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Mundial 2018

Mário Fernandes: o brasileiro que fugia e desaparecia é agora um russo que está sempre no lugar certo

Perdeu o avião quando foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira. Admitiu que chegou a ir treinar de ressaca e, um dia, desapareceu do Grémio de Porto Alegre para ser encontrado, cinco dias depois, a mais de 1000 quilómetros, esfomeado, deprimido e em casa de um tio. A rocambolesca vida de Mário Fernandes, um traidor no Brasil e o melhor jogador da Rússia neste Mundial

Diogo Pombo

Mikhail Tereshchenko

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Vive como futebolista, tem 21 anos, é titular de um dos maiores clubes do Brasil e acaba de ser convocado para a seleção. Marcou um dos golos que fez o Grémio ganhar, está feliz, é domingo, e tal conjugação de fatores afoga o santo dia de repouso e a tristeza de ser o fim anunciado do descanso semanal. Deixa de ser domingo, mas uma desculpa para ir abanar o pé e o esqueleto ao centro de Porto Alegre. É a tradicional noite do sertanejo universitário no Be Happy, um clube onde tem a reputação de ser assíduo e boémio cliente. Mário Fernandes aparece com a namorada, cara alegre, cumprimentando os amigos e sorrindo-lhes, com uma garantia na boca: “Amanhã vocês vão ouvir falar de mim”.

São duas da madrugada.

Amanhã implicaria o dia seguinte, mas, às 5h30, é suposto que esteja a embarcar no avião que o voará até à escala de São Paulo, para de lá deslocar rumo a Belém, onde o Brasil vai jogar com a Argentina e não é um jogo qualquer – é a segunda partida do Superclássico das Américas, espécie de título decidido a duas mãos, inventado para acentuar uma rivalidade nos limites da sanidade, que muito importa a argentinos e brasileiros.

E Mário não aparece no aeroporto; perde o voo, o seu empresário e a Confederação Brasileira de Futebol marcam-lhe outro, e depois outro, e ele sumido. Na tarde dessa segunda-feira, surge apenas um comunicado: o lateral direito não vai à seleção "em decorrência de problemas particulares responsáveis por uma alta carga de stress no atleta. Dessa forma, o jogador não se encontra em condições psicológicas de se dedicar inteiramente à seleção nacional".

Pois.

Uns dias antes, Mário respondera aos jornalistas em contramão, como lembrou a "Globoesporte" por altura do caso: "Não posso sumir na Seleção, né?". A interrogação seria sempre retórica, não fosse ele Mário Fernandes, o futebolista já dotado de um historial de desaparecimentos estranhos e inexplicáveis.

Porto Alegre

Dois anos antes, em 2009, decidiu levantar mil e oitocentos reais da conta bancária e apanhar um avião em Porto Alegre. Tinha 18 anos. Esteve cinco dias incontactável, o seu paradeiro era desconhecido, a polícia deu início à busca porque ninguém sabia onde estava o menino que, há uma semana, se transferira do São Caetano para o Grémio.

Anthony Dibon

Acabado de pular no trampolim da carreira, desapareceu.

Passaram cinco dias até Mário Fernandes ser encontrado esfomeado e magro em Jundiaí, no interior do estado de São Paulo, em casa de um tio. Fica a mais de mil quilómetros de Porto Alegre. Antes, o seu rasto fora detetado em Londrina e Florianópolis, sítios onde não estavam quaisquer familiares e onde a teoria não lhe dava razões para estar.

Além de subnutrido, os rumores disseram que Mário lutava contra uma depressão, entristecido por pensar que o São Caetano apenas o emprestara, por uma época, ao Grémio, quando na realidade era uma venda. A esse incómodo juntou uma acesa discussão com o pai, que forçou um silêncio de dois meses entre ambos. “Sabes porque não vais voltar ao Grémio? Porque és um cobarde”, ter-lhe-á dito o progenitor, quando falou sobre o episódio à revista “Placar”.

Dois meses volvidos, regressaria ao clube, sem grande alarido, sem que alguém entendesse o sucedido. Aos poucos, o tímido rapaz, palitado no corpo e com pés e velocidade anormais para os 1,87 metros, começou a jogar.

