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Mundial 2018

Para Grand Danois, pequenos remédios

A Croácia avançou para os quartos de final do Mundial2018 depois de bater a Dinamarca na marcação das grandes penalidades (3-2). Foi um confronto de estilos, entre uma equipa de filhos da Guerra dos Balcãs, e sabe-se como a dificuldade estimula a criatividade, e um grupo de rapagões de uma zona geográfica onde, na generalidade dos casos, tudo é suave e garantido, pelo que basta competir, ser competente e manter o plano. Os croatas levaram a melhor, mas nunca foram claramente superiores como se chegou a supor antes do arranque do encontro

Pedro Candeias

MARTIN BERNETTI

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O Croácia - Dinamarca era, para começar, um confronto de estilos, entre uma equipa de filhos da Guerra dos Balcãs, e sabe-se como a dificuldade estimula a criatividade, e um grupo de rapagões de uma zona geográfica onde, na generalidade dos casos, tudo é suave e garantido, pelo que basta competir, ser competente e manter o plano – se a vida corre bem globalmente, nada diz que não possa correr bem no futebol em particular.

Claro que, sendo o futebol um íman para coincidências históricas que dão ótimas histórias, convém recordar que a tal Dinamarca foi repescada e sagrou-se campeã da Europa no ano em que a Jugoslávia se partiu em várias e não pôde participar na competição: 1992, tinha Luka Modríc sete anos, Kasper Schmeichel seis; um médio criativo e talentoso e um guarda-redes sólido que dão corpo ao contraste que deu aos croatas o apuramento para os quartos de final.

Decido entregar o resultado final – aconteceu nos penáltis (3-2), após um 1-1 que não desatou desde o minuto 4’ até ao final do prolongamento – porque o Croácia - Dinamarca foi longo e a, partir de determinada, altura maçador. O que ninguém esperava, pois os croatas chegaram a esta fase com três triunfos e a jogar, provavelmente, como nenhuma outra seleção neste Mundial2018.

A culpa disto, já veremos, foi dos dinamarqueses, que até arrancaram um golo idiota logo no primeiro minuto (remate de Zanka Jorgensen bate em Subasic e entra por baixo das pernas do guarda-redes) e sofreram outro igualmente estúpido (a bola sobrou das costas de Delaney para Mandzukic) três minutos depois.

Foi um início frenético que fez prever um daqueles jogos de Mundial, tipo França 4-3 Argentina, mas a coisa acabou por outros caminhos – os caminhos que os dinamarqueses gostam de pisar, pesados e frios, com apurado sentido prático e entendimento analítico de um jogo em que nem sempre ganha quem joga bem.

Algo que os croatas vieram a perceber da pior forma, sobretudo na segunda-parte, até que entrou o espetivado Kovacic.

Na primeira-parte, que começou realmente quando já estava 1-1, os dinamarqueses conseguiram aos poucos anular Modríc e Rakitic, mal-preparados geneticamente para o que os adversários, Delaney acima de todos, ofereciam. Isso e uma notável força de braços de costas de Knudsen, que fez de cada lançamento lateral um touche de râguebi, fazendo com que a Dinamarca progredisse no terreno sem precisar do talentoso Eriksen para nada: controlando o espaço e impondo o cabedal perante o meio-campo lento e engolido numa montanha fibra e músculos.

Houve oportunidades, sim, e para os dois lados, quase em igual número: Rakitic, Perisic, Braithwaite e Eriksen (um cruzamento largo que bateu na barra) foram os que mais próximos estiveram de acender o jogo.

Na segunda-parte, Kovacic lá entrou para o lugar do trinco Brozovic, e a Croácia ganhou alguém que fosse capaz de derrotar os dinamarqueses no jogo deles, com intensidade e verticalidade. Durou pouco, porque Modríc e Rakitic continuaram muito longe de Perisic ou de Mandzukic, e aos poucos – e com um ombro magoad numa queda – Kovacic foi perdendo tração.

Tal como o jogo - os lances mais perigosos aconteceram já no minuto 90’, por Mandzukic e pelo esforçado Braithwaite, e seguiu-se o inevitável prolongamento e, enfim, os penáltis. Não sem antes um momento incrível: uma defesa de Kasper Schmeichel num penálti de Modríc, com o Grand Danois Peter Schmeichel a soltar um urro das bancadas que Rui Jorge ouviria aqui de Portugal.

Foi quase épico e houve um momento, já na marcação das grandes penalidades, em que chegou a pensar-se num desfecho místico, com Peter a ver o filho Kasper a suster os croatas, mas o remate frouxo de Nicolas Jorgensen encontrou Subasíc e Rakitic não deu abébias a Kasper.

A Croácia tem agora um encontro agendado com a Rússia nos quartos de final.

  • Perdoa-os, Iniesta, eles já não sabem o que fazem

    Espanha

    O desastre à espera de acontecer desde a antevéspera do Mundial apareceu nos oitavos-de-final. Os espanhóis não arriscaram, não tinham um plano e nada fizeram (jogadores e treinador) mais do que passar a bola, só por passar, durante 120 minutos. Banalizaram o jogo até aos penáltis onde a Rússia os eliminou e despediu assim, de forma tão pobre, um génio