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Mundial 2018

Messi ia matando do coração um jornalista argentino. A culpa é da “velha” que gosta mais de Leo do que do filho

Após o empate com a Islândia, um jornalista argentino entregou a Messi uma encomenda especial. Quando os argentinos se qualificaram para os oitavos, Rama Pantarotto perguntou pela fita ao canhoto. O futebolista mostrou-lhe o tornozelo e o queixo de Pantarotto quase roçou o chão

Hugo Tavares da Silva

Ian MacNicol

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Os argentinos tinham acabado de jogar (pouco) contra a Islândia. A estreia no Mundial daqueles que vivem como desconhecidos, com os pés gelados e uma bola de fogo, desiludiu. Agüero marcou primeiro, Finnbogason empatou logo depois e nem deixou os sul-americanos conhecerem o sabor do sossego, uma palavra e sentimento tão distantes. No fim, paciente, Messi falou com os jornalistas na zona mista. Um deles, com uma careca reluzente e ousadia no verbo, agrafou a atenção do camisola 10.

“A minha velha [mãe] disse ‘dá isto ao Leo’. Ela gosta mais de ti do que de mim. Aqui está uma fitinha vermelha, para dar sorte. Se quiseres, ofereço-ta”, atirou Rama Pantarotto. Alguns dias depois, já com a tragédia contra a Croácia (0-3) na mochila, os argentinos necessitavam de vencer a Nigéria. Messi, após um passe sublime de Banega, fez o 1-0. Festejou a mirar o céu, com os braços abertos. A receção do capitão da seleção, com dois toques antes de a bola cair na relva (coxa esquerda, pé esquerdo: pam, pam), foi divina. Parecia um encantador de serpentes.

Os africanos empataram na segunda parte, por Victor Moses. Já muito perto do fim, quando já se imaginava um Campeonato do Mundo sem os adeptos argentinos, aquele futebol pobre e a luz de Lionel, Rojo meteu a bola na baliza da Nigéria, de primeira, com o pé direito, qual Batigol. Dois-um, a Argentina está nos oitavos. Depois dos abraços e das lágrimas, as palavras.

E lá voltou à carga Pantarotto, o tal jornalista argentino que divide o coração da mãe com Messi. “Não sei se te lembras, no primeiro jogo dei-te algo que me deu a minha velha. Guardaste ou deitaste fora?” O canhoto, sorridente, respondeu: “Mira”. E mostrou-lhe a fita a abraçar o tornozelo esquerdo. Logo o esquerdo, ali tão perto do pé que inventa coisas impossíveis.

“Perdão?”, respondeu Pantarotto, atrapalhado. “É verdade, Messi? Colocaste-a? Vais dar-me um ataque de coração. Definiste [o golo] com a canhota? Ahh, com a direita. Não importa…” O diálogo durou uns segundos, até que Messi abandonou a zona mista. O jornalista olhou para a câmara, meio incrédulo ainda, e deixou um recado para a mãe: “Velha, querida, ele meteu a pulseira na perna”.