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“Sabes o momento em que o que até aí era 2D se torna 3D?”. As histórias de duas iranianas que vieram à Rússia ver a sua seleção pela 1.ª vez

Quando tinha 14 anos, Tara tentou convencer o pai a levá-la disfarçada ao estádio Azadi, mas só 17 anos depois conseguiu finalmente ver a seleção do Irão a jogar, no Mundial da Rússia. Já Sara luta há 12 anos para que as mulheres iranianas entrem nos estádios de futebol. Teme agora o que a espera no regresso a Teerão. Lídia Paralta Gomes é a enviada especial da Tribuna Expresso ao Mundial 2018, na Rússia

Lídia Paralta Gomes

NurPhoto/Getty

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O ano era 2001. Irão e Iraque disputavam em Teerão um importante encontro de qualificação para o Mundial do ano seguinte. Tara Sepehri Far era então uma miúda de 14 anos que só queria ver a sua seleção jogar. Mas, por ser mulher, o que estava para lá das portas do estádio Azadi, um dos maiores do Mundo, com capacidade para 100 mil espectadores, era território vedado. Desde 1981 que assim é no Irão: as autoridades consideram que um estádio de futebol é um local “impróprio” para as mulheres, que estão assim proibidas de assistir a um simples jogo de futebol. Tara tinha até comprado um chapéu e uma camisola para esconder a sua identidade, mas o seu pai, com medo do que poderia acontecer caso fosse apanhada, acabou por não permitir que a filha tentasse entrar no estádio.

Passaram 17 anos desde o dia em que Tara não conseguiu entrar no estádio Azadi que, curiosamente, significa “liberdade” em farsi. Hoje é uma advogada de 31 anos radicada nos Estados Unidos onde trabalha para a Human Rights Watch. E aos 31 anos finalmente cumpriu o sonho de ver a sua seleção jogar, no Irão-Marrocos, o jogo de estreia da seleção orientada por Carlos Queiroz neste Mundial.

“Foi uma experiência incrível assistir ao jogo entre milhares de iranianos vindos de todas as partes do Mundo. Homens e mulheres com diferentes histórias, mulheres com e sem véu… toda a gente estava unida a apoiar a equipa”, diz Tara à Tribuna Expresso, já de regresso aos Estados Unidos.

Estima-se que perto de 10 mil mulheres iranianas tenham estado (ou estão) na Rússia a acompanhar a sua seleção nacional. Dessas, uma ínfima percentagem vem diretamente do Irão. Talvez 20. O resto chega da diáspora. Quem nos avança estes números é Sara. Tara e Sara, até parece que inventámos os nomes mas não. Sara, na verdade, não é o verdadeiro nome desta jovem de 34 anos, com quem nos encontrámos em Moscovo a poucos dias de Portugal e Irão se defrontarem em Saransk, no último jogo para ambas as seleções na fase de grupos do Mundial.

Sara é uma das adeptas que vem do Irão e usa este nome por temer represálias quando voltar a Teerão. Mas não só. Ela é também uma das vozes do movimento OpenStadiums, que desde 2006 luta para que seja levantada a proibição de entrada nos estádios para as mulheres iranianas. e usa o pseudónimo também por "não querer personalizar" esta campanha.

"Não quero ser a única cara do OpenStadiums. Isto não é a luta de uma pessoa, é algo mais extenso, é de muitas mulheres”, diz-nos.

A luta, essa, começou quando Sara era ainda jovem: “Adorava futebol e questionava-me ‘Mas porque é eu não ali dentro, no estádio?’. Imagina o que é seres adepta de futebol e nunca teres entrado num estádio”. Por essa razão, Sara decidiu que tinha de estar na Rússia, apesar de ser uma viagem dispendiosa para quem vive no país. “Foi muito complicado porque a moeda iraniana desvalorizou muito e torna-se uma viagem muito, muito cara. Mas eu tinha de estar cá, absolutamente”, continua.

E aos 34 anos, conseguiu finalmente cumprir o seu sonho de entrar num estádio de futebol. “Aos 34 anos, já viste?”.

Os sentimentos mistos de estar num estádio

Se Tara nos fala da alegria que foi finalmente ver um jogo de futebol junto do seu povo, sem restrições, sem divisões, Sara transmite-nos sentimentos mais contraditórios. Se é verdade que é um momento marcante entrar num estádio, com todas as novas sensações que isso traz, existe também o outro lado.

“Foi um pouco triste, na verdade. Toda a gente vai dizer-te que estava muito feliz, mas eu não estava assim tanto. São sentimentos mistos: estava impressionada por causa do som, do barulho, da imagem - sabes o momento em que o que até aí era 2D se torna 3D? Mas depois comecei a pensar nas minhas amigas em Teerão, em como elas adoravam estar ali a ver o jogo…”. Sara diz que a felicidade completa só chegará no dia em que vir um jogo com a sua família e amigos em Teerão.

Para já, aquilo que parece ter sido um primeiro passo já foi dado: depois de uma primeira proibição no jogo entre Irão e Marrocos, as mulheres foram autorizadas a assistir à transmissão do segundo jogo da seleção iraniana, frente a Espanha, no estádio Azadi. Foi a primeira vez desde 1981 que as iranianas puderam ver o que estava para lá daquele portão.

