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Talvez haja um pequeno czar dentro de cada um destes russos

Assim como o tinha feito no primeiro jogo, a Rússia tanto insistiu e tentou com o seu estilo direto, intenso e vertical de fazer as coisas que, de repente, os golos começaram a entrar. Limitado ou não, esse estilo chegou e sobrou (3-1) para vencer o Egito, que teve Salah em campo, sem o ter verdadeiramente, resultado que deixa os russos com um pé nos oitavos-de-final do Mundial

Diogo Pombo

GIUSEPPE CACACE

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É compreensível nutrir uma certa admiração, quase inevitável, pela pessoa que há no futebolista, ou seja, pelo que ele faz antes ou depois de se fazer ao campo e à bola, quando o cursor do rato está em cima de “8 coisas que aposto não sabia sobre Mohamed Salah” e, perante resultado de pesquisa tão pescador, se vende o clique ao desbarato. Uma aventura googleira que me lembra o que aproveito para vos relembrar, ou contar.

Ele mudou as ideias do pai, convenceu-o a retirar as queixas apresentadas contra o tipo que assaltara a casa da família Salah, no Egito, que fora detido pela polícia, para dar algum dinheiro ao assaltante e ainda mexer uns cordéis para o ajudar a encontrar um trabalho. Ele doou 500 mil libras a um hospital no Cairo, que trata crianças com cancro. E ele também doou outras 330 mil de libras à sua cidade berço, Nagrig, para reconstruir o sistema de esgotos.

Estando em campo, em Salah estariam todas as nossas fiéis expetativas de ser ele a providenciar animação e pedaços espetaculares de futebol no Egito-Rússia, que abre a segunda jornada do Mundial. Um augúrio natural, porque ele é o encaracolado velocista de quem saíram 44 golos desde o verão, e também forçado pelo bom coração que bombeia tanto altruísmo no generoso Mohamed Salah.

Só que nele também há um mau ombro, mazelado desde a final da Liga dos Campeões, que o parece amarrar ao próprio temor a contactos físicos, disputas de bola e qualquer ação que possa envolver outra parte do corpo que não o pé esquerdo. E quem até o Google sugeriria ser a maior fonte de coisas bonitas no jogo é um reflexo encolhido de um craque em quem apenas reparamos aos 42 minutos: recebe um passe à beira da área, simula o arranque para o lado, rodopia e remata à meia volta uma bola que rasa o poste.

É muito pouco no meio de um jogo paupérrimo, embora até rápido e intenso, em que os médios russos e egípcios são mais guerrilheiros do que futebolistas. Existem para lutar sobre segundas bolas que sobre de dois estilos diretos e verticais que levantam o jogo da relva e o fazem passar-lhes por cima.

A Rússia tem Dzyuba na frente, o enorme corpo que os centrais procuram em cada bola, para ser o apoio que serve quem vem de frente, ou dá para o lado, para alguém flanquear o adversário com cruzamentos. Fazem-no, tentam-no, regressam à casa de partida e repetem, com intensidade. O Egito, apesar de Hector Cúper, o treinador conservador que parece pedir calma, deixa-se jogar nessa ânsia de tudo ter de acontecer velozmente - também porque, em forma ou com medo, já há Salah, e qualquer transição rápida espreme o melhor que há nele.

GIUSEPPE CACACE

Cada freguesia até recebe dois remates perigosos em 45 minutos, o que não fazia do jogo uma amostra divertida, muito menos bem jogada. A não ser pela mestria de um lateral direito em receber e matar bolas no peito, chegassem com menor ou maior força e dificuldade, o que pode ter a ver com Mário Fernandes ser um brasileiro feito russo pela burocracia.

Não viria a ser um exemplo de futebol ligado, com muitos passes em cada jogada e poucos erros não forçados a tapar espaços. Mas, na segunda parte, o encontro tornou-se animado pelos três golos que fazem pensar o que, de facto, será esta seleção russa.

Não é pelo 1-0, que é um auto-golo produzido pela urgência com que Fathi se antecipou a um russo, na área, e desviar a bola com o joelho para onde não devia. É mais pelo 2-0, a primeira ligação simples e eficaz do ataque russo, em que o extremo Samedov estica na linha, o lateral Mário Fernandes rompe por dentro, recebe o passe na área e atrasa outro para Cheryschev rematar. E pelo 3-0, um exemplo de como a opção mais direta e vertical se justifica quando há Dzyuba para a morder, enfiar por entre as pernas de um defesa e rematar.

É uma vantagem feita em 15 minutos e algo parecido a um aperitivo para o pensamento. Dá que matutar por os golos marcados por russos terem vindo de russos que, no jogo anterior, começam no banco, e tanto nesse, como neste encontro, são os melhores da equipa. Também, por outro lado, porque esta Rússia é a mesma equipa que dos amigáveis sofríveis, aborrecidos e enfadonhos pré-Mundial, mas que agora é, ao menos, intensa e vertical e direta na forma como pretende existir no campo.

Uma maneira não muito atraente, só esporadicamente divertida de ver, por raras ocasiões vistosa - nunca menos certa ou errada do que qualquer outra -, de estar em campo com 11 jogadores que chega, e quase sobra, contra o Egito encurralado na escassez de ideias imposta pelo treinador. Não dá para mais do que o penálti arrancado, e batido, por Salah, o egípcio que mais pessoas quererão bem e lá apareceu, fugas, sombra tremida dele próprio.

Os africanos nunca reagiram com um plano consistente ao estilo físico, duro, veloz e para a frente da Rússia, que vai parecendo cada vez menos limitado quando maior é a habituação que os jogadores aparentam ter a esta forma de jogar, a cada minuto passado. Os egipcíos continuam, figurativamente, sem Salah, e estão prestes a ficar sem o Mundial.

Os russos estão cada vez com mais certezas no seu futebol. E, a cada jogo que jogam, com mais futebol dentro deles.