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Mundial 2018

Sousa: “Estive doente, uma mancha no cerebelo, e até fugi do hospital quando quiseram tirar um bocado de osso da coluna para análise”

António Sousa tem o futebol nas veias desde que nasceu, há 61 anos. Foi um dos eleitos para jogar no Mundial do México, em 1986, que ficou marcado pela "mão de Deus" do argentino Maradona, mas também pelo "caso Saltillo". Entre recordações, diz que foi a partir desse mundial que a seleção e os jogadores portugueses passaram a ser mais respeitados. Há seis anos sem treinar um clube, garante que continua atento ao mundo do futebol, sobretudo ao que faz o seu filho Ricardo e considera que o próximo campeão do mundo vai ser de um grupo de quatro onde não inclui Portugal

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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Nasceu em São João da Madeira, no seio de uma família numerosa e o futebol já lhe corria no sangue. É verdade?
Sim, os meus pais trabalhavam ambos no sector do calçado, sou o oitavo de 10 irmãos, 6 rapazes e 4 raparigas. O meu pai foi jogador nos tempos dele e diziam que era um craque, era conhecido pelo Cândido do Parrinho.

Portanto ser futebolista foi natural para si.
Sim, os genes estavam lá, houve a sequência normal dos meus irmãos e quando tocou a mim, foi uma coisa natural. Comecei a dar os primeiros pontapés na rua obviamente.

Quando era pequeno quem eram os seus ídolos?
O meu grande ídolo era o mesmo de toda uma geração, o Eusébio. Era um monstro. Aquilo que vimos dele no Mundial de Inglaterra deixou-nos todos a admirá-lo tanto. Havia outro jogador que eu também adorava ver, o Cruijff.

Quando vai para o Sanjoanense?
Com 15 anos. Naquela altura só havia juvenis, aí é que era a iniciação, não havia escolinhas. Só a partir dos juvenis é que era possível jogar à bola num clube. Mas antes já frequentava os treinos dos meus irmãos que jogavam. Começou a haver um entusiasmo normal da minha parte em relação ao futebol, também pela qualidade que eu ia demonstrando quando jogava na rua.

Lembra-se do primeiro treino que fez na Sanjoanense?
Perfeitamente, foi contra os juniores, ainda tinha 14 anos. Faltava um elemento para completar o 11 e o treinador do meu irmão vira-se para a bancada onde eu estava e diz “Miúdo vai-te equipar e anda, vem treinar com a gente”. Fiquei envergonhado e embasbacado, mas as coisas começaram a surgir dessa forma.

Na altura já jogava a médio?
Não, comecei como ponta de lança. Joguei como ponta de lança até ao segundo ano de júnior. Fui para o Sanjoanense em 1972/73 como juvenil, no mesmo ano transitei para os juniores. No ano seguinte continuei nos juniores. Fizemos um campeonato excelente, conseguimos salvo erro, chegar aos quartos de final ou meia final com o FCP e nesse ano também, com 16 anos, transitei para os seniores e comecei a jogar.

António Sousa, o 3º em baixo à esquerda, na equipa do Sanjoanense onde começou a jogar futebol

António Sousa, o 3º em baixo à esquerda, na equipa do Sanjoanense onde começou a jogar futebol

D.R.

Lembra-se do primeiro jogo que fez como sénior?
Foi em janeiro no primeiro jogo da segunda volta. Um Riopele-Sanjoanense. Por sinal fui eu que fiz o golo, fomos lá empatar 1-1 e fiz o golo sensivelmente aos 20 minutos de jogo.

Não podia ter corrido melhor.
Sem dúvida. Daqueles momentos loucos em que as pessoas queriam que o jogo terminasse de imediato. Foi um entusiasmo, uma alegria por ter feito o golo e por ter sido a minha iniciação como sénior. A partir daí nunca mais parei.

Como é que vai para o Beira-Mar?
Como eram clubes e cidades próximas havia sempre olheiros a verem as equipas adversárias. Isso aconteceu e como com o 25 de Abril havia a possibilidade dos jogadores ficarem livres, mediante um pagamento, aguardei durante dois meses que a lei entrasse em vigor e saltei para o Beira Mar. Isto ainda com 18 anos.

Dos 4 anos no Beira Mar quais são as melhores e piores recordações que guarda?
A única desilusão que tive foi o facto de, logo no meu primeiro ano, não termos conseguido manter na I Divisão. Mas no ano seguinte subimos e a partir daí todos os anos foram anos de sucesso e de grande felicidade da minha parte em relação à opção que tomei.

Como e quando sai de ponta de lança para médio esquerdo?
No segundo ano, através do sr. Fernando Cabrita, o treinador, olhando à necessidade da própria equipa e também ao facto de conhecer-me. Ele tinha necessidade de um número 10 mais recuado entre o 10 e o 8 e começou a colocar-me mais como médio, explorando as faculdades que eu tinha. Ainda bem que o fez porque se calhar era o lugar mais adequado para as minhas condições, fiquei nessa posição até final da minha carreira.

Anónio Sousa recebeu na Sanjoanense uma salva de prata pela sua primeira internacionalização

Anónio Sousa recebeu na Sanjoanense uma salva de prata pela sua primeira internacionalização

D.R.

