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Mundial 2018

Ah, o futebol, esse jogo de contrastes: o entretenimento puro contra a cautela nos ‘quartos’ do Mundial

Os quartos-de-final do Mundial começam esta sexta-feira com dois jogos bem diferentes um do outro, Uruguai-França (15h) e Brasil-Bélgica (19h), e nesta edição do Expresso Diário explicamos as virtudes e as debilidades das quatro equipas. No sábado há quatro seleções improváveis à procura do sonho da meia-final e da proeza maior da final - Suécia-Inglaterra (15h) e Rússia-Croácia (19h) -, mas essa análise fica para a próxima edição do Expresso Diário (18h de sexta-feira)

Tiago Teixeira, analista de futebol

BENJAMIN CREMEL

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Uruguai-França, o duelo da cautela

A seleção uruguaia, organizada no sistema de jogo 4-4-2, tem demonstrado durante o Mundial uma tremenda solidez defensiva, principalmente quando se encontra em vantagem no marcador, como aconteceu contra Portugal, nos oitavos-de-final (2-1).

Onze provável do Uruguai

Onze provável do Uruguai

As linhas defensivas muito recuadas e juntas tornam o bloco defensivo muito compacto, não concedendo muito espaço ao ataque adversário, daí que apenas Portugal tenha conseguido marcar um golo aos uruguaios - egípcios, árabes e russos não o conseguiram, perdendo os respetivos jogos.

Neste momento do jogo tem-se destacado a dupla de centrais do 1º classificado do grupo A, composta por Godín e Giménez, ambos muito fortes nos duelos defensivos, principalmente pelo ar.

Ofensivamente, como era de esperar, a principal ameaça à baliza adversária tem sido a dupla de avançados composta por Suárez e Cavani, sendo que o selecionador Óscar Tabárez já sabe que o último deverá falhar o jogo contra França, devido a uma lesão contraída frente a Portugal.

A confirmar-se, será uma ausência de vulto para os uruguaios, uma vez que Cavani já levava três golos marcados e abria espaços nas defesas adversárias para Suárez, que já marcou duas vezes e também já assistiu uma vez o parceiro de ataque.

Jorge Silva

A seleção francesa, organizada no sistema de jogo 4-2-3-1 ou 4-3-3, tem confirmado o que se esperava antes do Mundial começar, ou seja, que as transições rápidas são a sua principal arma em termos ofensivos - foi assim que os franceses derrotaram os argentinos, nos oitavos-de-final (4-3).

Deste modo, a seleção liderada por Deschamps não se tem importado de dar a iniciativa de jogo ao adversário, para após a recuperação da bola sair rápido para o ataque.

Neste momento do jogo contam com a condução de bola de jogadores como Kanté, Pogba, Griezmman e Mbappé, sendo que o último também tem sido determinante na exploração do espaço nas costas da linha defensiva adversária, através da sua velocidade e capacidade de explosão.

Mas será que isso será possível frente ao Uruguai?

Onze provável da França

Onze provável da França

Embora sejam duas seleções com muita qualidade individual em todos os sectores, nenhuma se importa de abdicar da posse de bola nem de recuar o bloco defensivo (novamente, basta relembrar os jogos dos oitavos de final contra Argentina e Portugal) para depois explorarem as transições rápidas para o ataque.

Enquanto o jogo estiver empatado, não será expectável que alguma seleção procure dominar de forma evidente, mas quem marcar primeiro irá certamente assumir uma postura mais defensiva (defender numa zona mais recuada e com as linhas próximas), dando a iniciativa de jogo ao adversário e esperando pela recuperação da bola para sair de forma rápida para o ataque e criar perigo.

O jovem Mbappé, do PSG, tem sido a grande estrela francesa no Mundial 2018 Foto Pilar Olivares/Reuters

O jovem Mbappé, do PSG, tem sido a grande estrela francesa no Mundial 2018 Foto Pilar Olivares/Reuters

PILAR OLIVARES

Como disse Antoine Griezmann, um dos franceses que mais tem desiludido (ao contrário de Mbappé): “O Uruguai vai jogar como o Atlético de Madrid. Vão demorar o seu tempo, cair, falar com o árbitro. Temos de nos habituar a isso, porque o jogo assim vai ser aborrecido e eles querem que nós entremos nessa armadilha”.

