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Arábia Saudita

Uma vida rocambolesca no Campeonato do Mundo, por Arábia Saudita

O avião que levaria a seleção saudita a Rostov, onde esta quinta-feira defronta o Uruguai (16h, RTP1), foi forçado a aterrar de emergência devido ao incêndio num dos motores. Antes, a sua atitude durante a derrota por 5-0 contra a Rússia foi, supostamente, criticada pelo ministro dos Desportos. E antes, muito antes disso, os sauditas já eram a equipa que troca de selecionador como o vento muda de direção e talvez ainda não seja desta que jogam um Mundial sem problemas de travessia

Diogo Pombo

Turki Al-Sheikh, o ministro dos Desportos da Arábia Saudita, a falar com os jogadores árabes

ALEXANDER NEMENOV/GETTY

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Gary Meenaghan é um escriba da "Arab News" e estava em Moscovo, nas catacumbas do Luzhniki, gigante estádio onde se abriu o Mundial, olhou para o relógio e ali estava há mais de duras, na longa fila da zona mista, à espera que algum saudita ousasse passar. O jornalista faz todo um relato da ocorrência e pega-se por este tempo de espera porque, basicamente, no fim de um partida de futebol desta competição, a coisa costuma funcionar da seguinte forma:

os jogadores jogam o jogo, vão para o balneário, falam o que têm a falar, tomam banho e, quando de lá saem, têm por obrigação passar por esse corredor, que os leva até ao autocarro que os levará dali para fora.

Por hábito, não demoram mais do que uma hora até saírem da toca, caminharem, alguns pararem com piedade das perguntas dos jornalistas, e seguirem. Mas contaram-se mais de duas até os sauditas espreitarem pela porta do balneário, darem a calma por garantida e, um a um, refugiados na inflacionada distração de headphones com que tapavam as orelhas, se apressarem a fugir corredor fora.

É provável que a atitude tenha tudo a ver com o 5-0 sofrido no jogo que matou uma espera de quatro anos, por conseguinte ansiado e visto por milhões de olhos, que constaram o futebol mediano das equipas e, por certo, apenas se recordarão, para contar aos netos, dos demolidores e humilhantes, mesmo que exagerados, cinco golos.

FAYEZ NURELDINE

Mais tarde, o cabisbaixo e timidez forçada dos sauditas teria mais razões para existir.

Chegados ao autocarro, já sentados e recolhidos, os jogadores terão visto pelos telemóveis espertos o vídeo que Turki Al-Sheikh, o ministro dos Desportos da Arábia Saudita, publicou nas redes sociais. Resolveu dizer que tomava “a responsabilidade total pelo resultado” feito “diante do Príncipe Mohammed bin Salman” e os adeptos, antes de disparar contra quem pretendia: “Pagámos todas as despesas [dos jogadores] e eles vieram para o jogo sem 5% do esforço que era necessário”.

Durante o mesmo devaneio crítico, o ministro ilibava o treinador e o diretor desportivo da seleção de quaisquer responsabilidades. Reforçou ainda mais o ataque que jamais pode ser benéfico vindo de quem, no fundo, era suposto vir apoio e proteção.

O cenário de uma grande mão saudita a carregar no botão de auto-destruição de qualquer estabilidade piorou com os rumores (entretanto já desmentidos pelo reino) de que o avançado Mohammad Al Sahlawi, o defesa Osama Hawsawi e o guarda-redes Abdullah Al Mayouf seria alvos de castigos disciplinares pela tal, alegada, falta de esforço.

E a seleção que chegou a gozar, durante muito tempo, de 60% da bola frente aos russos, na qual se reconhecem jogadores arriscadores e bons a correr com ela, juntou a instabilidade a um péssimo resultado desportivo. Porque uma defesa à deriva nas compensações e coberturas, um ataque que não acerta um remate na baliza em hora e meio e em jogadores que são falíveis nas coisas simples, como uma receção ou um passe de primeira - indesculpáveis a quem joga um Mundial -, até se pode trabalhar, mas, no resto, já é difícil.

Na 1ª jornada do Mundial, a Arábia Saudita perdeu por 5-0 contra a Rússia

Na 1ª jornada do Mundial, a Arábia Saudita perdeu por 5-0 contra a Rússia

MLADEN ANTONOV/GETTY

Ou mesmo impossível, pois não haveria hipótese de prever que um dos motores do avião que, na segunda-feira, levou a seleção até Rostov, se incendiasse a meio do voo. Ou que a causa fosse um azarado pássaro, apanhado pelas turbinas. O avião aterraria em segurança e os jogadores seriam filmados, em modo sorridente e descontraído, a saírem do avião. “Os jogadores chegaram em segurança e já estão na sua residência. Foi apenas um mero acidente”, escreveria, mais tarde, a Federação Saudita de Futebol, no Twitter.

Um incidente minimizado, quase desprezado, enfiado na categoria de algo mero, que é um sinónimo de simples, tudo o que a vida da Arábia Saudita em Mundiais não é.

Esta é a seleção que vai na sua quinta edição do torneio e na primeira, em 1994, até chegou aos oitavos de final, soprando com algum oxigénio as expetativas que tombaram, com espalhafato, nas participações seguintes. Em 1998 e 2006, lograram apenas um empate. Em 2002, encaixaram 12 golos, incluindo um 8-0 frente à Alemanha, sem marcarem um.

O que, vendo bem, pode estar ter um quê de sintoma de uma condição causada pelas quase 40 vezes que a Arábia Saudita decidiu trocar de selecionador, desde o ano em que participou no seu primeiro Mundial. O último par de mudanças apareceu há menos de um ano, nesta confusa dança que pôs Juan Antonio Pizzi no cargo quando, dois meses antes, lá tinha chegado Eduardo Bauza, para encher o lugar vagado por Bert Van Marwijk, em setembro.

Parece ser uma instabilidade cíclica, a serpente que morde a própria cauda. E os sauditas, que voltaram a ser a seleção mais goleada à primeira jornada da maior competição de todas, onde os golos nem são coisa de fartura, terão de lutar, de novo, contra a sua própria volatilidade.

  • A prova de que cinco golos podem fazer um pirete a um jogo aborrecido

    Grupo A

    Deve-se um par de obrigados a Denis Cheryshev, cujo pé esquerdo mais fez para contrariar o jogo algo lento e mal jogado que inaugurou o Campeonato do Mundo. À Rússia, que não ganhava um jogo desde outubro do ano passado, bastou ser organizada e intensa de vez em quando para golear (5-0) a Arábia Saudita. E disfarçar, com o resultado, um jogo em que o mais entusiasmante ia sendo o gesto obsceno que Robbie Williams mostrou ao mundo, durante a cerimónia de abertura