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Mundial 2018

Citoyen Kompany, o primeiro presidente de África

O capitão da Bélgica que esta sexta-feira se prepara para entrar em campo frente ao Brasil não é o estereótipo do futebolista habitual. Para o mestre em gestão e dono de um clube de bairro para apoiar os mais novos, dar de volta faz parte do seu ADN

Tiago Oliveira

Mike Hewitt - FIFA

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"Nicolas Sarkozy é uma pessoa instável de duas caras e as suas políticas são perigosas porque exploram o medo das pessoas." Parece mais o tipo de tweet lançado por um qualquer comentador político do que de um futebolista, certo? Longe do habitual terreno do "vejam a minha mansão" ou "reparem bem neste local paradisíaco de férias" tão comum às redes sociais dos futebolistas. E é precisamente esse caminho que o homem que escreveu essa mensagem, Vincent Kompany, quer trilhar.

O capitão do seu clube (Manchester City) e país (Bélgica) é o líder da geração de ouro dos Diabos Vermelhos que hoje enfrenta nos quartos de final do Mundial o seu mais duro teste, o Brasil. Nada que amedronte o filho de um refugiado político e de uma líder sindical que enfrentou muitos obstáculos até se tornar num dos melhores (e mais intelectuais) defesas do universo futebol.

O bairro perigoso

Vincent Jean Mpoy Kompany nasceu no bairro de Uccle, em Bruxelas, e passou grande parte da sua infância a morar numa das zonas mais perigosas da capital belga, onde o crime e a pobreza eram lugares comuns. Além do racismo que sempre o perseguiu ao longo da carreira escolar e da precoce carreira futebolística, que cedo o reservou como um dos mais promissores jogadores da sua posição. "Ter que lidar com isso torna-se parte do nosso carácter. Lidamos com isso, lutamos e seguimos", afirmou à CNN.

Sem esquecer as suas origens e o que poderia fazer para melhorar as vidas das pessoas quando atingisse o estrelato. "Costumava dizer à mãe que quanto mais rico ficasse, melhor seria para muitas pessoas, ela que não se preocupasse com isso." Ao mesmo tempo, prometeu aos pais que não abandonaria aos estudos enquanto se treinava nas camadas jovens do Anderlecht.

Mais que um desporto

O seu carácter reivindicativo contribuiu para ter que repetir um ano de escola, numa fase de revolta em que o divórcio dos pais não ajudou. Mas quando os colegas de balneário iam de férias, Kompany ficava a estudar para fazer os exames. A promessa e a lição ficariam até hoje.

No Manchester City há dez anos, o central foi a última contratação do clube antes da transformação operada ao ritmo de milhares de milhões de libras pelo dinheiro de Abu Dhabi e, apesar de muitas lesões pelo caminho, cedo se impôs como líder de balneário. Diferente do habitual, ou o "futebolista do homem intelectual", como é muitas vezes conhecido entre os seus pares.

Foi por isso com naturalidade que Kompany escolheu a companhia do estudo para ocupar o ócio: no final de 2017, completou um MBA em gestão na Alliance Manchester Business School. "O futebol é mais que um desporto", afirmou ao site da instituição. "Tem influência em questões sociais e é um grande negócio." Quer continuar a aprender para poder retribuir, também como tributo à mãe, confessou.

Leitor ávido, tem como livro favorito o "Alquimista" de Paulo Coelho, pelos paralelos com a história de auto descoberta retratada na famosa obra do brasileiro. Como revelou ao "Independent", a leitura foi em inglês, mas podia ter sido em francês, alemão ou flamengo, visto ser fluente em qualquer uma destas línguas. "Venho de um país pequeno, temos que conseguir comunicar", contou.

Presidente de África

O que é muito complicado numa nação constantemente dividida em termos políticos e onde Kompany não esconde as suas afiliações políticas, seja com tweets de apoio a políticos como Obama ou na defesa intransigente de uma sociedade mais inclusiva. É o "dar de volta" que acredita fazer parte do seu ADN e que está patente na ajuda que dá a duas SOS Children's Villages no país de origem do seu pai (República Democrática do Congo). Obras que regularmente visita e apoia financeiramente para dar uma oportunidade às suas crianças de escapatória a uma "pobreza inimaginável", disse.

Ou, por outro lado, na compra do BX Brussels, um clube falido da sua zona natal, que está a transformar numa ferramenta de apoio social aos jovens do bairro para que possam ter outras hipóteses de vida. Cerca de 1000 para começar, mais propriamente, num projeto que agora tem como presidente a irmã, Christel Kompany, que se tornou na primeira mulher presidente de um clube de futebol belga.

Erudito, socialmente ativo, sem medo de dizer o que pensa, líder nato. Resumo possível de uma personalidade complexa que aos 31 anos não quer ser apenas mais um. E faz por isso. Segundo o seu antigo colega Craig Bellamy, até pode vir a ser "presidente de África". Até lá, é lidar com o obstáculo Brasil.