A passagem para o FCP, como acontece?
Na altura era José Maria Pedroto o que treinador do FCP e ele já me acompanhava há alguns anos porque foi meu treinador na seleção de juniores. Houve contactos por parte do FCP, abri logo a porta como é óbvio. Ainda tinha mais um ano de contrato com o Beira Mar, mas as coisas ficaram mais ou menos encaminhadas e felizmente o FCP resolveu tudo com o Beira-Mar. Dei um grande salto na minha vida.

Nessa altura já torcia pelo FCP?
Porque somos vizinhos, porque estamos próximos, porque o FCP também era campeão, porque de vez em quando ia às Antas ver os jogos, naturalmente que havia uma paixão.

Estava a dizer que foi nessa altura que deu o grande salto na sua carreira. Mas quando assina o primeiro contrato?
O primeiro foi com o Beira-Mar. Tinha 18 anos, ganhava 11 contos por mês, ainda viva com os meus pais e continuei a viver. Fazia o trajecto diário de S. João da Madeira para Aveiro com uns colegas que também lá jogavam.

Lembra-se do que fez ao primeiro ordenado?
Guardei parte e a outra entreguei à minha mãe que era soberana a governar a casa. Naturalmente foi uma ajuda importante para a família porque éramos muitos e as coisas não eram fáceis. Na altura o que eu mais desejava era conseguir ter sucesso, naquele tempo não tínhamos essa forma de pensar de quero ter isto ou aquilo, queria naturalmente tirar a carta de condução, comprar um carrito para depender só de mim em certos momentos. Essencialmente isso. Ainda no Beira Mar tirei a carta e houve a possibilidade de comprar um Datsun 1200.

O que é que o José Maria Pedroto tinha de especial?
Era um treinador que falava pouco, chamava a atenção quando tinha de chamar, muito disciplinado naquilo que era a sua obsessão em termos de qualidade. Um indivíduo extremamente franco e puro com aqueles com quem convivia todos os dias. Havia um enorme respeito e seriedade da nossa parte em relação à figura de José Maria Pedroto.

Quando vai para o FCP, muda-se de armas e bagagens para a Invicta?
Não. Estive sempre em S. João da Madeira e fazia o trajeto diário para os treinos do FCP. Só saí de S.João da Madeira quando fui para o Sporting.

Sousa, ao centro, foi para o FCP em 1979/80

Sousa, ao centro, foi para o FCP em 1979/80

D.R.

E o Sporting surge como?
Surgiu através de um interesse grande e profundo da parte deles, alicerçado no facto do Pacheco também ter ido. O Pacheco conversou comigo sobre a possibilidade de dar o salto. Tendo em conta a verba que me foi apresentada pensei na situação durante alguns dias, porque era um bocadinho superior ao que ganhava no FCP. Depois de pensar e repensar e de ser pressionado por este e por aquele acabei por ir.

Nessa altura já era casado e tinha filhos.
Sim. Eu e a Isaura conhecemo-nos desde pequenos, de S. João da Madeira. Começamos a namorar com 16/17 anos. Ela estudava e formou-se como professora de educação física. Casamos e quando fomos para Lisboa o Ricardo e a Mara já eram nascidos.

O que é que a sua mulher disse da mudança para Lisboa, gostou da ideia?
Teve de gostar, como é óbvio e teve de aceitar a decisão. Claro que sabíamos que tínhamos de mudar de rotina diária, sabíamos que ela ia ficar sozinha em casa e transitar de imolado para o outro não é fácil. Mas a adaptação foi mais ou menos positiva.

Ela continuou a trabalhar em Lisboa?
Não. Fez esse interregno de dois anos. O nosso grande problema foi o facto de no segundo ano deixarmos o nosso filho Ricardo em S. João da Madeira.

Porque não foi com vocês para Lisboa?
Porque ia para a escola primária, ia ser o primeiro ano dele e decidimos levar só a Mara connosco, que ainda era muito pequenina. Ele estava bem entregue, ficou com os avós e os tios que tomaram conta dele. E claro todos os fins de semana vínhamos cá acima, sempre que tinha folga.

Mas não queriam pô-lo na escola em Lisboa por alguma razão especial?
Ele tinha aqui os amigos, estava com a família, embora estando longe do pai, da mãe e da irmã, tinha aqui tudo à mão e o apoio era excelente. Entendemos que seria melhor para ele do que ir para Lisboa, a capital, com mentalidades diferente, rotinas diferentes, seria um choque maior. A Mara tinha só 3 anos, era diferente.

António Sousa foi jogador do Sporting duas épocas, de 1984 a 1986

António Sousa foi jogador do Sporting duas épocas, de 1984 a 1986

D.R.

Quando é chamado a primeira vez à seleção?
Desde os juvenis que fazia parte do trajeto das nossas seleções.

Falando concretamente do Mundial de 1986, fez a fase de qualificação?
Alguns jogos. O único jogo da fase de apuramento que ficou na memória, frente à Alemanha em que há aquele golaço do Carlos Manuel que nos deu a possibilidade de estar no México, por acaso não estava lá, não tinha sido convocado. Vi em casa, na televisão.