Iranianos e iranianas juntos no estádio Azadi: uma imagem inédita desde 1981

Iranianos e iranianas juntos no estádio Azadi: uma imagem inédita desde 1981

Anadolu Agency/Getty

Pelo menos, aquelas que não partiram para soluções mais radicais. No início de maio, várias mulheres disfarçadas com perucas e barbas conseguiram entrar num jogo do Persepolis. Um risco grande de várias corajosas iranianas na medida em que cerca de um mês antes, durante o dérbi entre o Persepolis e o Esteghlal, 35 mulheres foram detidas por tentar entrar no estádio Azadi. Tudo isto com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, a assistir nas bancadas.

O papel da FIFA é, aliás, muito criticado por estas duas mulheres, que acusam a federação internacional de apoiar a luta das mulheres iranianas com bonitas palavras, mas nunca fazer nada em concreto. “A FIFA devia utilizar o seu poder e vantagem para assegurar que as mulheres iranianas possam desfrutar dos mesmos direitos que os adeptos masculinos”, frisa Tara Sepehri Far. A ativista lembra que os cartazes de apoio às mulheres iranianas que surgiram nas bancadas do Irão-Marrocos mostram o quanto a sociedade do país quer ver mudanças.

“Vi vários homens e mulheres a tirar fotos com os cartazes para mostrar o seu apoio à causa. É algo que me parece transversal, a maioria dos iranianos quer que as leis mudem. O apoio das federações internacionais também é importante. Porque isto não é uma questão de política: é uma questão de igualdade”, sublinha Sepehri Far, que confia que uma mudança “poderá chegar em breve”.

O capitão da seleção iraniana, Masoud Shojaei, é uma das figuras que publicamente já apoiou o regresso das mulheres aos estádios iranianos. “Há muitas, muitas iranianas que adoram futebol. Se elas pudessem entrar no estádio Azadi, ele teria de ter 200 mil lugares e não apenas 100 mil, porque estaria lá o mesmo número de mulheres e de homens”, disse durante uma cerimónia com o líder iraniano Hassan Rohani depois da qualificação da seleção para o Mundial 2018.

A imagem do cartaz que correu mundo

A imagem do cartaz que correu mundo

GIUSEPPE CACACE/Getty

A ajuda do capitão é importante, mas Sara é mais partidária do ver para crer. Sobre a abertura do estádio Azadi a todas as mulheres que quisessem ver o jogo contra Espanha - e que esteve perto de não acontecer por pressões das franjas mais conservadoras da sociedade iraniana - diz que poderá muito bem ser apenas uma operação de maquilhagem: “Depois das imagens dos nossos cartazes, a reivindicar o direito das mulheres em entrar nos estádio e da repercussão internacional dessas imagens, as autoridades quiseram dar uma melhor imagem do Irão. Vamos ver se é o primeiro passo para algo ou não”.

Se Tara diz "não haver qualquer razão" para que a proibição se mantenha, Sara, mais pragmática, acredita que o governo do Irão tem receio que, ao tornar as regras menos rígidas neste caso, "o povo comece a pedir mais e mais reformas".

O receio de voltar a casa

Sara não foi uma das mulheres que se disfarçou para tentar entrar no estádio. “Uma das coisas muito importantes nesta luta também é a nossa identidade enquanto género”. No dia em que entrar num estádio no Irão, Sara quer fazê-lo como mulher. Mas não critica outras formas de luta. “Ir vestida de homem também é uma forma de protestar. Na verdade, conseguir entrar num estádio é, por si só, uma forma de protesto, uma forma de desafiar o poder. Mas eu quero fazê-lo com a minha identidade”.

Com a sua identidade e sem medo de ser fotografada ou reconhecida. Nos dois jogos que assistiu para já neste Mundial, Sara foi obrigada a cuidados redobrados para não aparecer em fotos ou imagens televisivas. Usa sempre lenço, tenta afastar-se das confusões.

Confessa-nos o enorme receio que tem do que poderá acontecer no regresso a casa. Um medo que aumentou depois de no jogo frente a Espanha, em Kazan, tanto ela como as suas companheiras de viagem terem sido impedidas de fazer entrar no estádio os seus cartazes de apoio à causa #NoBan4Women, depois de serem revistadas por agentes vestidos à civil. Algo que Sara estranha, já que no primeiro jogo não teve qualquer problema à entrada do estádio.

“Tenho medo que as autoridades de cá estejam em contacto com o Irão”, conta-nos. Sara quer aproveitar a oportunidade de estar num campeonato do Mundo, de acompanhar a sua seleção mas o susto é real.

“Às vezes é um receio quase paralisante. Especialmente nos estádios tenho de estar sempre muito atenta. Mas isto é a minha paixão e a minha paixão é mais forte que o meu medo”, desabafa.

E é com toda essa paixão que Sara estará em Saransk para ver a sua seleção contra Portugal. E com a esperança que de que daqui a quatro anos não tenha que se esconder para estar num Mundial de futebol.