Tribuna Expresso

Perfil

A Casa às Costas - Mundial

Costinha, parte II: “No jogo com a Alemanha, no Mundial 2006, o árbitro disse ao Scolari para me tirar do campo. Parecia encomenda”

Costinha recorda o Mundial de 2006, onde se inclui a dura partida dos oitavos de final, em Nuremberga, que terminou com nove jogadores para cada lado e com a vitória de Portugal por 1-0. O médio revea ainda um episódio caricato que mete música e uma reunião com video e conta por que os jogadores diziam que ele era "filho" de Scolari

Alexandra Simões de Abreu

NUNO FOX

Partilhar

Qual a primeira memória que tem de 2006?
Foi um ano difícil para mim porque vinha de uma paragem, em Moscovo. Havia uma controvérsia, “O Costinha deve ir, não deve ir. Será que está em condições, não está em condições?”. Pessoalmente, tinha a noção de que estava, fisicamente, uns furos abaixo. Não é um problema assumir isso.

Fez a fase de qualificação para o Mundial de 2006?
Sim, toda. Do que me lembro foi tranquila, correu bem.

Depois do empate com o Lichtenstein como é que estava o ambiente?
Não ficamos satisfeitos. O Scolari deu uma dura na equipa dentro do autocarro. “Meus amigos agora não vale a pena estar a chorar mais. Temos de fazer o nosso trabalho no próximo jogo com a Rússia. Temos de assumir este mau resultado”.

Era exigente o Scolari?
Era, não havia hipótese. Ele podia ser muito amigo dos jogadores, que era, mas quando as coisas não estavam bem, ele dizia como é que era.

A seleção que disputou o Mundial 2006. Costinha é o primeiro em baixo, à esquerda.

A seleção que disputou o Mundial 2006. Costinha é o primeiro em baixo, à esquerda.

JUERGEN SCHWARZ

Nesses momentos, em que se empata ou perde com equipas supostamente mais fáceis, discutem muito entre vocês?
Alguns jogadores falam mais do jogo do que outros, depende. Mas por exemplo nesse jogo concreto do Lichtenstein tivemos a noção de que falhamos. Não podemos empatar com o Lichtenstein. Mas ninguém anda a acusar ninguém. Acho que quando se começa a acusar é o princípio de mau grupo e não vamos a lado nenhum. Quando falha um, falhamos todos, e quando um faz um golo, o golo é de todos.

Tem noção do que é que se passou para a coisa ter corrido mal?
Eles chutaram duas vezes e fizeram golo, nós chutamos várias vezes e só fizemos dois. É daqueles jogos...

Não entraram a achar que eram favas contadas?
Não, não acredito. Lembro-me do jogo, saí ao intervalo, eu e o Deco e não sei se o Ronaldo. Era uma equipa que estava ao nosso alcance, mas aconteceu. Às vezes acontece. Hoje se calhar acontece com mais frequência porque as equipas estão melhor preparadas. Hoje em dia já vemos a Islândia a ir a um Mundial e a um Europeu, há quantos anos é que isso não acontecia?

Tirando esse “deslize” com o Lichtenstein o resto foi pacífico.
Sim. Empatamos na Rússia e depois ganhamos em casa 7-1. Ganhamos à Eslováquia em casa, no Estádio da Luz, empatamos lá. Ganhamos à Estónia em casa, em Aveiro e lá também. Ganhamos à Letónia, no jogo em que até entrou aquela rapariga com o peito à mostra. Lá ganhamos 2-1 e cá, no Dragão, ganhamos 3-1. E com a Estónia, em Aveiro, também ganhamos 2-1. Foi uma qualificação onde estivemos bem, ficamos em primeiro.

Cositnha, à direita, disputa a bola com um jogador da seleção de Angola

Cositnha, à direita, disputa a bola com um jogador da seleção de Angola

NICOLAS ASFOURI

Comparativamente com o Euro 2004, havia muitas alterações na seleção?
Tinham saído o Rui Jorge, o Fernando Couto, o Rui Costa, o Figo, que saiu mas entretanto voltou para o Mundial de 2006. Não iniciou a fase, mas voltou contra a Estónia em que ganhamos fora com um golo do Ronaldo, de resto era o mesmo grupo com alguns retoques, e com um ou outro jogador que entrou.

Já na Alemanha, na fase de grupos, também foi tudo pacífico. Ganhamos a Angola 1-0...
...Ganhamos a Angola, ao Irão e ao México. E depois houve aquela “batalha de Nuremberga” que foi aquele jogo com a Holanda em que foram dois expulsos. Fui eu logo a abrir.