Quem eram os seus concorrentes diretos na seleção?
Tínhamos sempre equipas excelentes, então no meio campo estávamos recheados de valores, Jaime Pacheco, Frasco, Carlos Manuel, Diamantino, Chalana, enfim, um número enorme de jogadores de grande qualidade.

Qual foi a sensação de ser convocado para ir à fase final?
Olhando ao trajeto que fiz ao longo da época, o facto de estar presente quase sempre, acreditei desde a primeira hora que estaria na fase final. Mas é uma felicidade enorme no momento em que somos informados que o nosso nome está na lista.

Mal chegam ao México as coisas começaram logo a correr mal. Pode contar o que aconteceu?
Para além da distância enorme a que estávamos da família, as condições não eram boas. Mas já desde França 1984 que as coisas não eram muito agradáveis na relação que havia entre a presidência e o grupo de trabalho. Tinha de haver uma evolução e essa evolução não surgiu por parte da federação.

Havia portanto um clima de tensão.
Havia, como é óbvio. Havia coisas que as pessoas não entendiam e havia alguma falta de respeito para com o jogador de futebol. O jogador de futebol começou a progredir, começou a ter cabeça, começou a pensar, começou a dar opinião e algumas pessoas não aceitavam isso.

Sousa no dia do seu casamento.

Sousa no dia do seu casamento.

D.R.

Os jogadores começaram a perceber também que davam a ganhar muito dinheiro a outros e que não estava a ganhar eles próprios com isso.
Não é só isso. Em todas as situações acima de tudo tem de haver diálogo, independentemente dos interesses de cada uma das partes. O que faltou foi isso. No fim, claro que por um lado estávamos tristes porque gostaríamos de ter passado à fase seguinte, era isso que desejávamos, mas de qualquer das formas demos um passo importantíssimo em termos de libertação e daquilo que começou a ser construído ao nível da imagem que os jogadores passaram a ter a partir daí. Houve um grande crescimento no geral, os dirigentes começaram a pensar de forma diferente, começaram a ter um maior respeito pela classe dos jogadores e era imperativo tê-lo, porque só assim é que conseguiríamos dar passo largos para o sucesso que felizmente a seleção a partir daí começou a ter.

Já disse que quando chegaram a Saltillo as condições não eram as melhores. Pessoalmente o que lhe fez mais confusão?
Essencialmente a forma como prepararam em termos de concentração e do próprio espaço para conseguirmos treinar. Aquelas condições não se dão a ninguém. Quem lá esteve a fazer a escolha foi muito infeliz porque as condições nunca foram as melhores, embora trabalhássemos e tentássemos sempre ser grandes profissionais como o fomos.

Mas que tipo de problemas é que encontraram?
Acha que fazer um treino conjunto com uma equipa dos empregados lá da Câmara ou dos hotéis é uma coisa normal para uma seleção nacional? Fomos equipar-nos a um estádio, onde toda a gente entrava nos balneários, toda a gente da sociedade, miúdos, toda a gente entrava e tomava banho, no fundo, um balneário público quase.

Nessa altura a quem se queixavam?
O treinador era naturalmente o primeiro a sentir o nosso desconforto e depois era ao diretor Amândio de Carvalho que lá estava connosco.

O que ele respondia?
Tentava dar-nos a volta, mas tendo em conta o que víamos e a necessidade de ter condições suficientes para estarmos prontos e preparados para as batalhas que íamos ter pela frente, sentíamos que realmente não eram condições para estarmos num campeonato do mundo. Não merecíamos aquilo. A organização foi demasiado horrível para a imagem que Portugal e todos nós merecíamos.

Consta que nem o campo de treinos prestava.
Era um campo pequeno, inclinado, a subir. Só no terceiro mundo é que aquilo existia.

António Sousa com as cores da seleção nacional

António Sousa com as cores da seleção nacional

Onze

Mas o comunicado que o guarda-redes Bento leu antes da abertura do Mundial, manifestava desagrado sobre os prémios e direitos de publicidade, não tanto sobre as condições de treino.
Sim, porque nós tínhamos conhecimento dos valores e, a nós, davam-nos uma côdea. Naturalmente sentíamos insatisfação. Deviam ter um pouco mais de respeito porque nós é que éramos a imagem de Portugal, éramos nós que fabricamos tudo aquilo e o Sr. Amândio de Carvalho devia falar com o presidente, este devia vir a Saltillo ter connosco. Queríamos ter uma conversa com ele. Essa conversa nunca aconteceu porque ele não esteve disponível para estar connosco. Causou um grande desconforto a toda a gente, embora na hora da verdade quando íamos para a competição e para o próprio jogo ignoramos tudo respeitando e querendo naturalmente ser melhores.

O António nunca ficou à margem da luta?
Não. Estive sempre dentro, éramos um grupo. Uns mais interventivos do que outros, eu nunca fui pessoa para abrir muito a boca, mas estive sempre do lado dos meus colegas porque entendi que a situação não foi nada agradável.

Antes da partida a notícia do controlo anti-doping positivo ao Veloso, tendo ele sido substituído pelo Bandeirinha, também não caiu bem.
Claro, causou também desconforto a todos, mas são situações que infelizmente ocorrem, temos de ultrapassar rapidamente e partir para outra.

