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Mundial 2018

Desculpa Beckenbauer, a homenagem saiu ao lado. O campeão do mundo está fora do Campeonato do Mundo

Esta é a crónica de um jogo que fica para a história: Coreia do Sul 2-0 Alemanha. Noventa minutos a partir pedra, a carne toda no assador, oportunidades flagrantes e alguns falhanços depois, os golos acabaram por sair dos pés do sul-coreanos, que empurraram assim a campeã do mundo para fora do Mundial

Hugo Tavares da Silva

Alexander Hassenstein

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A Alemanha tinha uma farda impecável neste Mundial, homenageando a seleção de 90, campeã mundial em Itália. Os rapazes de Beckenbauer venceram a Argentina de Maradona na final de Roma, com um golo de Brehme, e festejaram o tri.

Vinte e oito anos depois, com um verde bonito que dói e Özil, Reus, Muller, Werner e Gomez em campo, a Alemanha não passa a primeira fase do torneio, algo que só aconteceu uma vez, em 1938.

A Coreia do Sul venceu os germânicos por 2-0, com golos de Son Heung-min e Kim Young-Gwon. É a quinta vez que aqueles que venceram a prova quatro anos antes caem na fase de grupos: Brasil-1966, França-2002, Itália-2010 e Espanha-2014.

Podíamos ficar nisto a tarde inteira, a puxar a fita atrás e a falar dos feitos da Alemanha nos últimos Mundiais. Foram só quatro pódios desde o Campeonato do Mundo no Japão e Coreia do Sul: 2.º lugar em 2002, 3.º em 2006, 3.º em 2010 e 1.º em 2014. A mentalidade no futebol alemão mudou depois daquele 0-3 contra Sérgio Conceição, em 2000. Construíram-se mais academias de alto rendimento, olhou-se mais ao talento, caprichou-se na formação de treinadores. O processo ficou conhecido por Das Reboot.

O futebol naquele país mudou. Começou com Jürgen Klinsmann no banco, de quem Joachim Löw era adjunto. Depois Löw pegou na equipa e, em 2014, sagrou-se campeão do mundo - com uma ajudinha de Pep Guardiola, na altura o treinador do Bayern Munique, que jogava divinamente e emprestava muitos jogadores à seleção.

Alexander Hassenstein

A Coreia do Sul entrou esta tarde em campo à espera de um milagre (Son falava em 1% de hipótese): precisava de vencer a Alemanha por 2-0 (wait, what…) e esperar que o México de Osorio continuasse a jogar muito e vencesse a Suécia. Foi a parte menos improvável a acontecer. O futebol é isto, amigos. Não é o que se diz?

A continência de Hong Chul durante o hino sul-coreano dava o pontapé de saída para as conversas com as pessoas do lado. É que o jogador do Sangju Sangmu Phoenix, assim como Kim Minwoo, estão a cumprir serviço militar. Era mesmo isso que Son e companhia queriam evitar, algo que aconteceria se atingissem os oitavos-de-final. Restam-lhes duas hipóteses: ganhar os Jogos Asiáticos ou um ataque de boa vontade do Governo depois dos rapazes eliminarem a poderosa Alemanha.

Os homens de verde entraram com Neuer, Kimmich, Hummels, Sule, Hector, Khedira, Kroos, Goretzka, Özil, Reus e Werner. A Coreia do Sul fez quatro mexidas, com destaque para a saída de Hwang e o regresso de Koo Jacheol. Os alemães começaram com muita bola, pois claro. Os asiáticos estavam enfiados lá atrás, à espera que Son, hoje a ponta de lança, inventasse algo lá na frente, mas ele estava pouco acompanhado.