Recorde o que aconteceu.
No total foram 4 expulsos, 2 portugueses e 2 holandeses. Eu e o Deco do nosso lado e o Boulahrouz e o Bronckhorst. Foi um jogo muito intenso, fiz duas faltas para amarelo, a segunda, estava um bocado enervado porque taticamente não estávamos a fazer aquilo que devíamos estar a fazer e não estávamos a conseguir parar aquela movimentação dos holandeses. Estava um bocado irritado com essa situação e quando a bola passa por mim, acho que até ia para o Paulo Ferreira ou para o Meira, já não sei, levantei a mão, a bola bate-me na mão e vejo o segundo amarelo. Mas o curioso é que quando estou no hotel dou um autógrafo a uma criança com uma caneta vermelha e sem querer risquei a mão. Disse logo para mim “Hoje vou ser expulso”, são aquelas coisas. O Scolari punha sempre algum jogador a falar antes do jogo, e para esse jogo fui eu o escolhido. Na palestra que dei aos jogadores lembro-me de ter dito “Aconteça o que acontecer, é um orgulho ser vosso colega de equipa”. E sou expulso nesse jogo e vi o resto do jogo no balneário, sentado na zona dos chuveiros à espera do final.

Costinha vigia Zidane, com a bola, durante o jogo com a França, em 2006

Costinha vigia Zidane, com a bola, durante o jogo com a França, em 2006

ROBERTO SCHMIDT

Por que foi para o balneário?
Porque por causa daquele meu ato Portugal podia ser eliminado e estava a custar-me horrores. No final vencemos, graças a Deus.

Mas quando os seus colegas chegaram ao balneário pediu-lhes desculpa?
Não é uma questão de pedir desculpa. Aconteceu. Só peço desculpa se for uma coisa propositada, não foi o que aconteceu.

E o Scolari disse-lhe alguma coisa, teve alguma conversa consigo?
Não, foi tranquilo. Disse para descansar e limpar a cabeça e para preparar-me para o próximo jogo. Foi contra a Inglaterra e eu não pude jogar porque estava castigado, eu e o Deco. Mas fomos a penaltis e ganhamos. O espírito de equipa era bom, era forte.

Costinha abraçado por Ronaldo depois deste marcar ao Irão

Costinha abraçado por Ronaldo depois deste marcar ao Irão

Alex Livesey

Esse grupo era ainda mais coeso do que o do Euro 2004?
Enquanto tive na selecção, não apanhei nenhum grupo que não fosse coeso. Não posso dizer que um é mais ou menos. Todos eles foram espetaculares. Os grupos eram praticamente os mesmos. Tinham saído 3 jogadores, entraram 3, agora não me recordo de quem é que entrou... Entrou o Fernando Meira para o lugar do Fernando Couto. No lado esquerdo tínhamos o Nuno Valente e o Ricardo Costa, que fazia de lateral esquerdo e de central. Saiu o Rui Costa e acho que entrou o Tiago que não estava no Euro 2004. Estava o Rui Costa, o Deco e o Petit, eu e o Maniche. Portanto o grupo era praticamente o mesmo. Tenho uma história gira sobre esse jogo.

Força.
Eu era “o homem da música” e quando cheguei pedi a um funcionário da Federação, o Chico, “Vai a uma loja comprar os aparelhos porque eu preciso de música no quarto. Leva o meu cartão de crédito. Quero um amplificador, quero um leitor de cd’s e umas colunas. Boas colunas. Preciso de música aqui no quarto, vamos estar aqui muito tempo, quero música”. Ele lá foi comprar e eu montei aquilo e tínhamos sempre música. Cada um tinha o seu quarto, que tinham uns decks de madeira com uns vidros que davam para um lago, onde nos sentávamos a conversar. Havia ainda a sala de reuniões, sala de jogar, com snooker, cartas, televisão. Da sala íamos para os quartos mas não íamos pelos corredores, era tudo por fora. Uma vez, acabo o almoço e vou para o quarto e normalmente os colegas iam lá e pediam para eu pôr uma musiquinha. Mete este estilo, mete aquele estilo, na altura eu, o Ricardo, o Figo, o Maniche e o Nuno Gomes tinhamos feito um cd 5 estrelas com músicas de apoio ao Mundial, e eu começo a pôr a música, sem ninguém me pedir. Abro as janelas do quarto e venho cá fora “Fogo, onde é que estes gajos estão todos?! Ninguém faz barulho?!”. Quando olho para a sala de reuniões está o Scolari a dar uma palestra com video. Eu baixo a música, entro pela porta da sala, o Scolari olha para mim assim com um ar “Tu?!”. porque eu nunca falhava nada, nem me atrasava. Tudo a olhar para mim a rir (risos). Diziam que eu era o filho do Scolari.

O momento em que Costinha vê o cartão amarelo durante o jogo com a Holanda

O momento em que Costinha vê o cartão amarelo durante o jogo com a Holanda

Mike Egerton - EMPICS

Porque é que diziam que era filho do Scolari?
É normal chamarem isso quando os treinadores brincam mais com um. Já fui filho de toda a gente, do Mourinho…Eles na palhaçada metiam-se comigo “Então o teu pai já sabe se eu vou jogar? Pergunta lá ao teu pai se eu vou jogar.”

Havia empatia entre os dois.
Sim. Tive sempre uma relação muito boa com os meus treinadores. Se há coisa que eu detesto é “puxar saco”. Não gosto de puxar, nem gosto que puxem, fico logo doente. Agora uma relação normal, sadia, sem problema. Gosto de perguntar. “Porque é que faz isto? Porque é que treinamos aquele exercício? Porque é que aquilo vai dar assim?”. Há treinadores que gostam, por exemplo o Mourinho gostava de ser questionado, gostava que mostrássemos interesse pelo treino, há outros treinadores que não gostam. Mas o Scolari nesse dia não me disse nada, saiu e lá fomos jogar às cartas.