Ficaram ao lado do Veloso ou o grupo partiu-se nas suas opiniões?
Como é óbvio, ficámos ao lado dele, é um colega de profissão e ele mais do que ninguém gostaria de estar presente num campeonato do mundo e não teve a possibilidade.

Entretanto começam a surgir rumores de que havia alguma atividade sexual entre jogadores e prostitutas, surgiam imagens de jogadores a apanhar sol, de sombreiro na cabeça e bebidas na mão junto à piscina...
São coisas normais de alguns meios que procuram em situações mais críticas, como foi o caso, lançar a polémica para procurar criar mau estar junto do próprio grupo. São informações que não têm nada a ver com o que se passou em Saltillo porque, pelo menos da minha parte, eu não vi nada de anormal no que diz respeito a esse tipo de situação.

Isso criou-vos ainda mais revolta?
Não criou mais revolta, criou um mau estar junto da própria seleção. Estávamos distantes, na altura não havia internet, só telefone, e portanto éramos posteriormente informados de algumas situações que iam ocorrendo, do que era relatado nos jornais em Portugal. E pontualmente éramos informados pelos próprios jornalistas que estavam presentes junto de nós, ou então, através de telefonemas que íamos fazendo para casa.

António Sousa, 3º em baixo à esquerda, no 11 da seleção nacional de 1986

António Sousa, 3º em baixo à esquerda, no 11 da seleção nacional de 1986

Onze

Na altura em que fazem o comunicado sentiam que a população portuguesa estava com ou contra vocês?
Se quer que lhe diga, eu não pensava nisso. Aquilo que pensava era no melhor para o jogador de futebol. Aquilo que procurei desde o primeiro dia foi que houvesse qualidade e respeito pelo que nós fazíamos. E acho que isso faltou ao espírito e à mentalidade do dirigismo nacional. Esse foi o grande ponto. O resto vinha por acréscimo. Íamos procurar, desde que a competição surgisse, ganhar, sermos melhores do que o adversário, jogo a jogo, para darmos um passo em frente. Dando um passo em frente as coisas tornavam-se mais fáceis.

A competição começou bem com uma vitória de Portugal sobre Inglaterra. Foi titular?
Sim. Estive nos 3 jogos. Aquilo que desejávamos pelo facto de ser o primeiro jogo e de ser contra a Inglaterra, um adversário sempre muito forte e temeroso, era entrar e sermos melhores que eles, sabendo de antemão que não era fácil. Provavelmente era inimaginável vencer a Inglaterra naquele momento, mas todos acreditámos que estando unidos e sendo humildes conseguiríamos dar a volta. Foi a mentalidade que reinou. Acabámos por fazer um jogo excelente.

Quando terminou estavam eufóricos?
Sim, super felizes, satisfeitos porque sabíamos que esta vitória daria uma alma grande. Os portugueses e familiares em Portugal estariam satisfeitos. Em termos de imagem pública, olhando aos acontecimentos vividos, sentíamos que as coisas estariam sempre do nosso lado e, vencendo, era mais fácil que as coisas acontecessem.

Logo a seguir, num treino, o Bento lesiona-se e fica afastado. Lembra-se do que aconteceu?
Não lhe sei explicar. Recordo-me de o ver no chão, não dei por nada quando aconteceu. Quando eu e mais alguns nos apercebemos metemos as mãos à cabeça. Sabíamos que tinha sido demasiado grave. Lembro-me do falecido Vítor Damas dizer: "Oh meus Deus do céu, logo a mim é que havia de acontecer isto". Ele era suplente e acabou por avançar para a baliza. Estava mesmo triste.

Mas para ele era uma oportunidade.
Mas tinha de substituir um grande guarda-redes o que não era nada fácil.

Sousa, com a bola, em ação com as cores de Portugal

Sousa, com a bola, em ação com as cores de Portugal

Onze

A seguir o jogo com a Polónia não corre bem.
Não corre bem o resultado em si, porque fizemos um jogo excelente, comandamos e controlamos durante os 90 minutos praticamente. Mas acabamos por perder de uma forma injusta.

Injusta porquê?
Não merecíamos. A Polónia pouco ou nada acrescentou. Lembro-me perfeitamente do Mlynarczyk, guarda redes deles, ter feito três ou quatro defesas de grande nível e nós estivemos sempre por cima durante o jogo.

Como é que ficou o estado de espírito?
Ficamos naturalmente abalados. Um empate quase que nos permitia estar na fase seguinte. Uma derrota pôs tudo em aberto. Sabíamos que a dificuldade no último jogo ia ser maior, apesar de termos pela frente um adversário que era mais acessível.

Mas não foi.
Infelizmente não. Foi um jogo onde não estivemos concentrados.

Porquê?
Estivemos algo displicentes e Marrocos acreditou sempre que poderia ganhar, também queria fazer história, tinha alguns bons jogadores e quer-me parecer que acabamos por cometer alguns erros em termos defensivos que fez com que tivéssemos um dia não.

Quando perdem com Marrocos ficam de rastos.
Completamente. Apesar das guerrilhas internas que fomos tendo o facto de termos perdido e termos de vir embora foi uma machadada total no espírito de todos nós e sentíamos vontade de chegar o mais rapidamente possível a casa para irmos para férias e estarmos sossegados. Não tínhamos cabeça para mais.

