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Mundial 2018

Sabe mesmo onde morreu o rei D. Sebastião? Em Limoges ou Marrocos

No dia em que a seleção das quinas joga com a equipa marroquina no Mundial de Futebol, o Expresso conversou com investigadores que defendem que o jovem rei D. Sebastião sobreviveu a Alcácer Quibir e morreu em França perto dos 80 anos

Manuela Goucha Soares

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Por um acaso do sorteio, os dois primeiros jogos da seleção portuguesa no Mundial são contra Espanha e Marrocos, os nossos vizinhos mais próximos, com os quais tivemos várias querelas e escaramuças ao longo dos séculos. Um dos momentos mais marcantes da história portuguesa é o desaparecimento do rei de Portugal em Marrocos, a 4 de agosto de 1578, dia em os portugueses tiveram de lutar contra o adversário marroquino e o calor que se sentia a caminho das portas do deserto.

Aos 24 anos, solteiro e sem descendência conhecida, Sebastião, rei de Portugal, sonhava com a expansão do reino e, por essa razão, respondeu a um pedido de ajuda de Mulei Mohammed, que disputava o poder com um familiar.

O confronto entre o exército português e as forças marroquinas ocorreu em Alcácer Quibir, a 30 km da cidade costeira de Larache. O exército português em menor número e mais mal preparado do que o marroquino, chegou ao campo de batalha esgotado e esfomeado depois de uma longa marcha por terra resultante de um erro estratégico no local escolhido para o desembarque, em Arzila, a cerca de 80 km do local onde ocorreu o combate.

Os marroquinos venceram a batalha, mas o sultão Abd Al-Malik, comandante das forças marroquinas, morreu na batalha. Mulei Mohammed, o aliado local de D. Sebastião, também morreu quando tentava fugir do confronto, e o rei de Portugal D. Sebastião desapareceu em Alcácer Quibir.

A historiografia mais consensual dá-o como morto em combate, enquanto outros investigadores se apoiam nos relatos de muitos nobres portugueses presentes na batalha, que só afirmam ter visto "um cadáver nú e desfigurado", diz Manuel Gandra ao Expresso.

Preso em Larache e resgatado pelos ingleses?

Sabemos que o cavalo de D. Sebastião morreu na batalha e que há relatos de ter sido substituído pela montada de um dos nobres que o acompanhava e ficara gravemente ferido; sabemos também que o rei tinha 22 sinais particulares no (seu) corpo, que facilitavam uma total identificação – entre eles "uma verruga no dedo mindinho de um pé que mais parecia um sexto dedo", diz Manuel Gandra, autor do livro "Hagiografia de D. Sebastião — de Desejado a Encoberto", entre outras obras.

Retrato a óleo do rei D.Sebastião

Retrato a óleo do rei D.Sebastião

DR

"Os mais importantes documentos sobre este assunto estão fora do país", diz Gandra, que já consultou os materiais disponíveis nos arquivos de Simanca e Medina Sidónia: "Há documentos relevantes em Marrocos mas como não leio árabe, nunca pude concluir essa pesquisa", conta Manuel Gandra ao Expresso, um dos investigadores que acredita que D. Sebastião sobreviveu à batalha.

Esta opinião não se afasta da de Maria Luísa Martins da Cunha, autora de "Grandes Enigmas da História de Portugal"; a autora defende que a versão oficial da História de D. Sebastião, teve intuitos políticos.

Túmulo e medalha achados em França

Em 1904, foi publicado em França um opúsculo da autoria do abade Hubert Texier, em que este descreve que nas "escavações na igreja do mosteiro agostiniano de Limoges, foi encontrada entre os ossos humanos, uma medalha de ouro em volta da qual se lia Sebastianus primus Portugaliae rex. Esta medalha levava uma estátua de pedestre em traje de monge. Via, examinei-a (...) ".

Gandra destaca o relato do abade Texier, referindo que a medalha se encontrava “num túmulo de pedra de granito, ao lado de um esqueleto muito bem conservado. Portanto, não se pode atribuir a sua presença no lugar a um puro acaso.”

Para Gandra, a descoberta atesta, pois, de modo formal que Sebastião foi para França; que morreu tarde e findou a vida no mosteiro dos Agostinhos de Limoges; e que aí foram depostos os seus restos mortais.

Apesar de polémicas, as teorias históricas que defendem que D. Sebastião não morreu em Alcácer Quibir têm adeptos. O ensaísta Miguel Real, autor do livro "Nova Teoria do Sebastianismo", lembra que a campanha de Alcácer Quibir também comprometeu seriamente as finanças do país, já que o rei "contraiu empréstimos junto de outros Estados europeus para contratar mercenários". Pior do que isso, fez-se acompanhar por boa parte da nobreza mais bem preparada, "decapitando" a elite dirigente, que morreu ou foi feita prisioneira.

Resta saber como é vai ser o confronto entre Portugal e Marrocos, num relvado bem verde e bem longe das areias do deserto, 440 anos depois de Alcácer Quibir.