenha essa capacidade e criatividade. É um artista que joga futebol, como os grandes jogadores, do tipo que, para lá da camisola que vista, faz com que as pessoas se apaixonem por este jogo.

Dava jeito ter uns quantos Iniestas na seleção argentina?
Creio que falta um Iniesta a todas as seleções do mundo, na portuguesa também. Esses jogadores são as exceções. Mas, se houvesse tanto Iniestas na nossa cultura, não gostaríamos tanto porque passaria a ser usual. Ficaria aborrecido.

É também o tipo de jogador que prova como, no futebol, a parte mental é mais importante que o físico?
Claro que sim. No passado, já tivemos provas disso em jogadores como o Garrincha, Valderrama, Puskas… Tantos jogadores que fizeram a história do futebol, também como o Maradona, o Messi, o espanhol [David] Silva, o Romário, e como o Kroos do Real Madrid. Há uma quantidade de exemplos para dizer que isso é absolutamente verdade.

Há tempos disse que a Argentina deveria ficar fora do Mundial. Porquê?
Sem dúvida. É a única forma de alterar o rumo de tudo o que aconteceu na Argentina. Futebolisticamente, claro, seria algo catastrófico, mas só assim haveria reações que dessem conta de que não podemos continuar assim. De há 15 ou 20 anos a esta parte, aprofundou-se esta crise no futebol argentino.

Quais são os principais problemas?
O primeiro é que nos lugares de decisão não estão as pessoas que realmente sabem e são capacitadas: não estão os [Marcelo] Bielsa, os [César Luis] Menotti, os [Jorge] Valdano, os André Falssi, que agora é o presidente do Talleres e foi quem revolucionou o fenómeno do Grupo Pachuca, no México, é um dirigente de primeiro nível. Depois, há muitas coisas que corroboram o facto de estarmos nesta crise. Por exemplo, a Argentina é o único país do mundo onde os adeptos da equipa visitante não pode ir assistir ao jogo, devido à violência inaudita nos estádios. A família deixou de ir a um entretenimento que é maravilhoso e deveria ser para toda a gente.

Houve uma eleição [em 2015] para eleger o presidente da AFA [Associação Argentina de Futebol] com número ímpar de votantes, votaram todos e a votação terminou empatada, colocando em dúvida todas as teorias matemáticas conhecidas até hoje. Houve, também, uma espécie de eleição para escolher o diretor técnico da seleção sub-20 [em 2016], para qual foram enviadas 44 candidaturas e o eleito quem nada apresentou [Claudio Úbeda]. Há poucos dias, a AFA lançou um manual no qual se ensina os argentinos a seduzir uma mulher na Rússia. Depois, a morte de Emanuel Ortega, que seria perfeitamente evitável não fosse a corrupção, irresponsabilidade e negligência dos dirigentes, porque ele embateu com a cabeça contra um muro [a meio de um jogo da quarta divisão] que estava a um metro de distância - quando deveria estar, pelo menos, a cinco metros. Ninguém sabe o que se passou, nem se responsabilizou.

Há casos de prostituição infantil, de clubes que estão à beira da bancarrota e outros mil exemplos que podia dizer. Daí que seria muito melhor a Argentina não estar no Mundial para que se terminasse, de uma vez por todas, com esta porcaria em que o futebol argentino está a viver.

Mas, agora que a seleção está prestes a jogar o Mundial, as pessoas não se esquecem disso tudo?
Nem toda a gente. Algumas, sim, que falam nos dez pontos da manipulação mediática para estupidificarem as pessoas e afastarem as coisas importantes da discussão. Há muito por falar sobre isso e as pessoas deveriam reagir. Jogar o Mundial não resolve, praticamente, qualquer problema. Quando a Argentina regressou do México com o Mundial [1986], a mortalidade infantil estava quase nos 12%. Passaram tantos e tantos anos continua a haver tanta gente sem teto e sem trabalho. Para que servem os Mundiais, então? Para o mesmo de sempre - fazer das pessoas tontas e cobrir tudo com um manto de entusiasmo.

Quem manda no futebol argentino esqueceu esse papel social e educativo do desporto?
Não se estão a esquecer, estão a fazê-lo de propósito. Aliás, apropriaram-se do futebol, que é uma construção cultural das classes populares e são essas classes que agora têm de pagar para ver à sua invenção. Porque o futebol não é dos empresários, dos dirigentes e das multinacionais, é das pessoas que o criaram. O futebol tem de ser para todos, porque foi daí que veio.