Ainda no México souberam que o Torres ia deixar de ser seleccionador?
Não, não nos foi comunicado nada. Isso foi tratado posteriormente.

Assistiram à final e à célebre "mão de Deus" já em Portugal?
Sim. Mal acabou o jogo, penso que no dia a seguir, viemos embora. Era o desejo de todos. A grande maioria dos jogadores depois desligou completamente da seleção. Durante um ano, ano e pouco, alguns deixam de participar nos jogos da seleção, por renúncia.

Fez parte desse grupo?
Sim, desde que a chefia e liderança foi daquele presidente. A partir da altura em que há mudança de presidência, as coisas modificaram-se completamente, já começou a haver mais diálogo e abertura. Começaram a estar mais perto dos jogadores, começaram a dar outras condições, bons hotéis, condições de trabalho excelentes e a partir daí o circuito que havia deixou de existir para ser uma coisa ao nível da qualidade que todos pretendiam.

De qualquer forma depois demoramos muitos anos a voltar a uma fase final de um mundial.
Sim, mas quer-me parecer que as coisas começaram evoluir e que o ADN da nossa seleção e do profissional de futebol começou a notar-se muito mais com um crescimento gradual e constante em termos de conforto e respeito pelas pessoas. A própria FPF começou a chamar pessoas com qualidade, seguindo o que todos nós desejaríamos.

Sousa no FCP, em 1º plano, com Madjer ao fundo

Sousa no FCP, em 1º plano, com Madjer ao fundo

Peter Robinson - EMPICS

Quanto ganhavam de prémio de presença?
Pagavam-nos a diária e tínhamos prémio por objetivo. Nem digo os valores porque parece mal. Era tudo muito fraquinho. Se não me engano, se conseguíssemos o apuramento para a segunda fase, ganhávamos 300 contos.

Mas não passaram à fase seguinte. Que dinheiro acabaram por receber?
As diárias e pouco mais. E as diárias eram também uma ninharia, eram 750 escudos por dia se não estou em erro.

Foi no México que os adeptos começam a fazer a famosa "Onda" nas bancadas. Lembra-se disso?
Perfeitamente. O zumbido era tão grande, que olhávamos como é óbvio.

Vamos voltar à sua vida. Depois do Mundial sai do Sporting e volta ao FCP. Teve a ver com a sua prestação no mundial?
Não, as coisas já estava alinhavadas nesse sentido, muito antes de partir para o México.

Três épocas no FCP e regressa ao Beira Mar. Porquê?
Foi uma debandada geral nessa altura, sai eu como a maioria dos jogadores, Fernando Gomes, Lima Pereira, Frasco, Jaime Pacheco, etc. Mudança de imagem do clube, quiseram construir uma equipa nova e a renovação deu-se.

Sousa, à esquerda, ao lado de Koeman e de Torres

Sousa, à esquerda, ao lado de Koeman e de Torres

D.R.

Nesses três anos no FCP quem teve como treinadores?
Artur Jorge e o Ivic. O Artur Jorge já o conhecia há muitos anos. Mantive uma relação mais ou menos com ele.

O Artur Jorge é uma pessoa difícil?
Não era difícil, era muito fechado, muito reservado, vivia muito no seu próprio espaço, uma cara mais fechada, diferente do que estávamos acostumados. Mas tive sempre uma relação positiva, com respeito, apesar de algumas situações sobretudo no primeiro ano.

Que situações?
Fui titularíssimo a vida toda em todos os clubes, desde os meus 16 anos, e quando lá chego no primeiro ano era esporadicamente suplente. Naturalmente havia insatisfação da minha parte porque a situação não era muito agradável. Mas fui trabalhando sempre com afinco e com desejo para lhe mostrar que estava presente e queria jogar.

Acha que isso aconteceu porquê, porque o Sousa vinha do Sporting?
Ele já lá estava há dois anos e tinha um grupo de trabalho, conhecia perfeitamente os jogadores que tinha e na hora da verdade eu era o preterido em relação às opções para o 11. Mas tentei dar-lhe a volta procurando em cada treino e em cada momento em que ele me metia a jogar, dar o máximo. A única situação mais caricata em termos pessoais que tive foi essa com o Artur, sem falarmos, mas com uma atmosfera de mal estar entre ambos.

Nunca houve nada diretamente?
Não. Depois mais tarde tivemos a possibilidade de conversar pessoalmente, ele explicou à maneira dele, eu expliquei à minha dizendo que não estava satisfeito com o comportamento dele em relação à minha pessoa porque não me conhecia.

Ele chegou a explicar-lhe porque não o punha a jogar?
Não, fugia sempre à questão como é óbvio. Se calhar não tinha argumentos para apresentar.

António Sousa com os filhos Mara, à esquerda, e Ricardo

António Sousa com os filhos Mara, à esquerda, e Ricardo

D.R.

O regresso ao Beira-Mar deu-se porque não tinha alternativas?
Tinha alternativas, tinha o V. Setúbal, o E.Amadora cujo treinador na altura era o João Alves. Optei pelo Beira Mar pelo facto de estar perto de casa, era um clube na altura bom e agradável, que eu conhecia. Sentia-me feliz.