Aprendeu nos pavilhões e cresceu a sobrecarregar a agilidade de pés; o contacto com a bola e o tempo de reação foram trabalhados no futsal, como tantos outros brasileiros. Nem tinha muitas ideias de ser futebolista profissional quando o São Caetano o convenceu a experimentar a relva.

Sendo tão grande e com base numa avaliação quadrada, forçaram-no a jogar a defesa central, posição que, por força da técnica, rapidez e destreza, deixou para virar-se lateral direito. "Ele era defesa, mas era capaz de driblar meia equipa adversário e marcar golos. Tem uma técnica fora de série para um defesa”, descreveu Dino Camargo, diretor desportivo do São Caetano, ao "El País".

Por isso e pela falta de força de que Silas, seu treinador no Grémio, o acusava, culpa de “não tomar pequeno-almoço” de manhã.

Os méritos pelos campos brasileiros chamaram-no à seleção, cuja camisola não vestiu, à primeira, e da qual fugiu, à segunda, em 2011. Nessa época, colada que já estava a fama de temeroso e fugitivo, é considerado o melhor lateral direito do Brasileirão; por Espanha noticiam sobre o interesse do Real Madrid e de outros gigantes semelhantes.

Mário Fernandes admite-o. Contudo, e inesperadamente, olhou para a Rússia.

Kaz Photography

O brasileiro escolhe o CSKA de Moscovo pelo mesmo dinheiro (15 milhões de euros) que supostamente o Real ofereceria. Pira-se do calor e da ginga do seu país para as terras mais frias da Europa e surpreende porque tem logo sucesso. Conquista três títulos na primeira temporada, mostra-se na Liga dos Campeões e em 2014 é discutido para o impensável: retornar à seleção.

Era o reino de Dunga, apostado em disfarçar a sua teimosia e quadratura de ideias com a política misericordiosa de dizer publicamente, e reafirmá-lo, que todos os brasileiros tinham hipóteses de chegar à seleção. No meio da ressaca de uma seleção, ainda em cacos, pelo 1-7 alemão, Mário Fernandes é convocado para um encontro particular com o Japão. E joga.

Não mais é chamado e joga a vida bem jogada nos campos russos, onde Vladimir Putin, todo-poderoso adepto do CSKA que, por sinal, é quem mais manda da Rússia, lhe concede a cidadania por decreto presidencial. A sua bênção e as regras da FIFA que, nesta matéria, tornam irrelevantes os amigáveis jogados por seleções, tornam-o convocável para a equipa russa, pela qual se estreia em outubro de 2017.

E hoje é o provável melhor lateral direito do Mundial, a avançar no campo e a voltar para trás com a constância de um ioiô, técnico nos pés e nas inúmeras receções de bola com o peito, que vai reproduzindo na improvável Rússia que sobrevive e está nos quartos-de-final.

Quem outrora bebia álcool, de bom grado, nos tempos livres, e admite ter chegado a ir treinar de ressaca, no Brasil, é agora regrado, dentro de quatro paredes que abandona, apenas, para comer um bom bife. “Nunca esperei que jogasse pela Rússia, mas o trabalho duro compensou. Ele exercita-se sozinho, faz treino funcional e comporta-se como um profissional. Até parou de beber”, comentou o irmão, ao “Bleacher Report”.

O próprio Mário admite que “o problema era a vida noturna” e a “muita” festa e bebida das quais abusava em Porto Alegre. Tão seguro de ter endireitado a vida que mesmo tímido, envergonhado e a vestir um visível desconforto por se pronunciar em público, desafiou os jornalistas na zona mista do Estádio Luzhniki, findo o jogo de abertura do Mundial - “Perguntem a quem quiserem. Nem sequer conheço a vida noturna na Rússia”.

Resta-lhe, porém, o problema que insiste em manter nas respostas que é incapaz de produzir num certo idioma. Mário Fernandes é russo, joga pela Rússia, mas não sabe falar mais do que duas ou três palavras de russo. “É como um cão. Compreende tudo, mas não sabe responder. O mais importante é que faz o seu trabalho muito bem”, resumiu Stanislav Cherchesov, o selecionador do país.

Mário nem a aulas de russo se digna a ir. Diz que é difícil. Talvez prefira ir facilitando a sua vida jogando futebol.