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Perdoa-os, Iniesta, eles já não sabem o que fazem

O desastre à espera de acontecer desde a antevéspera do Mundial apareceu nos oitavos-de-final. Os espanhóis não arriscaram, não tinham um plano e nada fizeram (jogadores e treinador) mais do que passar a bola, só por passar, durante 120 minutos. Banalizaram o jogo até aos penáltis onde a Rússia os eliminou e despediu assim, de forma tão pobre, um génio

Diogo Pombo

Mike Hewitt - FIFA

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Sinto um certo asco, não sei quanto a vocês. É um misto de comichão e inquietude, aquela sensação de desconforto permanente de quem está no sofá e, não importa o conforto que nos vendam, se mexe e remexe com a noção de ser impossível atinar com a posição certa. É como uma alergia, mais castradora, maçadora e entupidora de sensações do que toda a possível concentração de tipos de pólens no ar.

Esta sensação, e julgo não ser o único, é-me causada por desconhecer qualquer moléstia física, ou mal-estar, que justifique esta afronta: sentar no banco a mais brilhante cabeça calva, dona dos pés mais protetores de bola, responsável pelo maior golo espanhol alguma vez marcado, estando ele disponível e a Espanha a jogar um Mundial.

Não era preciso, de todo, os espanhóis que estão em campo em vez de Andrés Iniesta se deixarem levar, aos poucos, pela soberba que demasiado tempo na companhia da bola, por vezes, causa. Porque a bola, e o redundante ditado de que, tendo-a nós, os outros não a têm e não nos poderão fazer mal, torna-se perigosa quando passada apenas por passar - e, no caso da Espanha, quando se coloca a ganhar tão cedo no jogo.

E tão atabalhoadamente, pois dentro do futebol bom que se faz bonita também há os momentos feios e as atrapalhações forçadas. Por outras palavras, há a especialidade de Sergio Ramos. O central que mais vive quando a bola pára foi puxado e agarrado, na área, pelos quase 39 anos de Sergey Ignashevich, russo que apenas se preocupou com ele e nunca com a bola que lhe bateu na canela e desviou para um auto-golo. Foi aos 11 minutos.

Foi o ponto em que os espanhóis sucumbiram à inutilidade que existe em algo útil, que é ter a bola e tê-la olhando demais para o lado. Multiplicando-a em tabelas porque sim, passando-a a gente que está à frente de adversários e não entre eles, no meio do seu bloco.

Ramos e Piqué têm um concurso próprio, para ver quem lança mais bolas longas, cortadas e bonitas. E inúteis. Eles funcionam quase como um par de trincos, plantados na metade russa do campo, e ignoram o Busquets que inteligente é a colocar-se nas costas da primeira linha de jogadores russos. Tanto quanto a equipa ignora Diego Costa e a parede que ele poderia ser, para quem chega de frente para a baliza. Chegam ao intervalo com quase 500 passes feitos.

Se, desses, há 20 realmente úteis para desmontar a pressão adversária e ultrapassar rivais, é uma sorte.

Anthony Dibon

Temos sempre os benditos malabarismos graciosos de Isco, o senhor elegância com a bola, que finge, dribla, simula e torneia corpos com a naturalidade de quem bebe um copo de água. Ele é o segundo na linha de sucessão na hierarquia das melhores parelhas mente-pés no jogo de toque espanhol. Mas, com tanta gente a teimar em olhar para o lado, Isco, que pede bola na frente e ao centro, cede à tentação de recuar.

De ter a bola de frente para onze russos.

Esses russos, ordenados lá atrás e recolhidos à sua área, apenas ousam avançar uns metros quando detetam sinais de pressão - as raras vezes em que os centrais espanhóis recebem a bola de costas para o jogo, ou numa raríssima má receção de alguém. Têm o mérito de organizados se manterem nas barbas da monótona posse de bola espanhola e de aproveitarem quase tudo o que têm.

Que surge no braço que Piqué deixa esticado no ar, ao saltar, no qual a bola toca e se apita o penálti com que Dzyuba pune a rede passadora de bola que mais não é do que um disfarce para a falta de plano e ideias. Para um jogo passivo.

