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As ondas da Nazaré, a filha um bocadinho ou muito grávida ou como colocar o dedo numa ferida chamada VAR em metáforas by Carlos Queiroz

O selecionador do Irão não queria falar de árbitros, mas o certo é que levou muitos minutos da conferência de imprensa de antevisão ao jogo contra Portugal a fazer um apelo para que as regras do VAR sejam mais claras. Usando para isso várias metáforas que terão tornado a tarde dos tradutores um pouco mais trabalhosa. Lídia Paralta Gomes é a enviada especial da Tribuna Expresso ao Mundial 2018, na Rússia

Lídia Paralta Gomes

FILIPPO MONTEFORTE/Getty

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O seguro morreu de velho e nas conferências de imprensa de antevisão aos jogos deste Mundial não se tem falado assim tanto de futebol. Porque os treinadores querem esconder o jogo, essencialmente por isso, mas também porque há tantas outras coisas para lá do tática, para lá as estratégias, para lá do jogo em si. Aquele que nos trouxe cá, à Mãe Rússia.

Uma das questões extra-futebol que tem sido omnipresente é a questão do VAR. Para nós, portugueses, isso é assunto antigo: passámos os últimos meses a falar dele, umas bem, outras mal. Mas para boa parte dos treinadores e jogadores (e jornalistas) que estão neste Mundial, o VAR é novidade.

E boa parte da conferência de Carlos Queiroz este domingo no Mordovia Arena de Saransk foi, precisamente, a falar do vídeo-árbitro. Tudo porque Queiroz é um defensor da tecnologia, mas viu a dita anular-lhe um golo frente a Espanha. O treinador português do Irão até começou por dizer que nada ia dizer sobre o tema, usando uma metáfora marítima relacionada com o nosso país.

“Lá em Portugal há um sítio chamado Nazaré onde temos as maiores ondas do Mundo. E quando um treinador fala de arbitragem essa onda vem e cai-nos sempre em cima da cabeça. Assim que não quero falar sobre isso antes do jogo, soa a desculpa”.

Metáfora número 1.

Mas, afinal, Carlos Queiroz tinha mais umas quantas coisas para dizer sobre o assunto. “O futebol é o jogo do povo, pertence às pessoas e isso não pode mudar. E é impensável que um grupo de intelectuais tenham intelectualizado o jogo sem que ninguém perceba o que está a acontecer”.

Olá, então afinal Queiroz não é assim tão a favor do VAR. Melhor, Queiroz quer é que as regras sejam “claras e óbvias”.

“Errar é humano e o VAR não nasceu para acabar com os erros humanos. Mas queremos saber as regras. Se tivermos um problema com uma concussão, há logo uma reunião de emergência. Se há um problema de segurança, há logo uma reunião. Mas se quisermos uma clarificação de uma decisão do VAR dizem-nos ‘escreve à FIFA’. Temos de saber quem está realmente a apitar. Fala-se em erros claros e não claros. É como se a minha filha chegasse a casa e discutíssemos se ela está um bocadinho grávida ou muito grávida”.

Metáfora número 2. Esta conferência deve estar a ser tramada para os tradutores.

“Espero que isto não crie uma onda que caia em cima dos meus ombos. Mas se isso acontecer cá estarei para nadar e sobreviver”.

Desenvolvimento da metáfora número 1 e fim de apelo sobre o VAR.

Mas houve mais vida para lá do VAR. Queiroz falou ainda da “grande honra” que é estar na última jornada da fase de grupos a discutir um apuramento histórico com Portugal. “Um candidato a vencer o Mundial”, frisa Queiroz.

Sobre o jogo, muito pouco. Questionado sobre a sua própria metáfora de “deixar o cão andar à solta sem entrar no jardim” (metáfora número 3) e se essa será a estratégia do Irão para o jogo com Portugal, Queiroz limitou-se a dizer que não será fácil partir com essa ideia para o jogo, porque do outro lado a fauna e flora é muito forte.

“O Fernando vem com os bichos mais fortes e a qualquer momento esses bichos podem morder”. Metáfora número 4. “Só um Irão melhor pode ganhar e a nossa filosofia continua a ser a mesma. Aquilo que eu chamo de filosofia dos 3 Rs: respeito pelo adversário, realismo porque estamos a jogar contra uma das equipas mais fortes do Mundo e romantismo, porque o grande líder da nossa equipa é a equipa”, sublinhou, numa conferência onde deixou grandes elogios a Portugal.

“É uma equipa bem orientada. E que além dos 23 convocados tem outra equipa de jogadores que podiam cá estar. Digam-me quantas equipas atuais se podem dar ao luxo de deixar de fora um jogador do Inter, um do Mónaco e dois do Barcelona”.

Palavras bonitas de alguém para quem o jogo de segunda-feira vai ser especial. Mas não esperem grandes sentimentalismos. “Não estamos aqui para sermos perdedores simpáticos, estamos aqui para competir com dignidade, para trazer felicidade e orgulho para os adeptos iranianos”.

E isto não é metáfora, é claro e óbvio. Como deveriam ser as regras do VAR.