Mais quatro anos no Beira-Mar e segue-se o Gil Vicente. Porque sai de Aveiro para Barcelos?
Já estava na fase terminal de carreira, eram 35 anos, o último ano não foi muito agradável, tive uma doença que me pôs de lado durante 2, 3 meses.

Que doença?
Nunca cheguei a saber o que era. Fiz exames e mais exames, tudo e mais alguma coisa e não conseguiram encontrar absolutamente nada.

Mas quais eram os sintomas, o que é que aconteceu em concreto?
Eu não tinha força. Queria chutar a bola e a bola avançava 5 metros. Não conseguia levantar a bola.

Isso foi detetado quando?
Estava em casa, a minha mulher não estava, e estive muito tempo debruçado a arrumar umas coisas no sótão. Comecei a sentir uma tontura, mal disposto, as pernas a tremer, não conseguia andar. Fui para o hospital de Aveiro, de Aveiro fui para Coimbra. Exames para aqui, exames para acolá, entretanto, fiz mais uns exames no S. João No Porto. A única coisa que encontraram foi uma mancha no cerebelo, mas felizmente passados dois meses, as coisas repuseram-se e voltou tudo ao normal. Ainda estava no Beira Mar, foi precisamente no último ano. Saltei para o Gil Vicente também por ser uma equipa da I Divisão, o treinador era o Vítor Oliveira que quis que fosse para junto dele e eu também tinha a meta de fazer 500 jogos na I Divisão e foi um pouco por isso também.

Como recuperou, fez algum plano especial de alimentação ou treinos, tomou alguma coisa?
Nada. Fiz a vida normal, sem mudar de rotina, sem medicamentos sem nada.

Continuou a fazer exames aos longo dos anos?
Fiz muito exames durante vários meses. Até da coluna quiseram tirar-me um bocadinho de osso para análise. Da primeira vez fugi, estava cheio de medo, não fiz (risos).

Mas nunca descobriram nada. Assim como veio, foi embora.
Felizmente.

A tal mancha no cerebelo desapareceu?
Minha querida amiga, não sei. Acho que desapareceu, nunca mais tive queixas nenhumas, retomei o treino normal. Felizmente até ao momento não se passou mais nada, não tomo medicamentos nenhuns, por isso estou tranquilo, as análises estão boas.

Sousa, em baixo à direita, conquistou a Super Taça Europeia pelo FCP em 1987

Sousa, em baixo à direita, conquistou a Super Taça Europeia pelo FCP em 1987

D.R.

Quando assinou pelo Gil Vicente foi viver para Barcelos?
Também não, também fazia o trajeto diário (risos).

Por que vai depois para a Ovarense?
O meu amigo Adelino Teixeira que era o treinador, joguei com ele no FCP durante algum tempo, falou comigo. O presidente Leonardo Azevedo também já conhecia porque frequentava o Porto e era um homem da bola. Conseguiram dar-me a volta e também como era aqui perto de S. João, fui lá procurar ajudar um pouco.

Calculo que o regresso a seguir à Sanjoanense deu-se pelo facto de querer terminar a carreira onde começou, certo?
Sim, foi isso que aconteceu. Houve a possibilidade de fechar a carreira desportiva como atleta, onde comecei, era um desejo.

Custou-lhe pendurar a chuteiras?
Se calhar não pelo facto de ter saltado, de me terem obrigado a ser treinador.

Obrigaram-no?
Foi quase isso porque no fundo não era essa a ideia que eu tinha. Nunca me passou pela cabeça ser treinador. Nunca. fui empurrado.

No final da carreira pensava então em fazer o quê?
Não saiba, não tinha ideia daquilo que pudesse ser o meu futuro. Nem tinhas metas nenhumas traçadas no que respeita a isso. Só que as coisas foram avançando de uma forma normal.

António Sousa, à direita, num momento de descontração com Eusébio, ao centro

António Sousa, à direita, num momento de descontração com Eusébio, ao centro

D.R.

Quando se torna treinador já tinha algum curso?
Tinha o II nível. O presidente pediu-me para fazer e pediu-me para ficar a comandar a equipa pelo menos durante uma ou duas semanas e que depois se via, porque o dinheiro era escasso. Acedi ao pedido do presidente, as coisas começaram a rolar de uma forma normal e fiquei a jogar e a ser treinador. A partir de certa altura entendi que não era a melhor via porque estando a jogar não se consegue ver bem as necessidades da própria equipa e optei ficar sempre com suplente. Por isso, pouco ou nada me custou pendurar as chuteiras.

Foi jogador-treinador durante quanto tempo?
4 ou 5 meses.

Esteve época e meia na Sanjoanenses, antes de ir para o Beira Mar já como treinador.
Sim, saí a meio na Sanjoanense, deixei a equipa em segundo lugar salvo erro. Tive algumas divergências com algumas pessoas que pensavam que o quintal era só deles. Queriam tomar conta do quintal e eu não sou pessoa para permitir que um Zéquinha qualquer dê ordens. As ordens quem as deve dar é o presidente ou o treinador. Queriam meter-se em situações que não deviam, naturalmente que não tolero, nem tolerei.

