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Mundial 2018

Lembra-se do laboratório de Sochi onde se cozinhou um dos maiores escândalos de doping da história? Fomos lá almoçar

Há quatro anos os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi ficaram manchados pela descoberta de um complexo esquema de dopagem patrocinado pelo governo russo e que permitiu ao país subir ao topo do medalheiro da prova. Tudo acontecia num edifício que foi agora transformado num restaurante onde apenas na carta de cocktails se podem adivinhar as falcatruas que aquele local albergou. Lídia Paralta Gomes é a enviada especial da Tribuna Expresso ao Mundial 2018, na Rússia

Lídia Paralta Gomes

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O edifício não podia ser mais chato: ladrilhos cor creme e castanhos, uma construção nova mas antiquada, bastante russa, diga-se. De um lado está o Sochi Park, uma espécie de Feira Popular, do outro o Estádio Fisht. O símbolo no topo do edifício diz “La Punto, gastropub”. Que moderno.

São quase 16 horas em Sochi e só agora vou almoçar. O fuso horário do jornalista tem destas coisas: a hora de almoço é quando dá. Por isso, quando entro no La Punto, o restaurante está deserto, apesar de ser um dos mais animados daquela zona do antigo parque olímpico, com vista para o Mar Negro, devido ao seu bom ambiente e extensas cartas de cocktails e comida local e internacional.

Sento-me, dão-me o menu. O interior é bem mais engraçado que o exterior, uma decoração com gosto, alguns quadros na parede, poltronas confortáveis. Os empregados vestem equipamentos completos de algumas das seleções que jogam neste Mundial. Espanha, Brasil, Rússia, Alemanha. Um deles usa o 17 de Portugal: em cima não diz Gonçalo Guedes, mas sim La Punto, o nome do restaurante, ai desculpem, do gastropub.

Ninguém diria que há quatro anos, neste mesmo sítio, talvez no local onde está a mesa em que me sento, se cozinhou um dos maiores escândalos de doping da história do desporto.

O edifício onde agora se podem comer boas pizzas e também alguns pratos tradicionais russos era há quatro anos o laboratório antidoping dos Jogos Olímpicos de Sochi, dirigido por Grigory Rodchenkov, que há dois anos assumiu ter sido um dos cérebros do intrincado e complexo esquema de dopagem patrocinado pelo governo russo durante a competição.

O moderno interior do La Punto, onde há quatro anos se desenvolveu um dos mais intrincados esquemas de dopagem da história

O moderno interior do La Punto, onde há quatro anos se desenvolveu um dos mais intrincados esquemas de dopagem da história

Era numa destas salas, onde agora peço um sumo natural de cenoura e maçã, que durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi Rodchenkov e a sua equipa entravam todas as noites, fora de horas, quando o nível de segurança era menos apertado. Na mão o responsável levava sempre uma lista com nomes de atletas cujas amostras tinham de ser trocadas.

Tudo acontecia na sala 124 deste edifício, oficialmente um local de arrumos, mas na verdade um laboratório paralelo onde Rodchenkov, em conluio com os serviços secretos russos, trocava as análises à urina guardadas na sala contígua, a 125. Entre as duas existia um pequeno buraco junto ao chão, tapado por uma discreta tampa branca, por onde a altas horas da noite eram passadas as amostras antes e depois de serem modificadas.

Rodchenkov contou tudo ao “The New York Times” em 2016, num processo que delação que foi ainda colocado em imagens no documentário “Icarus”, último vencedor do Oscar de melhor documentário. Cerca de um terço das 33 medalhas ganhas pela Rússia nos Jogos de Sochi foram parar a atletas cujos nomes surgem nas infames listas do Dr. Rodchenkov, que revelou ao jornal que perto de 100 amostras foram trocadas.

Apagar a memória. Bem, quase

No La Punto ninguém está particulamente interessado em falar do passado obscuro daquele edifício, mas sabendo da sua história é quase desconfortável olhar à volta e ver simpáticos parques infantis na esplanada, aquela decoração colorida, a música lounge que dão um ar cosmopolita ao espaço.

Entre os dois espaços do restaurante, um interior e outro aberto, há um corredor escuro com portas de um lado e de outro. Há quatro anos, o Dr. Rodchenkov e a sua equipa andariam por aqui a deambular entre gabinetes, em pleno processo de enganar a história. Hoje as portas estão pintadas em diversos tons, com desenhos de motivos marítimos (afinal de contas estamos ao pé do mar), mergulhadores, âncoras, barcos.

Por estes dias, não se pode dizer que a credibilidade da Rússia em matéria de doping ande em altas. O país tem vários atletas proíbidos de participar em provas internacionais, nomeadamente de atletismo, e já durante o Mundial o "Daily Mail" revelou que a FIFA saberia da existência de vários casos de doping no futebol russo, um dos quais num atleta que chegou a estar pré-convocado para a prova, preferindo nada fazer.

Os obscuros corredores do antigo laboratório antidoping dos Jogos de Sochi

Os obscuros corredores do antigo laboratório antidoping dos Jogos de Sochi

Apesar da cara lavada, olhando para o menu das bebidas, escondido entre dezenas e dezenas de cocktails, há dois toques de humor e ironia. Um deles chama-se Amostra B, nome dado à amostra suplementar que é recolhida a um atleta e que pode servir como contra-análise em caso de resultado positivo num teste de doping. No La Punto, o cocktail Amostra B é capaz de acusar quanto mais não seja num teste de alcoolemia: leva sambuca, tequilha e molho Tabasco. O meu dia de trabalho ainda não acabou, assim que não vou arriscar.

Mais abaixo está o Meldonium, cocktail que rouba o nome ao famoso fármaco que, por exemplo, tramou Maria Sharapova e que até ao final de 2015 não estava na lista de substâncias proibidas. A bebida é feita à base de absinto, bebida proibida em vários países tal é o seu teor alcóolico. Também passo.

Há quatro anos, outros cocktails eram produzidos neste edifício. Muito para lá de trocar amostras de atletas dopados, o Dr. Rodchenkov era um verdadeiro druída na arte de preparar uma boa substância dopante. Ao “The New York Times” admitiu que nos meses que antecederam os Jogos, desenvolveu um novo esteróide através da junção de três substâncias proibidas.

Para aumentar a velocidade de absorção e ao mesmo tempo diminuir a janela de tempo em que a nova droga poderia ser detectada, Rodchenkov dissolvia o esteróide em álcool, Martini para as mulheres e whisky Chivas Regal para os homens.

Curiosamente ou não, quatro anos depois, Chivas Regal é um dos whiskys da casa.

O esquema aqui explicado pelo advogado Richard McLaren, que investigou o caso

O esquema aqui explicado pelo advogado Richard McLaren, que investigou o caso

FABRICE COFFRINI/Getty

Peço uma solianka, uma sopa típica russa salgada e muito ácida, feita com carnes e vegetais. É provavelmente a melhor solianka que já comi na Rússia. Quem diria que um antigo laboratório antidoping especializado em falcatruas seja agora um sítio de cozinha de qualidade. Enquanto como a sopa, passam tabuleiros com hambúrgueres absolutamente gigantes e pergunto-me se não ficaram aí esquecidas umas quantas hormonas de crescimento.

E pergunto-me se algum dia aquele sítio será apenas um restaurante ou se a sombra do doping vai perdurar, como naqueles locais aos quais não gostamos de voltar porque nos trazem más recordações.

A comida era boa, muito boa até, mas confesso que me caiu mal. A história às vezes é indigesta.