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No tempo em que o nosso “inimigo amigável” gostava de vinho

No dia em que a seleção das quinas joga com a equipa do Irão no Mundial de Futebol, o Expresso lembra-lhe que xeque-mate, jasmim e xaile são palavras importadas de terras iranianas. Conversámos com investigadores e diplomatas sobre a aliança de Portugal com os safávidas que há 500 anos governavam o atual Irão e ofereciam banquetes onde o vinho abundava

Manuela Goucha Soares

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Vamos dar um xeque-mate ao Irão – é a pergunta que muitos portugueses fazem esta segunda-feira; mas enquanto conversam com os seus botões, no café, no trabalho ou no autocarro, talvez não se lembrem que este termo é de origem persa, ou seja, vem das terras onde fica o atual Irão.

Para o xeque-mate não viajar sozinho pelo mundo – ou, quem sabe, o português Carlos Queiroz poder lidar com mais termos familiares quando trocou Portugal pelo Irão... – temos várias palavras de origem persa no nosso vocabulário quotidiano; é o caso de divã, caravana, gaze, xaile, jasmim, e pijama, entre outras.

O bazar – palavra persa que significa o lugar dos preços – como que simboliza o comércio, um dos grandes motivos que levou Portugal a estabelecer relações diplomáticas com a Pérsia há mais de 500 anos.

O primeiro contacto oficial entre Portugal e a Pérsia teve por base a conquista portuguesa de Ormuz em 1507, pela armada” de Afonso de Albuquerque, diz ao Expresso Roger Pessoa de Jesus, doutorando em História dos Descobrimentos na Universidade de Coimbra.

O Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz foi mandado construir por Afonso de Albuquerque no início do século XVI. Fica na ilha de Gerun, no estreito de Ormuz,no Irão

O Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz foi mandado construir por Afonso de Albuquerque no início do século XVI. Fica na ilha de Gerun, no estreito de Ormuz,no Irão

Rui Ochoa

O reino de Portugal precisava de garantir uma navegação segura das naus carregadas de pimenta que viajavam da Índia para Lisboa, e a instalação/conquista da ilha de Ormuz – de onde poderiam controlar a navegação e o comércio da zona – foi um passo importante para o êxito desta estratégia comercial que gerava grandes receitas.

“Os portugueses rapidamente se aperceberam das divergências existentes entre muçulmanos xiitas e muçulmanos sunitas”, explica ao Expresso Rui Manuel Loureiro. Nessa época, o reino de Ormuz era uma espécie de protetorado do império Persa.

Diplomacia – ou a escolha do melhor parceiro

As relações entre a Pérsia da dinastia safávida e o reino de Portugal nasceram de “uma aliança para combater os otomanos”, diz ao Expresso o embaixador Manuel Marcelo Curto que representou Portugal em Teerão entre 1994 e 1997.

O império otomano, sunita, tinha objetivos de grande expansão terrestre, não estando aparentemente interessado na parte marítima. A dinastia safávida, xiita, tinha interesse em travar a expansão otomana, criar meios para a expansão do seu território, e esta estratégia revelou-se compatível com os objetivos expansionistas de D. Manuel, nascendo assim uma aliança tácita entre os dois reinos, e transformando a Pérsia que agora se chama Irão, no “nosso inimigo amigável”, como lhe chama o historiador Rui Louceiro.

Trecho do segundo volume de as “Decadas” de João de Barros; D. Manuel desafiou o autor da segunda Gramática da língua portuguesa para escrever uma história que narrasse os feitos dos portugueses na Índia. Assim nasceram as Décadas da Ásia

Trecho do segundo volume de as “Decadas” de João de Barros; D. Manuel desafiou o autor da segunda Gramática da língua portuguesa para escrever uma história que narrasse os feitos dos portugueses na Índia. Assim nasceram as Décadas da Ásia

D.R.

As boas relações diplomáticas exigem (entre muitas outras coisas) embaixadas, protocolo, alguns banquetes, e relatos. É provável que alguns destes relatores tenham sido fontes primárias de João de Barros, cronista e escritor de viagens que sem nunca ter viajado muito escreveu com base nas viagens dos outros; um armchair traveler, como o designou Rui Loureiro numa comunicação ao colóquio "Viajantes e textos de viagens no Irão Safávida".