Mas está a referir-se a quem?
A pessoas que estavam também a gerir o Sanjoanense. Fui assediado pelo Beira-Mar através do presidente, as coisas não estavam a correr bem em Aveiro, infelizmente, o treinador era o Vítor Urbano, resolveram mandá-lo embora, ele que já era um homem da casa, e de quem fui colega muitos anos quer como jogador, quer como treinador, e acabei por dar o salto.

Quanto anos ficou no Beira Mar nessa altura?
7 anos e meio. Ganho a Taça de Portugal, em 1999/2000. E é o Ricardo faz o golo da vitória contra o Campomaiorense..

Sousa com a mulher e filha

Sousa com a mulher e filha

D.R.

Por que foi buscar o seu filho para junto de si?
Por ter qualidades. Antes disso já o FCP tinha proposto ao Beira Mar a possibilidade de ele ir para o clube e eu não queria, pelo facto de ser meu filho. É sempre complicado, no balneário, de gerir as coisas, não é fácil. De qualquer das formas já tinha a experiência aqui da Sanjoanense porque ele na altura também, quando eu estava na Sanjoanense, deu o salto e tinha sido promovido para a equipa principal, antes de ir para o FCP.

Foi promovido por si para a equipa principal?
Sim. E aqui, por ser na terra, as coisas tornaram-se mais complicadas. O problema maior era a gestão no balneário, do próprio grupo em relação a ele. Mas eu procurei desde o primeiro dia inserir dentro da mentalidade do grupo que o Ricardo é mais um jogador, não tem nada a ver o facto de ser o filho do treinador que vai ter regalias que os outros não têm, ou que vai ser o bufo, isso não existe. E não existia mesmo. As coisas tornaram-se mais fáceis a partir daí.

Depois não o queria deixar ir para o FCP porquê? Queria tê-lo debaixo da sua asa?
Não. Queria que ele conseguisse ser feliz, ser enorme, conseguir jogar em grandes clubes. A qualidade que ele possuía dava-lhe asas para que fosse um extraterrestre no que diz respeito à qualidade individual que possuía. Agora há outras coisas que não o deixaram ir muito mais além.

Que coisas?
Uma geração diferente. A geração dele, a maior parte eram meninos que tinham tudo à mão. Não sofreram na pele algumas necessidades que deveriam ter sofrido porque os papás davam-lhes tudo. Se calhar isso foi o único senão em relação ao não crescimento dele como atleta.

Está a querer dizer que perdeu-se um bocadinho com as coisas normais da juventude e esqueceu o futebol, é isso?
Sem dúvida. É o quanto baste.

Discutiam muitas vezes por causa disso?
Não, pouco ou nada porque ele sempre que esteve comigo a sua conduta foi excelente. Nunca houve um mínimo de desconforto por parte do grupo em relação a ele, ou em relação ao treinador, pelo facto de jogar ou não jogar, de fazer golos ou não. O Ricardo nunca me relatou nada sobre o balneário. Foi sempre um exemplo e procurava dentro das quatro linhas mostrar aos colegas que tinha valor para lá estar. Por isso nunca houve qualquer tipo de discussão.

Mas deu a entender que ele se perdia um bocadinho com as coisas da juventude em vez de se focar no futebol. Nessa altura não o chamava à atenção?
Na altura, com 18 anos, ele já queria viver sozinho, ir ter com os amigos e com as amigas. Era um pouco isso a juventude dessa geração.

Não o conseguia travar?
Pouco ou nada. Não é fácil.

AntónioSousa, à esquerda, com o neto Afonso e o filho Ricardo

AntónioSousa, à esquerda, com o neto Afonso e o filho Ricardo

D.R.

Entretanto segue-se o Rio Ave. Porque já há um desgaste no Beira Mar?
Sim, houve uma mudança, não por minha vontade. Houve uma grande vontade por parte da liderança do próprio clube. Eles tiveram a possibilidade de uma parceria inglesa de trazer jogadores e aquelas coisas que hoje é norma na grande maioria dos clubes e essa empresa naturalmente tinha um treinador para colocar no Beira Mar, e teria que ser ele, não poderia ser eu. Foi dessa forma que as coisas se passaram.

Foi fácil arranjar clube?
Estive parado durante um ano porque aquilo que me apareceu não me agradou. E no ano seguinte tive a oportunidade de ir para o Rio Ave. Aceitei com bom agrado, olhando ao facto de ser uma equipa que foi bem liderada pelo Carlos Brito que saiu na altura em que tomei o comando.

Mas esteve lá pouco tempo.
7 meses. Começaram muito bem mas a meio da época...Os treinadores é que são sempre culpados, estava ali no meio da tabela para baixo, em zona aflitiva e não houve por parte da massa associativa e da própria direção, um conforto que me desse a possibilidade de poder continuar e assegurar que o Rio Ave fizesse um campeonato tranquilo.

Ficou mais um ano parado e vai para o Penafiel.
Sim, também a pedido de algumas pessoas que me conheciam, embora eu não estivesse muito para aí virado. Não foi agradável. O plantel em si tinha algumas lacunas determinantes, o que fez com que não conseguíssemos atingir os objetivos traçados.