Gosta de jogar a quê?
Qualquer coisa desde que ganhe (risos). Só há uma pessoa na vida com quem eu não jogo cartas como parceiro.

Quem?
A minha mulher. Joga por desporto e eu não jogo nada por desporto, jogo tudo para ganhar. Tudo. Quer dizer, eu agora vou jogar ténis com o meu sogro que me ensinou a jogar. Como eu não sei jogar bem, não posso jogar para ganhar. Tenho de aceitar que a outra pessoa é mais forte do que eu. Quando já começo a ficar a um nível melhor, aí… Sou muito competitivo.

AI Project

Na seleção também há praxes.
Às vezes fazemos uma ou outra brincadeira. Lembro-me uma vez não sei se foi com o Carlos Martins, o Dani e o Hugo Almeida, começamos a dizer “Epá agora com o Scolari ele gosta que vocês cheguem lá, se apresentem, quem são, o que é que fazem, o que é que comem, essas coisas todas. Pedem a palavra, agradecem e dizem eu sou tal pessoa, faço isto”. Acho que foi o Carlos Martins que chegou lá e disse “Olá eu sou o Carlos Martins, sou jogador do Sporting, gosto disto, faço aquilo...” o Nuno Valente não aguentou e começou rir (risos).

E o Scolari?
O Scolari ria-se também, entrava na palhaçada. Até aproveitou para dar uma dura num jogador.

Então?
Não vou dizer (risos), mas também aproveitou aquela brincadeira para dar uma dura num jogador. O que a gente se riu, ele estava a rir, deixou logo de rir.

Estava a dizer que não fez o Inglaterra-Portugal.
Sim, fiquei na bancada a ver.

Sofre-se mais na bancada?
Sim muito mais. Mas eles fizeram o trabalho deles. Há uma coisa que é importante, nós sentirmos confiança, termos confiança nos nossos companheiros e, naquela altura, independentemente de quem jogasse, notava-se que havia uma vontade em querer ganhar, ninguém queria fazer má figura. Isso é muito importante. Aumenta a competitividade, tens que estar mais alerta, tens que tentar sempre ser melhor, essa competitividade ajuda-te a crescer.

Cositnha com Deco num momento de descontração durante um treino da seleção

Cositnha com Deco num momento de descontração durante um treino da seleção

AFP

Depois há a famosa meia final com a França.
Com a França, sempre com a França.

Perdemos 1-0 com um penalti do Zidane. Nessa altura caiu tudo?
Não, foi mais uma vez contra a França. A França tem sido uma besta, finalmente matamos a besta na final, em 201 Mas foi assim em 2000, em que perdemos 2-1, não foi no Europeu de 2004 porque a Grécia eliminou a França, e a República Checa que eram duas das favoritas, foi assim em 84 em que perdemos 3-2 com a França.

Depois fomos jogar o 3º e 4º lugar. Perdemos com a Alemanha 3-1.
Sim, com a equipa da casa em que o árbitro ao intervalo diz ao Scolari que tinha que me tirar do jogo. E o Scolari “Mas tenho que tirar porquê?”. “É melhor tirar do jogo, é melhor tirar do jogo”. Parecia que estava ali encomendado para a Alemanha, a equipa da casa, não ficar de fora do pódio.

Mas o àrbitro dizia para o tirar?!
Sim, ele pediu ao Scolari para me tirar.

Porquê?
Boa pergunta, nem o Scolari soube.

Costinha, à direita, durante o jogo com a Alemanha, para atribuição do 3º e 4º lugares

Costinha, à direita, durante o jogo com a Alemanha, para atribuição do 3º e 4º lugares

Christian Charisius

O árbitro andou em cima de si?
O Scolari depois tirou-me.

Fez a vontade ao árbitro porquê?
Porque se calhar estava com medo que me expulsasse e depois ficávamos a jogar com 10. Também estávamos a perder 2-0 e ele quis por mais um elemento na frente.

Quando o árbitro disse para o tirar foi por já estar amarelado?
Estava amarelado, mas já joguei tantos jogos amarelado. Eu e mais 7 colegas, antes de irmos à final da Liga dos Campeões, em 2004, na Corunha, jogamos todos amarelados. E não deixei de jogar, não deixei de correr, não deixei de pôr o pé. E nessa altura o Colina não disse ao José Mourinho “É melhor tirar o senhor Costinha”. Ele tratava-me por senhor Costinha, o senhor Colina. Lembro-me de um lance em que discuti, não era falta, e ele disse-me “senhor Costinha quer jogar final ou não quer jogar final?” Ele sabia o que é que estava a fazer, fez o trabalho de casa.

E o ambiente estava pesado depois da meia final com a Alemanha?
Quando se perde é normal, era uma oportunidade de irmos à final. Não conseguimos.