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Mundial 2018

Brasil-Suécia de 58: a última esperança de vivermos algo já vivido

De todas as combinações possíveis para uma final no Mundial2018, só uma será uma repetição. Se brasileiros ou suecos caírem nos quartos-de-final, entramos em águas desconhecidas

Hugo Tavares da Silva

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“Consta nos astros, nos signos, nos búzios/Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás/Serás o meu amor, serás a minha paz”, canta Chico Buarque, numa letra facilmente adaptável ao sentimento dos brasileiros pelo Mundial.

De quatro em quatro anos, o lado errado de um país fica no banco e ouve-se falar mais em golo, no drible do craque, na caneta do compositor, na letra do escritor. Coração e pensamento mudam de morada para os pés de outro alguém.

Esse romance nem precisou de sair da máquina de escrever de Jorge Amado. Em cinco capítulos conta-se a história dos “Capitães da Copa”. Bellini, Mauro, Carlos Alberto, Dunga e Cafu levantaram os troféus em 58, 62, 70, 94 e 2002. Tudo começou na Suécia, em Solna.

Svensson, Bergmark, Partling, Gustavsson, Axbom, Börjesson, Gren, Liedholm, Hamrin, Skoglund e Simonsson de um lado. Gilmar, Djalma Santos, Orlando, Bellini, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Zagallo, Vavá e Pelé do outro. O rei ainda não era rei, nem sequer príncipe. Mas a lenda do miúdo de 17 anos começou neste 29 de junho de 58.

Liedholm marcou primeiro, logos aos 5’. O craque do AC Milan deixou dois brasileiros para trás e deu esperanças à Suécia, que sonhava suceder a Uruguai (1930, 1950), Itália (1934, 1938) e Alemanha (1954). Mas não ia dar, não. Vavá empatou. A seguir vem um dos míticos golos de Pelé, em que o defesa quase lhe arranca a perna enquanto leva um “chapéu”. Vavá, Zagallo e mais um de Pelé fecham a contagem. Simonsson, que passaria pelo Real Madrid, reduziu pelo meio. Cinco-dois. É a primeira Copa do país do samba.

Ainda não é seguro dizer que haverá uma final inédita na Rússia porque os homens do reino de Zlatan, que não jogavam um Mundial desde 2006, teimam em não cair. Em 94, Brolin, Larsson, Schwarz, Ravelli, Thern e Dahlin fizeram um brilharete e quase imitaram os compatriotas de 58: ficaram em terceiro lugar, nos Estados Unidos, depois de caírem nas meias com um golo de Romário aos 80’ -- os brasileiros acabariam por festejar o tetra na final do tal penálti de Baggio. O Brasil-Suécia é a derradeira esperança de uma final já antes vista. Se um deles cair nos quartos-de-final entramos noutra galáxia, onde tudo é novo e não há histórias da História.

O Uruguai de Tabárez vai tentar manter as portas do castelo bem fechadinhas. Os sul-americanos jogaram duas finais na sua história, vencendo ambas: 4-2 vs. Argentina (1930) e 2-1 vs. Brasil (1950), no tal Maracanazo, com o golo de Alcides Ghiggia. Foram os primeiros campeões mundiais.

Paulo Fridman

A França volta a ter no número 10 a maior esperança. Depois de Platini, veio Zidane, que ganhou uma final (1998) e perdeu outra (2006). Kylian Mbappé ameaça levar a equipa de Deschamps às costas na corrida pela terceira final da sua história. Em 86 e 58 os gauleses terminaram no terceiro lugar. No último sofreram com o furacão Pelé, que fez um hat-trick na semifinal. Just Fontaine é ainda o recordista de golos marcados num torneio: 13 golos.

A Rússia joga em casa e já eliminou a Espanha de Isco, Iniesta, Silva e Busquets. O melhor que esta gente fez, enquanto União Soviética, foi o quarto lugar, após derrota com Portugal (1-2) em 66. Valeriy Porkujan marcou quatro golos na prova, tantos quanto Beckenbauer, mas muito longe dos nove de Eusébio. Três anos antes, Lev Yashin, o guarda-redes que era chamado “aranha negra”, venceu a Bola de Ouro. Igor Akinfeev, o dono da baliza em 2018, é titular da seleção desde os 18 anos. Antes o rótulo de sucessor de Yashin parecia uma maldição, agora nem por isso e está apenas a uma vitória (vs. Croácia) de imitar o ídolo maior de um país.

PA Images

A Croácia enquanto Croácia estreou-se em Campeonatos do Mundo em 1998. Pling, pling. Essas gavetas da memória começam a abrir e fechar, desvairadas, a lembrar aquele futebol de Boban e Prosinecki, certo? É justo, senhores. E os golos de Suker? Uff. E aqueles 14 minutos de Petar Krpan? Okay, okay

Michael Steele - EMPICS

Os croatas chegaram às meias do torneio em França, caindo apenas com os da casa, depois de Lilian Thuram se transformar em fenómeno e marcar dois golos esbeltos -- Croácia bateu Holanda no derradeiro jogo e ficou no último lugar do pódio. Modric e Rakitic andam a controlar os jogos deste Mundial. Em 2002, 2006 e 2014 nem passaram da fase de grupos. Estão aqui os sucessores daquela geração mágica de 98?

A Bélgica enganou os japoneses no último suspiro. Enganar é um bom termo: Lukaku inventou dois movimentos, escusou-se a tocar na bola e permitiu o terceiro golo dos belgas (os nipónicos estiveram a vencer 2-0). O fado desta seleção tem sido sempre o mesmo: jogar como nunca, perder como sempre.

Com Roberto Martínez, o espanhol que ajudou a implementar a cultura do toque e passe em Inglaterra, e a ajuda de Thierry Henry, esta Bélgica parece coisa séria (pelo menos no ataque). E os craques que habitam na Premier League são tantos que desconfiamos que pode dar certo. Em 86 até chegaram às meias-finais, mas Maradona disse “ficamos por aqui”. O futebolista mais errante e genial entre génios marcou dois (2-0), no Estádio Azteca, e arrumou as aspirações de Scifo, Vercauteren e companhia. A seleção de Guy Thys terminou no terceiro lugar.

Hazard, Lukaku e Kevin de Bruyne correm pelo que nunca foi feito, dando finalmente razão aos que lhes chamam a geração de ouro. Depois do jogo com o Japão, o médio do Manchester City escreveu no Twitter ao que vão: “Mais três jogos!”

STAFF

Finalmente, a Inglaterra. É tida como uma potência desde 66, pelo que Bobby Charlton, Bobby Moore e Geof Hurst conquistaram em Wembley, mas nunca mais voltaram a disputar uma final. Esse fantasma é tão distante que foram outros a ganhar palco: os penáltis. Nunca, antes desta partida com a Colômbia na terça-feira, a Inglaterra havia vencido um jogo de Campeonato do Mundo por penáltis. Nunca. Ian Wright, Dixon e Gary Neville saltavam e abraçavam-se como loucos na BBC a seguir ao derradeiro pontapé de Eric Dier.

Voltemos à história. Após 66, os ingleses estacionaram quatro vezes nos quartos-de-final (1970, 1986, 2002 e 2006), superando essa marca apenas no Itália-90. Gary Lineker, o melhor marcador do Mundial de Maradona (México-86), até marcou na semifinal contra os alemães, mas a sua frase mítica que estava por acontecer teria muita propriedade: os germânicos seguiram em frente nos penáltis (lá está). Lineker, Terry Butcher e Paul Parker voltaram a Turim como protagonistas daqueles episódios divinos do Canal História antes do torneio para recordar esse jogo. “E se…”, magicavam.