Regressa a casa, ao Beira Mar.
Sim, regresso com um presidente, com quem tinha deixado de ter contacto há muitos anos, Mano Nunes

É ele que o vai buscar?
É. Mandou o recado por alguém amigo e eu disse que estava disponível para conversar, para saber quais eram os objetivos do clube e a partir daí esqueceu-se um pouco o passado. A partir de certa altura comecei a sentir que continuava a ter uma pedra na mão devido ao abandono e algumas quezílias pessoais desde a primeira sangria que nunca se desmontaram.

E veio embora.
A meio da época acabei por abdicar. Por vontade deles, não pela minha, não prescindi absolutamente de nada, porque sentia que estava a ser traído mais uma vez.

Sousa com o neto Afonso

Sousa com o neto Afonso

D.R.

Volta a ficar parado dois anos e vai para o Trofense.
Sim, também outro do género. Mudança total e radical em relação aquilo que o Trofense tinha vindo a ser nos anos anteriores. Quando lá cheguei tinha 11 ou 12 jogadores, uma cambada de miúdos, que tinham passado de juniores para seniores. Estava sem plantel, chegava a conta gotas, por isso foi uma época extremamente complicada e difícil. O primeiro jogo que fiz, salvo erro foi contra o Belenenses, para o apuramento para a Taça, tinha só 13 jogadores para dois jogos. Chegava hoje um, amanhã chegavam mais dois, para a semana chegava mais um ou outro, as coisas foram andando e as dificuldades eram enormes porque não havia dinheiro, o clube estava um bocado à deriva. Havia jogadores que me diziam “Então mister como é que é? Vem mais gente ou não vem mais gente?”, sentiam obviamente que as coisas não estavam a ser nada agradáveis mediante aquilo que tinha sido proposto naturalmente pelo próprio presidente. A pressão aumenta e as coisas acabam por descambar e eu acabei por aceitar a vontade de algumas pessoas que estavam a pressionar o presidente, e mais uma vez, vim embora.

Não voltou a treinar?
Não, nunca mais. Por opção própria. Achei que chegava. Estava a ficar cansado e saturado de aturar pessoas.

Deixa o futebol com alguma mágoa?
Não. Deixo em relação a algumas pessoas, não com o futebol. O futebol continua a ser a minha paixão, continuo a acompanhar, continuo a ver, continuo a ter a minha opinião. Agora as pessoas é que me desiludem, isso é que é o grande problema.

Antonio Sousa à porta da sua papelria/tabacaria, onde agor apassa a maior parte dos seus dias

Antonio Sousa à porta da sua papelria/tabacaria, onde agor apassa a maior parte dos seus dias

D.R.

Está a aproveitar a reforma, tem alguma actividade?
Temos um estabelecimento em São João da Madeira que é uma papelaria/ tabacaria, com Jogos da Santa Casa, e faço aqui um pouco o dia a dia. Estou com a minha mulher e o meu cunhado. Estou aqui entretido a passar o tempo e vou acompanhando os homens do futebol quando posso. Hoje mais do que nunca acompanhando e vendo o Ricardo e as equipas dele, e procurando de certa forma estar atento a tudo o que se passa.

Onde é que ganhou mais dinheiro?
No FCP.

Qual foi a maior extravagância que fez porque podia?
A maior extravagância foi comprar a minha casa em São João da Madeira.

E carros? Nunca foi maluco por carros?
Não. Gostei sempre de ter o meu carro, de preferência um BMW.

Qual foi a maior amizade que fez no futebol?
Acho que no futebol se criam poucas amizades.

Não houve nenhum jogador ou jogadores de quem se tenha aproximado mais?
Mantenho uma relação boa com muita gente, pontualmente contacto com gente do futebol. Penso que as relações de amizade com a maioria dos jogadores do FCP conservam-se. No Sporting, com o Oceano também tenho uma relação muito boa.

De todos os treinadores que teve, qual foi o que mais o marcou e porquê?
O José Maria Pedroto, no fundo foi ele que me pôs na grande montra do futebol não só nacional, mas europeu e mundial também, por me ter levado para o Porto.

Calculo que de quem tem recordações menos boas é de Artur Jorge...
...Não, o pior foi um que tive no Beira Mar, o belga Jean Thyssen. Era louco. Só queria correr. Os treinos eram só correria, bola não existia. Só queria que a gente chutasse para a frente, não nos permitia chegar a certas posições, parece que tinhamos uns metros quadrados reservados e não podíamos ultrapassar aquilo. Acho que foi a pior coisa que encontrei no futebol, foi esse senhor.

Era supersticioso enquanto jogador?
Não, nada.

Em relação a este Mundial, acha que as expectativas estão muito elevadas em relação à seleção nacional?
No fundo o ser campeão europeu obriga-nos a ter essa fasquia. Acho que temos uma boa equipa sem dúvida, mas não me parece que tenhamos equipa para lá chegar. Agora que acredito que podemos fazer um excelente Mundial, acredito.

Quem é que acha que está em melhor posição?
Há equipas muito fortes. O Brasil, a Alemanha, a própria Argentina, a Espanha, não tenho a menor dúvida que dessas 4 provavelmente sairá o vencedor.