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A prova de que cinco golos podem fazer um pirete a um jogo aborrecido

Deve-se um par de obrigados a Denis Cheryshev, cujo pé esquerdo mais fez para contrariar o jogo algo lento e mal jogado que inaugurou o Campeonato do Mundo. À Rússia, que não ganhava um jogo desde outubro do ano passado, bastou ser organizada e intensa de vez em quando para golear (5-0) a Arábia Saudita. E disfarçar, com o resultado, um jogo em que o mais entusiasmante ia sendo o gesto obsceno que Robbie Williams mostrou ao mundo, durante a cerimónia de abertura

Diogo Pombo

Joosep Martinson - FIFA

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É-me árduo pôr em palavras o quão emocionante, ou excitante, é chegar a esta altura da vida. Mais um quadriénio passa e temos o prazer de estarmos colados à televisão, em pulgas, ou algures no estádio Luzhniki, em Moscovo, esteja a sorte convosco, bêbados de entusiasmo pelo facto de o, supostamente, melhor que o futebol tem, estar de volta para nos entreter com força, durante um mês.

Tivemos saudades tuas, Mundial. E lá estás tu, a recorrer à atual versão grisalha e com um quê de barrigudo de Robbie Williams, o cantor que construiu uma carreira com os hits que vai buscar ao baú durante a cerimónia de abertura, como aquele em que pedia para o deixarmos entreter-nos. E, deixando-o, ele sente-se à vontade para fazer um pirete à câmara e ao mundo com a mão esquerda, enquanto toda uma espetáculo acontece à sua volta.

Seria, certamente, o gesto mais inacreditável da cerimónia, não fossem os minutos em que se teve de fazer um silêncio democrático para Vladimir Putin, o russo que preside à Rússia com uma certa alergia a essa forma de governar, discursar, coisa inédita (?), antes de Gianni Infantino, o líder da FIFA, também o fazer e de o primeiro jogo do Campeonato do Mundo começar.

Aí chegava-se a outro problema, vindo do desafortunado encontro entre a regra de ser o país anfitrião a inaugurar a competição e a sorte de um sorteio que, para quem assiste, foi azarento: este Rússia-Arábia Saudita, uma partida entusiasmantes apenas por acontecer ali, agora, nestes circunstâncias.

Porque os russos, para o escrever de forma simpática, já tiveram melhores dias na sua amizade com o futebol e estavam a viver uma fase em que não venciam desde outubro do ano passado. E os sauditas nunca viveram dias muito melhores do que estes, em que são a seleção com pior ranking (67º) do Mundial. A soma destas partes dá-nos um jogo lento, algo aborrecido, com risco quase nulo e muitos erros a serem cometidos onde seria suposto mostrar um bom exemplo de futebol para o mundo.

No dia anterior, ouvi algures que na Ásia veem a Arábia Saudita como o Brasil do Médio Oriente, comparação que só faz sentido ao constatarmos que também têm onze tipos em campo a tocarem numa bola com os pés. É verdade que se vê os sauditas a quererem trocar a bola, a somarem mais passes do que os russos, a tentarem tabelas e a avançarem no campo juntinhos. Mas fazem-nos tão devagar, devagarinho, com os jogadores tão imóveis e a nunca se perfilarem como devem, que cada bola perdida quase equivalia a uma oportunidade de golo.

É assim que uma Rússia precária em talento, mas organizada e com a noção de que tem de acelerar as coisas quando recupera a bola, chega à baliza contrária sempre que ataca. Os anfitriões vão conseguindo uns cantos até voltarem a cruzar a bola, na ressaca de um deles, para a cabeça de Gazinsky marcar (11’) no meio dos buracos de uma linha defensiva onde cada saudita fez, literalmente, o que lhe apeteceu. Tal como na jogada em que Cheryshev picou ligeiramente a bola numa receção, na área, tirando da frente o desespero de dois deslizantes sauditas, antes de disparar (42’) o segundo golo.

Por fim, um pouco do que bonito e bem jogado pode ter o futebol.

Valery Sharifulin

O extremo que tem tanto de russo quanto de espanhol, pelos 15 anos que tem lá vividos, deu a velocidade e intensidade que disfarçaram as limitações da mecânica seleção russa - ainda mais limitada no talento pela lesão de Dzagoev, o infortúnio que tirou Cheryshev do banco. Era, sobretudo, a forma rápida como ele insistia em usar as bolas, que dava perigo aos ataques russos.

Sem a bola, bastava serem atinados a ocupar o campo e a não deixar um adversário receber com muito espaço. A geral pobreza dos sauditas, cheios de vontade de terem a bola e dominarem o jogo com ela, mas assustadoramente limitados nas simples coisas que são a receção, o passe de primeira, o receber a bola de forma orientada e a reação à sua perda, ajudava-os no resto.

Não foram capazes de mais do que um cruzamento desviado pelos quase 39 anos de Ignasevich, para a própria baliza, na primeira parte, e de um potente, solitário e nascido da individualidade remate de Salem Al Dawsari, extremo que fez um jogo pelo Villarreal esta época, já na segunda parte. Ocuparam o restante tempo a tentar diminuir o número de erros que só iam aumentando à medida que os minutos avançavam.

E os russos, na sua espécie fria e mecânica de piloto automático, foram aproveitando esta bola de neve errática, sem terem que se esforçar muito.

O 3-0 surge ao segundo toque na bola do gigante Dzyuba, após um simples cruzamento com todo o tempo e espaço do mundo; o 4-0 é uma bola despachada para a frente, captada pelo mesmo grandalhão, único a fazer-se a ela, e passada ao pé esquerdo de Cheryshev que rematou de trivela para inventar o que será um dos golos deste Mundial; e o 5-0 chegou de livre, à entrada da área, onde Golovin, o melhor da seleção, castigou uma falta desnecessária.

Tudo pareceu demasiado fácil, simples e, estranhamente, bem jogado para um jogo que, tirando os dois momentos de louvado arrojo do jogador menos russo dos russos, foi sempre lento, enfadonho, errático e, no fundo, mal jogado. O que pode ser um paradoxo, porque o futebol é mais divertido quanto mais golos houver - mas, está visto, eles podem acontecer em meros segundos de esporádica inspiração no meio de 90 minutos de aborrecimento. Já não se marcavam tantos golos num jogo de abertura desde 1934, quando a Itália ganhou por 7-1 aos EUA.

O que interessa é que o Mundial já arrancou e não há cerimónia, ou pirete de Robbie Williams, que possam estragar isso.