Os argentinos são o povo que mais sente a participação num Mundial? Quem mais pressão coloca sobre a seleção?
Sim, precisamente por isso: veem a seleção como a encarregada de defender o prestígio do país, a honra e a memória dos seus heróis. É uma estupidez que pode convencer quem tem a mentalidade de um adolescente, de um miúdo de 15 anos, mas as pessoas maduras deveriam encarar a seleção de outra maneira, porque o ato de defender uma camisola pode provocar muita violência, como se pertencesse a uma tribo. Trouxemos a época das cavernas até aos nossos dias, colonizaram-nos o pensamento. Repara, essa maioria das pessoas pensa como as empresas querem e não como se deveria pensar para procurar uma solução.

DANIEL GARCIA

A pressão que Maradona sofreu e Messi sofre agora é disso consequência?
Claro, porque trataram-nos com uma irrespeitabilidade que magoa. Sem o Diego e sem o Messi, a Argentina praticamente não seria reconhecida no mundo. Não digo que isso seja bom, mas, infelizmente, é a realidade. Portanto, o que lhes devemos é respeito, por trás deles há uma família que sofre com estes embates injustificados. Eles foram e são jogadores maravilhosos, graças a quem o jornalismo viajou pelo mundo, os empresários fizeram negócio e os argentinos se sentiram orgulhosos de dizerem, em qualquer sítio, que são argentinos porque, imediatamente, lhes respondia “Maradona” ou “Messi”.

Se fosse o Messi, tinha dito que não à convocatória. Que joguem aqueles que o criticam, a ver se são tão capazes de fazer o que lhe pedem. Se essa gente, que pede tanta perfeição a Messi, exigisse a mesma perfeição nas coisas do dia a dia, este país seria, pelo menos, como a Noruega. Mas somos apenas a Argentina.

Se a Argentina ganha o Mundial, as pessoas vão deixar de cobrar tanto a Messi?
Sim, porque quando se ganha, o êxito não se analisa, e todos os que o criticaram vão dizer que ele é o Deus. É a estupidez vinda da sociedade adolescente que temos, cheia de histerias e coisas que não correspondem à normal evolução e madurez das pessoas.

Cobram mais hoje ao Messi do que cobravam ao Maradona?
Agora mais, sim. Nos últimos anos acelerou-se muito este processo de histeria que vem dos meios de comunicação. Ainda para mais quando 98% do povo argentino não tem ideia do que é o futebol, do que representar como fenómeno social. Isto também tem uma raiz antropológica que devia ser explicada - como chegámos a essa situação quando se trata, simplesmente, de um jogo, em que ganhar nunca é uma obrigação, é sempre uma possibilidade. E ninguém está mais interessado do que os jogadores argentinos e a equipa técnica, mas ninguém, ninguém, em que as coisas corram bem. Esta estupidez continua a assombrar-me.

Agora, a pergunta inevitável: como foi trabalhar com o Diego Armando Maradona?
Foi algo… não há adjetivos para o descrever. Estar quase 10 anos, durante a manhã, tarde e noite, a desfrutar da sua magia, do seu talento e do seu amor pelo jogo e por vestir a camisola da Argentina, foi um privilégio muito difícil de explicar. São sentimentos muito profundos.

O que pode dizer do Diego e do Leo? Não estou a pedir que os compare, porque isso é impossível.
O melhor a fazer é mesmo desfrutá-los e não compará-los. São jogadores que não nasceram para ser explicados, mas para serem admirados. Não sei… Estamos culturalmente habituados a exigir uma explicação para cada coisa, mas há coisas que não a têm. É como querer saber como faz o mágico para tirar um coelho da cartola. Quero é continuar a ser maravilhado.

Trabalhou como preparador físico com ambos na seleção. Mas é sequer possível, ou necessário, trabalhar-lhes o físico?
Praticamente não. Além da janela de tempo ser muito reduzida, porque os campeonatos terminam em cima do Mundial, o melhor é transferir para os jogadores a responsabilidade para fazerem o que, realmente, sentem que têm fazer para se apresentarem na melhor forma. Eles são jogadores de uma enorme experiência e não vou ser eu a colocar a minha vanidade à frente deles. Acho que tudo se deve fazer através do diálogo e se eles quiserem descansar, que descansem; se amanhã querem trabalhar, trabalhamos. Por isso te digo que não há ninguém, além dos jogadores, que queira estar na melhor forma, pois ninguém os conhece tão bem como eles próprios. Seria o mesmo de dizer ao Ronaldo que, no Mundial, devia ser e fazer o que nós queremos. não, há que perguntar-lhe: “Cristiano, o que queres fazer? O que te parece melhor?”. E, seguramente, ele vai-te pedir mais, porque é assim.

