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A Espanha é Espanha, Ronaldo é Ronaldo. E isto quer dizer o seguinte: fiquem lá com a bola que ele fica com os golos

No primeiro jogo grande do Mundial, houve um grande jogo: Portugal e Espanha empataram (3-3) e Cristiano Ronaldo foi o homem do jogo, ao marcar um hat trick

Mariana Cabral

Cristiano Ronaldo marcou um hat trick frente a Espanha

Maddie Meyer

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Ah, o Mundial. De quatro em anos, durante um mês, o mundo pára, sofrego, para ver uma série de acontecimentos imperdíveis, i.e., Rússia-Arábia Saudita; Egito-Uruguai; Marrocos-Irão. Emocionante, hã?

Sim, porque Mundial é Mundial e Mundial mete toda a gente, desde o adolescente à avó, a mandar palpites, a colar cromos e a ver bola; não, porque, Mundial é Mundial e, normalmente, o Mundial tem seleções que não interessam nem ao analista mais desadequado socialmente (e ainda só tem 32 seleções, imaginemos quando tiver 48, em 2026).

Ao segundo dia do Mundial 2018, depois de três jogos, foi preciso um Portugal-Espanha para finalmente haver futebol do bom. Antes, nem russos, nem árabes, nem egípcios, nem urugaios, nem marroquinos, nem iranianos conseguiram disfarçar a falta de ideias e, às vezes, até de vontade em atacar a baliza oposta.

O Portugal-Espanha, pelo contrário, foi um belíssimo cartão de visita a um Mundial, até agora, sensaborão. Teve um penálti, um golo a abrir, uma (quase) intervenção do VAR, golos, ataques cá, ataques lá, bolas em cima da linha de golo, tiki taka, luta, mais golos, transições rápidas, transições lentas, pressão alta, pressão baixa, um frango, uma 'bomba', um livre direto e Ronaldo, muito, mas muito Ronaldo.

Desde aquele hat trick em 2013, contra a Suécia, que nos pôs no Mundial 2014, que o capitão português não tinha um jogo tão bom pela seleção. Foi simplesmente incrível - escreve-vos sinceramente quem até aprecia mais as qualidades de Lionel Messi (perdoem a heresia de dizê-lo neste texto). Foi difícil ver Ronaldo fazer alguma coisa mal: baixou sempre bem em apoio para lançar rapidamente Guedes nas transições ofensivas; recebeu sempre bem quando foi Guedes e tocar para ele; segurou sempre bem a bola e ganhou faltas ali perto da área espanhola; bateu um livre em jeito, de forma perfeita; fechou bem as linhas de passes interiores (ainda que o papel mais importante tenha sido o de Guedes, a impedir que Busquets, o maestro espanhol, construísse desde trás); rematou bem, de longe, quando teve espaço; e foi para cima deles quando teve de ir, como naquele penálti, logo aos três minutos.

Stu Forster

O jogo ainda mal tinha começado e Portugal já estava a colocar-se em vantagem, depois de três minutos em que as camisolas pareciam trocadas: foi a seleção a ter a bola, a trocá-la de pé para pé e avançar com paciência até à área adversária.

Foi, de certo modo, uma emancipação para quem diziam que jogava tão mal no Europeu em que se sagrou campeão pela primeira vez. Esta semana, numa entrevista ao jornal espanhol "El País", dois campeões do mundo, o alemão Philipp Lahm e o espanhol Xabi Alonso, comentavam entre eles algo interessante: que a Alemanha de 2018 é ainda mais forte do que aquela que conquistou o Mundial em 2014, porque "já é muito mais natural ganhar e não é fácil encontrar quem tenha capacidade para derrotá-la".

Esta noite, em Sochi, o que se viu foi um Portugal muito mais natural naquilo que é um campeão europeu: a querer mandar, quando podia mais (poucas vezes, mas...), e a defender bem, quando não podia mais.

Foi, então, após esse início fulgurante que Portugal chegou ao 1-0: Ronaldo fintou um colega do Real Madrid, Nacho (no lugar de Carvajal, habitual titular, que não estava bem fisicamente), e sofreu um toque que o árbitro italiano Gianluca Rocchi entendeu que era suficiente para assinalar penálti, que o próprio capitão converteu.

