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Mundial 2018

A Mbappélização do futebol francês

Exatos dois anos após perder a final que bem sabemos, a França garantiu a sua terceira final de um Mundial, todas nos últimos 20 anos. Os gauleses foram impenetráveis contra a Bélgica (1-0) enquanto, sobretudo na segunda parte, atacaram rapida e explosivamente à boleia de um tal Kylian Mbappé, que só tem 19 anos, pode ainda não ser muito constante, mas já personificou o que de mais espetacular vimos neste Campeonato do Mundo

Diogo Pombo

Sergei Bobylev

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Vamos unir-nos, irmãos, nesta tentativa de ultrapassagem, ou forçado esquecimento momentâneo, do quão significante é o 10 de julho, o quão esta data toca no nosso melancólico coração português, para antes nos focarmos na maneira como a efeméride tocará no interior dos franceses.

Há precisos dois anos, lá estavam eles, marchadores galopantes, a controlarem a bola, as jogadas, o perigo e a aparentemente dominarem uns portugueses tímidos na estratégia, de enorme fé, na sua final caseira de um Europeu.

E cá estão eles, agora, a serem encolhidos por um colete de forças apertado por um conjunto geracionalmente dourado de indivíduos belgas, donos da ousadia conjunta que dá a força veloz no ataque ao espaço, nas trocas de posições e na facilidade com que deixa o mais fintador dos jogadores apenas com um adversário à frente.

Durante bastante tempo, mesmo que não consecutivo, os franceses organizam-se em linhas compactas e encurtam-se na sua metade do campo para encurtar o espaço de relva jogável para os outros.

É forçado pelos belgas, embora seja, também, uma estratégia intencional de defender com linhas recuadas, porque têm consciência do que são e do que têm: um galgo atacante de espaços em Mbappé, um toque subtil e de algodão, e sempre prático, que liberta outros gauleses no espaço, em Griezmann, e um médio com enorme aptidão no passe e na ligação de jogo em Pogba, que por fim abdicou da exuberância de fintas e gestos inúteis e entendeu como pode ser útil (como bem escreveu Marcel Desailly).

Essa utilidade tenta ser abafada, ao máximo, pelo igualmente gigante Fellaini, o mais excêntrico no visual capilar que o persegue para todo o lado. Uma marcação ao homem que afeta mais a Bélgica do que faz mal à França, abrindo espaços ao meio por onde Griezmann espreita, e sendo mais uma adição de confusão à algo confusa forma como os belgas são mutantes no jogo - sem a bola, fecham-se com duas linhas de quatro defesas atrás de outros tantos médios, com ela, organizam-se com dois alas e três centrais.

Só que entre Vertonghen, Kompany e Alderweireld parecia existir um pacto de passe para o lado. Perante a falta de pressão dos franceses, mais preocupados em estragar o filtro de jogo em De Bruyne e Dembélé, nenhum central belga conduzia a bola, ninguém tentava fixar um adversário, não tiravam vantagem de terem espaço e tempo para pensarem o que fazer à vida.

E a Bélgica, por muito vistosa e espetacular que conseguisse ser pelos raides inspirados de Hazard, alimentados pela constância de passe saída de De Bruyne, apenas ameaçava. O extremo mal tratava o imberbe Pavard, à esquerda, e tirava éne cruzamentos perigosos, mas que apontavam sempre ao triz ao qual os centrais gauleses chegaram sempre primeiro. Acertaram apenas uma bola entre os postes, vindo do remate à meia volta de Alderweireld, num canto, que Lloris espantosamente parou.

A bola, o número de ataques, os passes e as aparências de estar por cima eram belgas.

Deles também eram, contudo, os espaços abertos entre linhas e os jogadores a não reagirem rápido nas reações às bolas perdidas. A França foi aproveitando, Griezmann, Giroud e Matuidi dispararam bolas fortes ou frouxas, nunca assim tão perigosas, porque Kylian Mbappé parecia estar algo tímido para contra-atacar, sem querer arriscar na velocidade que tem a menos que ninguém em campo.

Kevin C. Cox

Comportava-se, para variar e ter alguns laivos de normalidade, como o miúdo de 19 anos que é.

Existência um pouco mais banal que durou até à cabeça de Matuidi atacar o primeiro poste, num canto, enquanto Fellaini falhava numa das (poucas) coisas que justificava a sua presença em campo. O central antecipou-se ao médio pelo ar e o 1-0, com quarenta minutos em falta, quase que obrigou os belgas a exporem-se. E assim retornamos a Mbappé.

As circunstâncias forçaram a Bélgica, em definitivo, a fomentar mais as suas coisas boas em vez de tentar limitar as fortalezas da França. Os seus médios afastaram-se dos defesas, Witsel ficou mais isolado de Fellaini e De Bruyne e deixaram por cobrir mais espaço, o maior adubo para florescer um certo alguém que, dessa forma, e apesar de tão novo, já é incontrolável.

Nos dez minutos seguintes ao golo, os franceses ligaram todas as saídas rápidas contra a área rival porque, em todas, optaram por pedir boleia a Mbappé. O esguio e explosivo corredor repartiu-se em passes de primeira, tabelas bem ligadas e arranques que papavam dezenas de metros em parcos segundos.

Ele assistiu, isolou franceses, serviu outros à entrada da área e desfez o coitado Vertonghen, um dos melhores defensores do mundo que era destroçado, no um-para-um, por uma nuclear espontaneidade com a bola em corrida. Às tantas, até mesclou uma roleta à Zidane com um passe subtil, de calcanhar, para isolar Giroud, que seria a assistência do Mundial não fosse a finalização tão banal. E de jogadas suas, ou de forte influência sua, resultariam outros remates de Matuidi, Tolisso e Griezmann.

Bolas que teriam matado o jogo e não prolongado as tentativas que, a partir dos 65/70 minutos, os belgas banalizaram pela repetição.

Mertens entrou para se colar à direita e multiplicar cruzamentos para a área, onde o rochedo erguido entre Varane e Matuidi barravam Fellaini e Lukaku e as suas alturas. Um De Bruyne mais recuado no campo tentava com passes longos, tensos e precisos, também sem sucesso. Hazard era genial com as suas ziguezagueantes conduções de bola, provocava faltas e atraía adversários, de longe o melhor belga e dos melhores futebolistas do Mundial, mas não encontrava o último pedaço de espaço para rematar à baliza.

E os franceses, a cavalgarem no galope sónico de Mbappé, iam resistindo sem a bola por serem a seleção que menos veleidades permite no corredor central - o que terá muito a ver por terem um pequeno tanque chamado N’Golo Kanté -, mais organizada é nos momentos em que defende e a que mais tem crescido, com os jogos, nesta competição.

Nesta efeméride tão fatídica para o seu futebol, os franceses encontraram, de certa forma, a libertação. Ganharam e estão na final do Mundial pela terceira vez na história, todas ocorridas nos últimos 20 anos. Em 1998 beneficiaram da genialidade que Zidane elevou dos pés para a cabeça, em 2006 caíram quando esse génio sucumbiu a uma cabeçada.

E agora, em 2018, os franceses terão o futebol atleticamente explosivo e tecnicista, conjugação fenomenal, de tão rara que é, que está no corpo de Kylian Mbappé.

CHRISTOPHE SIMON