Brasil-Bélgica, entretenimento puro

Neymar é a maior estrela da seleção brasileira, mas tem ouvido muitas críticas pelo tempo que passa no chão quando sofre faltas Foto David Gray/Reuters

Neymar é a maior estrela da seleção brasileira, mas tem ouvido muitas críticas pelo tempo que passa no chão quando sofre faltas Foto David Gray/Reuters

DAVID GRAY

A seleção brasileira, organizada no sistema de jogo 4-3-3, tem revelado muita qualidade no posicionamento e na coordenação defensiva, com um bloco defensivo sempre muito compacto, como aliás tem sido imagem de marca desde que Tite assumiu a seleção, no verão de 2016 - e é por isso que o Brasil é a seleção que menos golos sofreu no Mundial (a par do Uruguai), apenas um, num canto frente à Suíça, no jogo de estreia.

A boa surpresa para este Mundial foi a inclusão de Coutinho no trio de meio-campo, algo que tem sido determinante na fase de criação e na finalização, porque acrescenta variabilidade na finalização e porque tem qualidade nos remates fora da área.

Neymar, que tem subido de rendimento ao longo do Mundial (apesar do “folclore” frequente com as faltas), e Willian têm sido determinantes no processo ofensivo, principalmente nos momentos após a recuperação da bola, uma vez que são dois jogadores muito rápidos e fortes tecnicamente ao nível da condução de bola.

Contudo, os brasileiros já sabem que não podem contar com o médio mais defensivo, Casemiro, que está suspenso devido à acumulação de cartões - Fernandinho deve ser o substituto.

Onze provável do Brasil frente à Bélgica

Onze provável do Brasil frente à Bélgica

A seleção belga, organizada no sistema de jogo 3-4-2-1, tem correspondido às expectativas, ao praticar um futebol ofensivo de qualidade.

Embora apresente argumentos em ataque posicional (ataque sempre com largura dada pelos alas Munier e Carrasco e opções de passe entre linhas com Hazard e Mertens), é nos momentos após a recuperação da bola que se tem revelado mais perigosa, com destaque para De Bruyne e Hazard, pela qualidade na condução de bola e no momento da definição (escolhem sempre o timing certo para soltar a bola).

Onze provável da Bélgica frente ao Brasil

Onze provável da Bélgica frente ao Brasil

A transição defensiva tem sido o aspeto mais negativo da seleção belga, demonstrando pouca agressividade no momento da perda da bola, algo que foi visível nos oitavos-de-final, perante o Japão - jogo em que Roberto Martínez teve de recorrer a outras armas a partir do banco, Marouane Fellaini e Nacer Chadli, para conseguir a reviravolta no marcador (3-2).

Apesar de Brasil e Bélgica serem duas seleções cheias de qualidade individual em todos os sectores e que apresentam grande capacidade para criar em ataque posicional, é de prever que a chave do jogo esteja nos momentos após a recuperação da bola.

Porquê?

MARKO DJURICA

Porque as duas seleções têm demonstrado ser bastante perigosas nos ataques rápidos, sendo que o facto de a seleção belga ser menos agressiva na transição defensiva quando comparada com a seleção brasileira (apenas Neymar é pouco agressivo na reação à perda da bola) pode desequilibrar a balança neste aspeto.

Ao nível da posse de bola espera-se um jogo equilibrado, sem nenhuma seleção a demonstrar um domínio claro sobre a outra. Mas será certamente um jogo que irá entreter os adeptos, quanto mais não seja por isto: o Brasil é a seleção que mais rematou no Mundial (77 vezes) e que mais vezes acertou na baliza (31 vezes), ainda que “só” tenha marcado sete golos; e a Bélgica é a seleção mais concretizadora do Mundial, com 12 golos marcados.