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Mundial 2018

Vai que é tua, Neymar

Aqui está a crónica do Brasil-México (2-0), onde foi evitada mais uma zebra, que é como os brasileiros chamam a surpresa. Neymar esteve em grande e brasileiros assumem-se como grandes candidatos à conquista do Mundial

Hugo Tavares da Silva

Dan Mullan

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Antes desta bela jogatana, Pelé publicou no Instagram uma memória. “Eu me lembro de jogar contra o México na Copa do Mundo de 1962. Eles eram aguerridos e organizados naquela época, e acredito que hoje serão também. Nós vencemos em 62 [2-0, Pelé e Zagallo] e acredito que podemos fazer o mesmo hoje.” Rei é rei e sabe o que diz.

O México de Osorio fez uma primeira meia hora impecável, daquelas de salivar, com muito futebol, organização, pedalada e valentia. O Brasil sofreu, mas soube deixar o mar serenar. E serenou. E o Brasil foi para cima. E Neymar encantou. E o Brasil ganhou. É o grande candidato desta Copa, que já despachou Alemanha, Argentina, Espanha e Portugal.

Pam, pam, pam. O futebol do México, que só soube passar aos quartos em 70 e 86, jogando em casa, era assim, despachado e com tino. Lozano, dizia Lineker no Twitter, não fica muito tempo no PSV. Tem 22 anos e joga que se farta, da linha para o meio. É um desvario maravilhoso. Javier Hernández e Vela enchiam o meio campo rival, enquanto Guardado e Herrera assinavam mais uma bela exibição, escudados por Rafa Márquez, o senhor de 39 anos que jogava o quinto mundial (foi capitão no Campeonato do Mundo de 2002). O jogador que já falava em pendurar as botas em 2011 sairia ao intervalo, por Miguel Layún.

Lozano avisou primeiro, depois foi Neymar. Cada ida à bola, cada oportunidade para os mexicanos molharem a sopa. Parecia um jogo da Copa América, que os brasileiros tentavam abrandar. Vela, que costumava jogar a 10, à frente de Guardado e Herrera, imitou o seu país nas presidenciais de domingo: virou à esquerda, jogando perto da linha. Embevecidos, os adeptos iam gritando “olé, olé, olé”.

Ryan Pierse

O Brasil de Tite viveu desligado meia hora. Tal e qual a alegria do seu treinador durante a fase de grupos, graças à pressão. Tite admitiu-o. E também admitiu que alinhou no “bobinho” e numa caipirinha para celebrar a vitória sobre a Sérvia e relaxar. “Bobinho” é a chamada “rabia” ou “meiinho” com os jogadores.

Os futebolistas lá dentro acabaram por se soltar, graças sobretudo a Neymar, Willian e Coutinho, que ficava mais perto de Casemiro na hora de construir, deixando Paulinho solto para pensamentos verticais e chegadas à área. Os alertas à baliza de Ochoa, que a encheu em 2014, iam berrando cada vez mais alto. O México daqueles 30 minutos era um romance de tempos idos.

Coutinho foi o primeiro neste segundo tempo a espicaçar a angústia de Ochoa, o tal guarda-redes que parece Ted Mosby, um dos personagens de “How I met your mother”, referência obrigatória nesta última oportunidade. A seguir do jeitoso do Barça, surgiu o do PSG, que finalmente marcou o primeiro golo da tarde. Neymar pegou na bola, deixou alguns rivais para trás, imitando o move de Coutinho, mas a floresta de pernas que moveu atrás dele era tal que preferiu tocar de calcanhar para Willian. O avançado do Chelsea aproveitou o buraco deixado pelo companheiro, meteu uma abaixo e chutou cruzado, sobrando para Neymar ao segundo poste. Golo e “shhhhh!”, talvez para sossegar aqueles “olés” prematuros.

Chris Brunskill/Fantasista

O Brasil estaria por cima até ao final do jogo, apesar de algumas aventuras na terra de Alison. Raul Jiménez, avançado do Benfica, entrou a meia hora do fim, mas deu pouco à equipa.

Já Willian ia assinando a sua melhor exibição no torneio, beneficiando também de alguma liberdade na segunda parte. Em sentido contrário, pelo menos com bola, parece estar Gabriel Jesus. Pouco influente, apesar dos movimentos e solidariedade.

Neymar lá continuava o seu show, que também tem um dark side, cada vez que é tocado. E sim, o rapaz leva muita porrada. Tite ainda meteu em campo Fernandinho, talvez para dar rotação ao médio do Manchester City, pois Casemiro falha o jogo dos quartos por suspensão.

Buda Mendes/REMOTE

O dois-zero chegou quase, quase no fim, por Firmino. Tinha acabado de entrar. Fernandinho lançou Neymar pela esquerda e o primeiro toque do 10 denunciou a genialidade. Já perto da baliza, sem um ângulo espectacular mas também sem aquele dom de Henry de meter no poste mais longe, tocou de bico, quem sabe inspirado por Romário. Ochoa desviou e Firmino encostou, 2-0.

Apito final em Samara. O Brasil vence o México como em 1950 (4-0), 1954 (5-0) e 1962 (2-0), a tal lembrança de Pelé. Os mexicanos continuam a ficar à porta dos quartos, mas deixaram mais uma bela imagem. Afinal, Juan Carlos Osorio avisara: “O nosso pensamento não é ficar lá atrás. Vamos disputar a posse de bola, pois temos médios com muita qualidade. Será uma tarefa titânica, mas acreditamos” E assim foi. Quase tudo, que os titãs venceram. O Brasil evita a zebra (surpresa) e Neymar arrisca-se a ser o cara da Copa.