Khedira e Kroos controlavam o jogo, enquanto Mesut Özil era o génio que tentava aqui e ali acelerar o ritmo. Ritmo. Aí está um dos problemas desta seleção que acaba por saltar fora do torneio. Faltou mobilidade aos jogadores sem bola, já que com ela no pé jogam todos uma maravilha. Quando entrava uma combinação direta rápida, os sul-coreanos até trocavam os olhos, baralhando o bloco baixo, que mais parecia uma floresta bem organizada pintada de vermelho.

Catherine Ivill

A primeira parte resume-se mais ou menos assim: Neuer quase deu um frango, após livre de Jung, corrigindo o erro depois com uma sacudidela que fechou a porta da glória a Son, o homem do Tottenham que já tinha marcado um golaço ao México. A Alemanha, outra vez, tinha muita posse, muita gente à frente da linha da bola, que é um bom indicador, mas era previsível e lenta. Iam jogando “andebol”, enquanto os asiáticos eram mais ferozes a atacar a baliza alheia. Werner dava muita largura, às vezes faltava referência na frente -- os centrais coreanos estavam bem. Quase dá para imaginar os suspiros dos mais velhos no sofá, a lembrar Gerd Müller, Bierhoff, Klinsmann ou Klose, que estava ao lado do castigado Boateng na bancada.

A segunda parte intensificou urgências. Até porque a Suécia desatou a marcar golos ao México, o que obrigava a Alemanha a marcar. Mas o desacerto e mais uma sólida exibição de Hyun-Woo Jo, guarda-redes sul-coreano, não estariam para aí virados. Esperava-se que os alemães empurrassem os coreanos para trás, o que aconteceu, mas talvez não se esperassem tantos contra-ataques perigosos do outro lado.

Mais parecia aquela ida clássica à banca das pressões de ar para acertar na lata e levar o peluche. O peluche era os oitavos-de-final. Na lata ninguém acertou. Werner, Reus, Toni Kroos e Hector, um defesa esquerdo muito vagabundo no campo, foram dos que tentaram. Löw ia metendo carne no assador, com Mario Gomez, Müller e Brandt. Kimmich (não sabe jogar mal, certo?) e Hector iam dando um cheirinho por dentro, embora o lateral do Bayern aparecesse a fazer cruzamentos. E ainda fazia piscinas para defender. Faz tudo. Nada. Os alemães andavam ali a partir pedra e nada. Avançados e mais avançados, uma equipa encolhida a mirar ao longe a baliza de Neuer, e Özil com a responsabilidade de furar linhas com passes saídos da canhota.

Shaun Botterill

Quando toda a gente já tinha tentado, Kim Young-Gwon fez o 1-0, que foi necessário ser escrutinado pelo VAR. O coreano estava fora de jogo, mas as repetições do árbitro-robot mostraram que a bola saiu do pé de um alemão. Golo. A Alemanha está fora. Depois de uma falsa partida, os mexicanos festejam outra vez no campo quando já perdiam por 3-0. Porque o futebol às vezes é inexplicável, e porque Hummels falhou outro golo incrível (fechou os olhos e cabeceou com o ombro, digamos), o marcador voltou a bailar, 2-0: Son correu um meio campo inteiro sozinho e encostou para a baliza deserta. Neuer já estava a jogar à frente, talvez à espera de dar numa de Hassler ou Effenberg, perdeu a bola e os coreanos dispararam em direção à sua baliza. Tor.

Apito final em Kazan: a Alemanha cai com golos aos 94’ e 96’ e dá o lugar nos oitavos a México e Suécia. Joachim Low, que renovou antes do Mundial até 2022, talvez esteja a sofrer de questões de balneário. É que Sané ficou fora dos 23 e Neuer, sem jogar durante a época, roubou o lugar a Ter Stegen, um homem importantíssimo no Barcelona.

Afinal, a lengalenga de Gary Lineker já não é verdade e o próprio tratou de se desmentir no Twitter: “O futebol é um jogo simples. 22 homens perseguem a bola durante 90 minutos e, no fim, já não ganham os alemães. A versão anterior está confinada à história”.