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Os iranianos não precisam da nossa pena

Os jogadores do Irão tiveram quase tudo contra eles antes deste Mundial começar e durante muito tempo deste primeiro jogo. Mas pela falta de chuteiras, pelos equipamentos a terem que ser pagos e pelas seleções a recusarem defrontá-los em amigáveis, tiveram um auto-golo de Marrocos (1-0) que lhes deu uma vitória, 20 anos depois

Diogo Pombo

GIUSEPPE CACACE

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A pena é um sentimento provocado pelo sofrimento alheio, sentimo-la ao vemos alguém, ou um aglomerado de alguéns, a passar por um mal bocado quando nada fizeram, que saibamos, para o merecerem.

Os iranianos vêm de um país politica, geografica, historica e nuclearmente problemático, não que os problemas sejam, necessariamente, causados por eles, mas por, muitas vezes, a superpotência que faz por a história a guardar como paladina da justiça no mundo, ver o Irão como um problema.

Por isso, aos problemas de quase ter de implorar ao governo para financiar as atividades da seleção, de colecionar “nãos” ou cancelamentos para encontros particulares, de treinarem em campos com 60 metros de comprimento, de a Adidas, que os veste com equipamentos, apenas dar um desconto de 70% no preço em vez de os fornecer, na totalidade, a equipa do Irão ficou a saber, a dois dias de entrar no Mundial contra Marrocos, que a Nike mudou de ideias. A gigante marca americana cancelou o contrato que calçava os jogadores da seleção com chuteiras, justificando-o com a decisão do pequeno (não em tamanho) e artificialmente bronzeado líder dos EUA em retirar a nação do acordo nuclear com o Irão.

Apesar de tudo, eles conseguiram ir jogar futebol a um Campeonato do Mundo, mesmo sofrendo à brava com tudo isto. Não era preciso, de todo, a sofreguidão que os marroquinos lhes impõem durante os frenéticos, asfixiantes e insistentes 25 minutos de jogo para sentirmos pena dos iranianos.

É uma pena, sim, acentuada pela entrada mais arriscada e atacante que se vê, ao terceiro jogo do Mundial, os marroquinos a forçarem. Eles rematam à baliza quase uma dezena de vezes, tentativas catapultadas pela boa insistência em passes para a frente, que furam linhas, e pelas jogadas em que há muita gente a tocar-e-ir e a tabeçar perto da área. Tipos como Belhanda, Ziyach ou Harit são a cara de uma seleção atrevida e com aquela pitada de maluquice saudável com a bola, tão rara por estes dias, tão aprisionada pela cautela que muitos creem vencer mais jogos do que o risco.

Marrocos chega a ter 84% do tempo da bola, mas o Irão de Carlos Queiroz ampara-se na invasão africana com a qualidade que os tinha sem derrotas há 22 jogos - a luta, a garra e a raça que, no fundo, não são mais do que a capacidade de sofrimento à qual a equipa, por tudo o que já se escreveu, está habituada.

É um turbilhão atacante pela esquerda, direito e ao centro, ao qual a melhor resistência iraniana é o amontoar compulsivo de corpos à frente da bola, que bloqueiam grande parte dos remates. Dá pena de ver, e não era preciso tudo o que já lhes acontecera antes de chegarem à Rússia.

Richard Heathcote/REMOTE

Mas, findos esses 25 minutos, os marroquinos também começam a sofrer da sua natural condição humana e abrandam. O físico perde alguma energia, o seu futebol é arrastado e erram mais atrás no campo. Já perdem bolas nos sítios onde primeiro pensam no que lhe fazer e o Irão tem contra-ataques rápidos que se tornam perigosos. Um deles deixa Sardar na cara de Ali Beiranvand, mas o avançado remata contra o guarda-redes que lavou carros e entregou pizzas nos primeiros tempos de futebolista.

A melhor oportunidade do jogo, que é uma dupla oportunidade, porque o iraniano de luvas ainda barra a recarga, é dos iranianos que lá se coordenaram para estabilizarem na maior qualidade que lhes é reconhecida. Defendem sem desposicionamentos e o ocupam os espaços com a coesão que não rouba o domínio da bola aos marroquinos, mas retira-lhes o perigo iminente.

Continuou a notar-se, segunda parte dentro, que 17 dos 23 marroquinos selecionados para estarem na Rússia nasceram, e cresceram, fora de Marrocos (como Manuel da Costa, o ex-português que ainda sai do banco para jogar menos de 10 minutos): eles formam uma seleção que só vive da bola, cheia de bons pares de pés, intensos a procurarem a baliza dos outros e também a protegerem a sua, embora se desorganizem um bom bocado quando perdem a bola e tenham que reagir a um contrapé.

E os iranianos, até ao fim, permanecem sólidos e fiáveis como já o foram há quatro anos, no Brasil, permitindo apenas um remate à distância, para ser de Beiranvand a melhor parada do encontro. Continuaram com a certeza da muralha que eram a defender e a serem ousados nas bolas de contra-ataque até as pernas e os pulmões lhes permitirem. Nos últimos dez minutos e nos seis de compensação que se seguiram, pareciam demasiado fatigados pelo esforço, contentes com o mal menor - para eles, um bem maior - que seria um empate.

Até há uma falta idiota e há um livre mascarada de canto, à esquerda, para haver uma bola cruzada para a área onde há a cabeça de Aziz Bouhaddouz, torta na pontaria para a própria baliza, que dá o 1-0 ao Irão. É um golo aos 90’+5, de uma segunda parte em que os iranianos não fizeram um remate à baliza, mas também vindo do momento de um jogo de futebol em que deixam de contar todas as coisas que aconteceram antes, ou a forma como aconteceram.

O Irão que não tem chuteiras patrocinadas, é obrigado a pagar pelos equipamentos, lida com um ver se te avias para arranjar adversários amigáveis e com a falta de dinheiro, ganhou um jogo no Mundial. Já não o conseguiam há 20 anos. É a primeira coisa verdadeiramente bonita desta competição na Rússia - e uma demonstração de que eles não precisam da pena de ninguém.

A sorte também protege quem sabe sofrer.