O empate prolonga-se segunda parte dentro porque os onze espanhóis em campo limitam-se a confiar no brilhante conjunto de pés que têm, confiando que isso, por si só, acabaria por resolver a questão. São o reflexo do improvisado treinador espanhol que os escolhe a partir do banco, sem verdadeiramente os comandar: não há risco, não se aventuram, não jogam com o espaço, não tentam coisas distintas quando o mesmo, e mais desse mesmo, não resultam.

Eles não sabem ao que jogam e jogam com tudo o que faz as pessoas aborrecerem-se com passe atrás de passe, e Pep Guardiola odiar o termo que colaram a esta década espanhola de existência: tiki-taka. É entediante ver tanto bom, técnico e genial pé a desvalorizar-se até um estado banal de futebol devido à falta de arrojo que partilham.

Tão obtusos ficam que, quando Hierro acaba com os 68 minutos que demora remediar uma fronta, eles não respeitam Andrés Iniesta. Ele junta-se a Isco e é dos poucos a pedir a bola entre linhas, a querer receber a bola onde sabe que atrairá adversários a si e libertará companheiros. Tenta fixar russos, lançar tabelas verticais, está quase sempre nos locais certos, a tomar as decisões certas, esperançado em que os outros o sigam.

Ninguém o segue.

YURI CORTEZ

Os espanhóis limitam-se a forçar a banalidade do passe. Rebaixam-se, aproximam-se à limitada qualidade de jogo russa, nivelam por baixo o jogo e permitem que os anfitriões se aguentem unicamente pela força de estarem bem posicionados, correrem e se esforçarem uns pelos outros. Vladimir Granat, um russo que entra ao intervalo, acaba o jogo com cinco passes tentados e um acertado.

A partida prolonga-se por 120 minutos. Não há nada na Espanha além de um remate de Iniesta, à entrada da área, vindo de um passe de peito de Iago Aspas, o substituto que também remata, antes de Rodrigo, outro suplente, cavalgar sozinho, pela direita, até Akinfeev parar mais uma bola. E o problema é que o bombeiro de emergência, chamado Fernando Hierro, apenas troca os jogadores, confia que algo individual surja e nada altera no plano.

Nunca o ato de passar a bola foi tão enganador. Os espanhóis alcançam 1137 passes infrutíferos, um reflexo do corpo presente de Hierro em não mexer em Koke, que parece querer dar a mão a Busquets e permanece atrás da linha da bola, para nada; em não obrigar os laterais a projetarem-se; em não juntar Rodrigo e Aspas mais cedo, ao centro, para mostrarem à equipa que os desequilíbrios se tinham que buscar dentro, e no meio, do bloco russo. São problemas evidentes, mas que se prolongam até aos penáltis.

Os espanhóis deixam-se ir até ao lugar no futebol que mais se mascara de justo e nivelador das diferenças de qualidade. Do sítio onde menos importa se há melhores jogadores de um lado. Quando a bola pára a 11 metros da baliza, Koke e Iago Aspas falham - ou Akinfeev defende - onde todos os russos acertam. A pobre, limitada e pobrezinha Rússia elimina a talentosa, incrível nos nomes e passadora Espanha, porque eles nunca estiveram tão longe de como estavam há dez anos.

E devia ser sobre esse sítio que Andrés Iniesta pensava, quando virou as costas e olhou para o vazio, durante o último pontapé, já com lágrimas a encherem-lhe os olhos. O génio ilusionista, a calma pela qual os espanhóis trocaram a fúria, em 2008, despede-se com o terceiro estrondo da seleção desde há quatro anos.

Diz adeus silenciosa, redundante e inutilmente, e não de forma majestosa e genial e incrível, como ele antes era, nos tempos em que a Espanha era assim. Perdoa-os, Iniesta, eles já não sabem o que estão a fazer.

P.S. E obrigado, Don Andrés, pelo futebol que nunca mais mostrará em Mundiais, Europeus ou Ligas dos Campeões.