Dave Winter

Portanto, tentava trabalhar o lado mental deles?
Sempre, porque uma grama de tecido cerebral pesa mais do que 80 quilos de músculo. Acompanho-os, escuto-os, falo com eles e tento descobrir a melhor forma de trato e de dizer as palavras justas para eles. Fundamentalmente, não há arma mais poderosa do que o afeto, o estar próximo deles, porque nestes momentos os jogadores estão muito sós e agarram-se às recordações mais queridas, que mais segurança lhes dão. Há que ter em conta tudo isso, porque treinar o músculo só por treinar parece-me uma tontice.

O músculo da cabeça tem de ser treinado contra a pressão. Isso não é o mais difícil de se fazer?
O que significa o futebol na vida dos países? Eles captam isso, porque os futebolistas têm uma inteligência astuta, estão muito mais próximo do animal do que do racional. Não são precisas muitas explicações para que os jogadores se deem conta de coisas elementares. Não se está a tentar explicar como se faz para desintegrar um átomo, mas sim qual é a verdadeira importância que o futebol tem de ter na sociedade - quando há coisas que estão tão mal e eles são instrumentalizados pelos interesses políticos e dos grandes negócios.

Por isso creio que treinar não é mais do que educar, educar desde a infância, para que os jogadores digam “não” a todas as injustiças que são cometidas com eles, sobretudo quando ganham. Porque, quando são de lugares desfavorecidos da Argentina, não há um presidente ou Papa que os vá buscar à miséria. Não, isso ocorre quando chegam ao topo da montanha. Quando a Argentina ganhou em 1986, em vez de ir à AFA ou a um estádio, a seleção foi à Casa do Governo do país. Isso é instrumentalização. Antes acusava-se os países de Leste de o fazerem, agora acontece o mesmo no ocidente.

Mas isso não passou a ser o normal? Há dias, a seleção portuguesa até foi almoçar com o Presidente da República.
E quando o Ronaldo era criança? Algum presidente o chamou, ou à mãe, e lhes deu dinheiro para que pudessem comer? Não. Ninguém foi buscar Ronaldo, Messi, Maradona, Riquelme, Tévez ou Agüero a bairros carenciados para os potenciar e solucionar os seus problemas.

O que mais gostaria de ver neste Mundial?
Jogos que me divirtam e não os que, ao fim de 15 minutos, me façam levantar do sofá para ir fazer outra coisa. Isso aborrece-me. Que os jogadores joguem sem medo, porque geralmente perde quem tem mais medo e não quem se atreve a ganhar. Que não se escondam no erro do outro - às vezes, isso resulta, mas não chegam muito longe. As grandes equipas do futebol e os jogadores que fizeram a história dos Mundial são aqueles que se atrevem, que dão a cara, que jogam e que morrem a jogar. Isso é fenomenal. Digo muitas vezes que gostava de fazer uma experiência na Argentina: uma equipa jogar um campeonato sem treinador e sem preparadores físicos. Acho que os jogadores jogariam muito melhor porque não teriam tanto medo, tanta pressão. Não seriam submetidos a sessões massacrantes que, muitas vezes, acontecem devido a temor e desconhecimento.

Isso é curioso, vindo de um preparador físico.
Verdade. E também gostava que a Argentina jogasse um Mundial sem técnico. Que os jogadores se juntassem, com liberdade, organizassem tudo com a equipa médica - essa sim, essencial, devido à carga de jogos e tensão e tão pouco descanso.

O que me está a dizer não é quase uma utopia?
É como disse Eduardo Galeano. Claro que é uma utopia, mas ela é como um horizonte: avanças um passo e recusas um passo, avanças dois passos e recuas dois passos. A utopia serve para isso, para caminhares ao seu encontro, teres objetivos e continuar. E pronto, continuaremos a perseguir a utopia.

Talvez seja por isso que jogadores como o Messi, o Ronaldo ou o Maradona arriscaram tanto.
Exato. É maravilhoso que existam jogadores assim porque, caso contrário, sinceramente, ficaria muito aborrecido. Praticamente não vejo futebol argentino… É como ir ao cinema e ver um mau filme. Aqui, além de se jogar mal devido a tantas pressões, à violência dos adeptos e tantos insultos, repete-se a história de pertencer a uma tribo. Parece que ainda não saímos dela