Depois disso, estranhamente - é o revés de marcar cedo, quiçá -, Portugal retraiu-se e entregou a bola a Espanha, cumprindo então aquilo que se esperava ser o plano de jogo inicial: aproveitar Gonçalo Guedes e Cristiano Ronaldo para sair rapidamente no ataque nas transições ofensivas (já que a Espanha não é muito forte nas transições defensivas), depois de recuperar a bola, que se sabia que iria passar bem mais tempo nos pés espanhóis.

Foi o que aconteceu. A Espanha tocou aqui, tocou ali, tocou acolá e foi, pé ante pé, aproximando-se da área portuguesa - o primeiro remate perigoso, ao lado, foi de David Silva. Mas, quando Portugal recuperava, era um ai Jesus: Guedes, após passe de Ronaldo, ficou isolado com Sergio Ramos, mas não conseguiu ultrapassar o capitão espanhol; depois, num canto para Espanha, Portugal recuperou e saiu que nem flecha, com Bruno Fernandes - titular no lugar habitualmente de João Mário, não só pelo momento de forma que atravessa, mas também por aquilo que dá defensivamente - a abrir em Ronaldo e o capitão a oferecer, dentro da área, a Guedes, que não rematou de primeira e perdeu uma oportunidade de ouro.

Voltando às ideias de Xabi Alonso e Philipp Lahm: em qualquer torneio e em qualquer sítio do mundo, a Espanha é a Espanha e a Espanha joga sempre da mesma maneira, independentemente das circunstâncias e dos adversários. Certo? Nem por isso. É verdade que os espanhóis tiveram bem mais bola do que Portugal e andaram a circulá-la de um lado para o outro, mas também é verdade que, frequentemente, recorreram aos passes longos quando se viam pressionados.

E foi precisamente num desses passes que, aos 24', apareceu o primeiro golo espanhol - num lance que é, possivelmente, a antítese do futebol espanhol. Diego Costa ganhou a bola no ar a Pepe (aparentemente, em falta, já que colocou o braço no central português - mas o VAR não marcou nada), segurou-a e, depois, contra Fonte e Guerreiro, fuçou tanto que arranjou espaço, sozinho, para marcar o 1-0.

NELSON ALMEIDA

Foi um golo muito Diego Costa mas muito pouco espanhol, ainda que, depois, tenha havido bem mais Espanha, com Iniesta quase a marcar, assim como Isco.

Mas, quando Espanha estava melhor, em cima do intervalo, apareceu... Ronaldo, claro. Pepe, presssionado no meio-campo, parecia estar perto de perder a bola, mas enviou-a longa para Guedes, que amorteceu para o capitão. De fora da área, Ronaldo rematou e contou com a ajuda preciosa de De Gea, que deixou passar a bola, para fazer o 2-1.

Se tudo parecia correr às mil maravilhas para Portugal, tudo mudou rapidamente no início da 2ª parte. Num livre frontal, os espanhóis cruzaram para a área, Busquets superiorizou-se a Guedes, tocou para Diego Costa e o espanhol fez o 2-2, aos 55'.

Aí, Portugal começou a tremer e pior ainda ficou apenas três minutos depois: Nacho, numa das poucas vezes em que se chegou perto da área portuguesa, rematou uma 'bomba' de fora da área para marcar o 3-2. Lá se ia a consistência defensiva de Portugal.

Cristiano Ronaldo esbracejou, Fernando Santos também, e começaram as mudanças: Bruno Fernandes deu lugar a João Mário, Bernardo Silva saiu para entrar Quaresma e Gonçalo Guedes foi trocado por André Silva.

Os minutos iam passando e, apesar da irreverência habitual de Quaresma - ainda tentou um remate de trivela pela direita que saiu ao lado -, o resultado parecia resolvido.

Michael Steele

Só que, aos 87', Ronaldo, sempre Ronaldo, segurou a bola em frente à área e Piqué carregou-o em falta. Livre direto. Ronaldo, sempre Ronaldo, pegou na bola e inspirou e expirou. Ansiedade? Nenhuma (a força mental deste homem é absolutamente inexplicável). Olhou para a baliza e, em jeito, colocou-a redondinha por cima da barreira. 3-3 e um hat trick para o capitão português, que já é o melhor marcador do Mundial - e que é agora um de apenas quatro homens a conseguir marcar em quatro Mundiais (os outros foram Pelé, Uwe Seeler e Miroslav Klose).

A Espanha é a Espanha, Ronaldo é Ronaldo. E - não esqueçam - nós somos campeões europeus. Quarta-feira, frente a Marrocos (que perdeu com o Irão, nos descontos), há mais.