Tribuna Expresso

Perfil

Mundial 2018

Já lá vão 80 anos desde que a Alemanha sentiu algo parecido com esta catástrofe

Nunca, jamais, alguma vez, os alemães se tinham ficado pela fase de grupos de um Campeonato do Mundo. Mas já tinha acontecido irem para casa na primeira fase, em 1938, quando o Mundial ainda não agrupava equipas e se jogava logo a eliminar

Diogo Pombo

AFP

Partilhar

É uma história que nos empurra para trás na história, até ao início de um tempo que será para sempre historiado, porque imperativo é não esquecer as fases negras de modo a que elas não se repitam.

Em março de 1938, a Alemanha, com as rédeas já entregues à propaganda ideológica de Adolf Hitler, anexou a vizinha Áustria na sua demanda político-militar-imperialista forçada pelo regime nazi. Restavam cerca de três meses para se realizar o terceiro Campeonato do Mundo de futebol, desporto redondo e jogado com botas, que alastrava o seu encanto por muitas nações, mas também as fazia colidirem, fortemente.

Escolher a França como anfitriã significou puxar pela ira de Argentina e Uruguai, que não jogariam o Mundial por se oporem à fuga do torneio da América do Sul para se fixar, pela segunda edição consecutiva, na Europa.

Os austríacos chutaram na bola a bom proveito para se qualificarem, mas vagaram a sua vaga para a Suécia, porque já pertenciam, formalmente, à Alemanha nazi, que não era o único regime totalitário e com laivos ditatoriais. A Itália de Benito Mussolini, seu aliado na segunda loucura bélica que afetaria o século XX, a partir do ano seguinte, também jogaria o Mundial - e conquistá-lo-ia, repetindo a façanha de 1934.

Nestes tempos idos, o Mundial de 1938 arrancou com 16 seleções e não concedia segundas oportunidades: não existia fase de grupos, nem jogos a pontuar, mas sim uma competição sempre a eliminar, que começava pelos oitavos-de-final.

Os alemães foram sorteados com a Suíça e empataram (1-1). À falta de golos dourados ou da regra de tirar as teimas através de penáltis, o jogo teve que ser repetido.

A repetição fez o suíços vencerem (4-2) uma partida em que, entre 11 tipos a jogarem pela Alemanha nazi, existiam cinco nascidos na Áustria e, até há meses, austríacos na nacionalidade. Em ambos os jogos, alinharam-se antes do apito inicial, esticaram o braço direito e replicaram a saudação nazi, enquanto o público francês, a viver um governo de esquerda com a Frente Popular do país, os assobiava e apupava, como recordou Toni Padilla, jornalista da revista "Panenka".

Keystone-France

Era a bandeira nazi que estava içada e esticada pelo vento, no alto da cobertura do estádio de Marselha. Diz-se que Sepp Herberger, o então selecionador, alinhou os cinco austríacos na equipa para indicar de que a anexação era legal. À época, quem começa um jogo de futebol por certo o terminava, salvo mazelas ou expulsões, porque as substituições ainda não faziam parte das regras (só o seriam a partir de 1958, em Mundial, apenas da edição de 1970 em diante).

A Alemanha foi eliminada à primeira fase do Mundial em 1938, feito único pelo facto de apenas ter jogado uma partida. Algo sem réplica nas 17 edições da competição em que os germânicos participaram - falharam a presença em 1930 e foram banidos de jogar em 1950, como repercussão da Segunda Guerra Mundial.

Oitenta anos passaram até os alemães serem, de novo, eliminados na primeira ronda do Mundial, embora seja inédita a forma como caíram: na fase de grupos, com três hipóteses de o evitarem e, peso mais pesado, sendo os campeões do mundo em título.

Esta Alemanha de Joachim Löw, aterradora nos nomes que carregam experiência, talento e qualidade, encravou-se a si própria num ataque demasiado virado ao centro e construiu a sua ruína ao defender com poucos homens e ter tantos a transitarem, quase parados, na transição defensiva. Que é como quem diz, quando tinham de correr para trás ou reagir às perdas da posse de bola.

Terminaram este Mundial de 2018, na Rússia, com um ponto fabricado entre dois golos marcados e quatro sofridos, num grupo que partilhava com o México que os derrotou, a Suécia a quem ganhou e a Coreia do Sul que lhes matou a esperança.

A toda poderosa Alemanha, que após 2000 se reinventou, arrancando as raízes do seu futebol para voltar a plantá-las e fazer crescer organização competitiva e jogadores talentosos - eles costumam chamar-lhe, carinhosamente, Das Reboot -, tornou-se na quinta seleção a ser eliminada na primeira fase após conquistar o Mundial. Sucede ao Brasil (1966), à França (2002), à Itália (2010) e à Espanha (2014).

Desde 2006 que os alemães chegavam, pelo menos, às meias-finais de todos os Europeus e Mundiais.

O trauma talvez venha a ser maior do que foi após os três golos de Sérgio Conceição que os fizeram tombar há 18 anos, no Europeu. Porque coisa parecida com esta já não viam desde antes do tempo que a história da humanidade não mais quer ver.