O texto introdutório desse colóquio lembra que "os escritos tendem a reforçar a individualidade do Irão. Mais do que ideias, quem viajava para a Europa via Irão deixou registado um conjunto diversificado de informações sobre o seu presente xiita, mas também sobre o seu passado Clássico e bíblico de um país chamado tradicionalmente de Pérsia, cuja cultura irradiou para os países circunvizinhos e não tanto para o Ocidente. A imagem que daí nasceu nunca foi unívoca mas sim complexa".

Com base nos relatos dos portugueses da época sabemos que a presença portuguesa em Ormuz não era bem vista por quem sentia que perdia poder com essa ocupação.

Folha de rosto da 1.ª edição do livro conhecido por “Itinerário de António Tenreiro” editado em Coimbra em 1560. Imagem retirada do exemplar da Biblioteca Nacional de España

Folha de rosto da 1.ª edição do livro conhecido por “Itinerário de António Tenreiro” editado em Coimbra em 1560. Imagem retirada do exemplar da Biblioteca Nacional de España

D.R.

Roger Pessoa de Jesus lembra que "as questões relativas a Ormuz mantiveram-se e foram responsáveis pela quarta embaixada", em 1523 [a primeira é em 1513]. Além do próprio rei de Ormuz se manifestar contra o pagamento de um tributo ao monarca português, o Xá [safávida da Pérsia] continuava a não aceitar totalmente a subjugação da ilha às forças lusas, levando a que um dos seus capitães começasse a impedir que mantimentos e diversos produtos chegassem à cidade .

Balthazar Pessoa é enviado nessa embaixada de 1523, com uma vintena de acompanhantes, entre eles, António Tenreiro, autor de um itinerário daquela viagem, editado quatro décadas mais tarde em Coimbra (1560). O Xeque (Xá) Ismael morre durante a estada dos portugueses, e o seu sucessor não soluciona os problemas que a motivaram.

A legenda original desta imagem do século XVI diz “Jente Portuguesa de Ormuz que estão comendo dentro d'aguoa por ser a tera muito calmosa”. A imagem é do Codex 1889 da Biblioteca Casanatense, Roma

A legenda original desta imagem do século XVI diz “Jente Portuguesa de Ormuz que estão comendo dentro d'aguoa por ser a tera muito calmosa”. A imagem é do Codex 1889 da Biblioteca Casanatense, Roma

D.R.

O imenso calor local também é mencionado nos escritos dos viajantes, mas tudo indica que os portugueses descobriram que comendo dentro de água poderiam refrescar-se, como mostra a imagem coeva que reproduzimos acima.

A alimentação tem facetas quase protocolares e, nas primeiras embaixadas enviadas à Pérsia no tempo do Xeque Ismael (fundador da dinastia safávida), “o banquete sempre revelou ser um momento de destaque, (...) eram momentos solenes, ricos, espelho da grandeza do arraial do Sufi” – refere Pessoa Jesus. Os relatos da época referem “muita diversidade de manjares, e fruitas, e vinhos e muitos tangeres darpas, alaudes e frautas á nosa husança”.

Habituados a encontros com muçulmanos, e sabendo que estes não bebiam vinho por motivos religiosos, os portugueses de então constataram que o consumo de vinho era aceite na Pérsia safávida; Roger Pessoa de Jesus lembra que “a corte do Xeque Ismael era grande consumidora deste produto, não fazendo qualquer embargo ao seu uso”, e que não o bebiam traçado (misturado com água) como era então uso em Portugal.

Há 500 anos, a viagem dos portugueses para o Golfo Pérsico, Portugal mostrou "ao Ocidente a riqueza cultural, étnica, linguística e religiosa da Pérsia", como o atesta este livro recentemente editado.

Sendo provável que todos os portugueses torçam contra o Irão esta tarde, é desejável que estejam solidários com as mulheres iranianas, a quem a Revolução Islâmica de 1979 retirou (em 1980) o direito a assistir a um desafio no seu país; tirou-lhes este direito, entre muitos outros, como o de andar de cabeça descoberta.