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Mundial 2018

Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O VAR no Mundial: uma mudança de paradigma demora algum tempo, alerta Duarte Gomes

O ex-árbitro Duarte Gomes analisa a presença inédita do VAR no Mundial 2018, que já está marcada por alguns erros (incluindo aquele lance entre Diego Costa e Pepe)

Duarte Gomes

Diego Costa terá feito falta sobre Pepe... mas o árbitro não viu - e o VAR não corrigiu

Simon Hofmann - FIFA

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O arranque do Campeonato do Mundo tem mostrado a quem gosta de futebol as duas grandes verdades em torno da vídeo-tecnologia. As mesmas, aliás, que todos nós já tínhamos constatado no último ano da sua fase de testes, na Primeira Liga portuguesa:

- Trata-se de uma ferramenta indispensável e de grande mais-valia para a arbitragem e para a verdade desportiva;

- O homem que a comanda precisa de mais tempo, mais treino e mais competição, porque as arestas por limar são ainda mais do que muitas.

O que é que isso significa, na prática?

Significa que universalizar conceitos não é fácil. Nunca é fácil. Sobretudo quando a base do ensinamento centra-se numa filosofia de "usar apenas em casos extremos", que é como quem diz, só intervir quando o erro em campo for gigante, maciço e visto da lua.

O Mundial da Rússia tem nos árbitros a maior de todas as equipas. Ao todo, são noventa e nove juízes, oriundos de quarenta e seis países distintos.

Trocando por miúdos, estamos a falar de trinta e seis árbitros (dos quais treze na função exclusiva de VAR) e sessenta e três árbitros assistentes, assim distribuídos:

- Dez da UEFA (europeus), seis da CONMEBOL (sul-americanos), seis da CONCACAF (centro e norte-americanos), seis da CAF (africanos) , seis da AFS (asiáticos) e dois da OFC (Oceania).

Se é justo sublinhar que alguns deles têm experiência adquirida em matéria de vídeo-arbitragem (os seus países marcaram presença na fase de testes), convém também não esquecer que muitos outros estão apenas agora a ter o primeiro contacto oficial com esta realidade. É que esta tecnologia ainda não chegou ao Senegal, Nova Zelândia, El Salvador, Gâmbia, Haiti ou Etiópia... apenas para citar alguns.

Uma mudança de paradigma demora algum tempo. E uma mudança radical de paradigma demora ainda mais.

É aqui que o árbitro revê as imagens de um lance duvidoso

É aqui que o árbitro revê as imagens de um lance duvidoso

Jamie Squire - FIFA

Os árbitros habituaram-se, durante muitas e muitas décadas, a tomarem decisões sozinhos. Dentro do campo. Decisões em movimento. Dinâmicas. Com base no que viam, ouviam e intuiam. Com base na voz tímida dos seus colegas de linha. Com base na sua experiência, sensibilidade e autoridade.

De um momento para outro, passaram a ter um colega - confortavelmente instalado numa sala e em posição (muito) privilegiada - a dizer-lhes que, se calhar, erraram. Que aquele lance na área era mesmo penálti ou que o vermelho que exibiram, afinal, era só para amarelo.

Por outro lado, quem desempenha a função de Vídeoarbitro também sente o desconforto de ter de corrigir o colega que está em campo.

Mais. Sente o peso, a responsabilidade de ter que alterar a história de um jogo através de uma intervenção à distância.

Se é verdade que todos eles - todos sem exceção - querem dar o seu melhor, não deixa de ser verdade também que alguns poderão sentir-se algo limitados, condicionados, por força dessas partidas do subconsciente.

Como se esse obstáculo "mental" não fosse suficiente, ainda têm que cumprir, com rigor, as instruções que recebem da FIFA: nunca podem intervir a menos que o lance seja absolutamente evidente. Mais. Não se podem meter em nenhuma situação que o protocolo exclua. Mesmo que vejam, sem margem para qualquer dúvida, que o árbitro errou, de forma grosseira.

É ou não é pedir muito, em tão pouco tempo?

O Mundial 2018 é a primeira grande prova com videoárbitro

O Mundial 2018 é a primeira grande prova com videoárbitro

Lars Baron - FIFA

Os erros que temos assistido nestes primeiros dias de "Copa" são elucidativos.

A falta clara e evidente do Diego Costa sobre o Pepe ou o empurrão de Zuber a Miranda (que deu o empate aos suiços, na partida de ontem com os brasileiros) teve imagens e clareza mais do que suficiente para merecer a vídeo-intervenção. Mas não mereceu.

Tal como não mereceram a carga ilegal (na área) de Hummels sobre Hernández ou a estalada de Prijovic num costa-riquenho (se bem que ali o erro foi do árbitro que, mesmo revendo as imagens junto ao relvado, entendeu que o amarelo era castigo suficiente para uma agressão).

Por muito que a FIFA se tenha esforçado (e esforçou-se) para dotar os árbitros com os melhores e mais capazes recursos tecnológicos - não esqueçamos que há trinta e três câmaras e quatro VAR em cada jogo - esqueceu o princípio mais elementar: a humanidade de quem comanda esses meios.

E essa varia, lá está... em função da experiência adquirida, da competência e sensibilidade para a função, da serenidade e... da coragem. Da coragem para intervir e para aceitar a intervenção.

A video-tecnologia é poderosa, útil e inegável no que traz e poderá trazer ao futebol, mas o seu percurso depende sempre do homem. E esse é um caminho que só agora está a comecar.

É o preço a pagar por querer na maior das montras um diamante fantástico... que ainda está em bruto.