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O milagre pode acontecer: os vilões passaram a heróis e o poder político apressou-se a colher os dividendos (a Rússia, por José Milhazes)

São várias razões para tanto optimismo, sendo de destacar a onda de simpatia e apoio que a selecção russa passou a gozar principalmente depois da vitória a penáltis contra a Espanha, uma das mais sérias favoritas à taça. De súbito, a depressão deu lugar à euforia

José Milhazes

Joosep Martinson - FIFA

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A selecção russa é, sem dúvida, uma das equipas mais surpreendentes do Campeonato do Mundo de Futebol. Antes, eram muito poucos, nomeadamente russos, aqueles que acreditavam que os futebolistas iriam além da fase de grupos, mas, hoje, pelo menos os adeptos russos acreditam que a equipa do seu país pode chegar à final e até ser campeão.

Mesmo que a selecção russa seja eliminada nos quartos de final pela forte equipa croata, ela entrará na história do desporto nacional, pois conseguiu o maior dos êxitos conseguidos após o fim da União Soviética.

Mas Valeri Gazaev, conhecido treinador russo, não tem dúvidas: “Devemos colocar agora tarefas mais globais. A chegada à final!”, e justifica o seu optimismo: “Os nossos jogadores e o corpo de treinadores devem compreender: uma possibilidade tão real aparece uma vez na vida! É preciso centrar os futebolistas exclusivamente na luta pela final, porque para lá chegar, não restam dez partidas, mas apenas duas”.

São várias razões para tanto optimismo, sendo de destacar a onda de simpatia e apoio que a selecção russa passou a gozar principalmente depois da vitória a penáltis contra a Espanha, uma das mais sérias favoritas à taça. De súbito, a depressão deu lugar à euforia.

No início do Campeonato do Mundo, os especialistas e adeptos em geral não davam um “tostão” pelos futebolistas russos, pois a equipa tinha perdido vários jogos amigáveis e alguns consideravam mesmo que ela chegou à fase final por ser a equipa do país que organizou o torneio.

Porém, depois das vitórias sobre a Arábia Saudita e o Egipto, os jogadores russos cumpriram o seu principal objectivo: passar à fase do “mata-mata”. A derrota frente ao Uruguai levou alguns a concluir que a seleccção russa estava condenada a cair frente à Espanha, mas o milagre aconteceu.

Os vilãos passaram a heróis e o poder político apressou-se a colher os dividendos. Dmitri Peskov, porta-voz do Presidente Putin, comparou os festejos da passagem aos quartos de final às manifestações de alegria realizadas pelos soviéticos a 9 de Maio de 1945, dia em que a Alemanha nazi capitulou na Segunda Guerra Mundial.

Além do forte apoio dos adeptos, a selecção russa tem agora jogadores muito mais motivados e que estão sujeitos, diríamos, a uma pressão positiva. Independentemente do resultado frente à Croácia, eles já fizeram história, mas, se vencerem mais uma partida…

É preciso reconhecer que o jogo dos russos não tem sido bonito, alguns acusam-nos até de terem realizado anti-jogo frente à Espanha, mas, em torneios como o Campeonato do Mundo, o principal é vencer. Recordemos a vitória de Portugal no Europeu de 2016.

Outro factor que poderá contribuir para o êxito da equipa russa consiste em que ela não terá de enfrentar selecções tão fortes como as do Brasil, França, Bélgica e Uruguai. Segundo Gazaev, “os restantes adversários também são fortes, mas não os podemos considerar intransponíveis”.

E não nos podemos esquecer que a selecção russa tem jogadores de grande valor, embora não gozem da visibilidade necessária porque jogam apenas em casa.

Quanto às conversas sobre doping e compra de resultados, investiguem.