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“Parece que estamos num jogo de ténis ou no atletismo. No atletismo é que se batem recordes”: a ligeira irritação de Fernando Santos

Na conferência de imprensa de antevisão ao jogo com Marrocos (quarta-feira, 15h de Moscovo, menos duas em Lisboa), foram mais as perguntas sobre Cristiano Ronaldo do que sobre o encontro propriamente dito. Fernando Santos não adorou, até porque Portugal é mais do que o seu capitão e Marrocos merece respeito já que é, segundo o selecionador, "uma das melhores equipa de África". Lídia Paralta Gomes é a enviada especial da Tribuna Expresso ao Mundial 2018, na Rússia

Lídia Paralta Gomes

FADEL SENNA/Getty

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Se calhar é do Luzhniki ser gigante e labiríntico. Se calhar é de ter uma sala de imprensa que se espalha por dois andares inteirinhos. Se calhar é de já me ter perdido aqui, não ter conseguido encontrar o restaurante. Se calhar é por tudo isso que o Luzhniki me parece esta terça-feira, dia de conferências de imprensa de Portugal e Marrocos, muito vazio.

A mais provável explicação é, na verdade, mediática. Depois da enchente que foi o Portugal-Espanha, com jornalistas do Mundo inteiro a comparecerem no Estádio Fisht de Sochi (porque era um dos jogos mais importantes da primeira fase e porque Espanha tinha tido a semana que todos sabemos), este Portugal-Marrocos chama muito menos gente - ainda assim, houve a curiosidade de ver dois simpáticos jornalistas sudaneses na sala de imprensa.

Se na conferência de Marrocos as primeiras perguntas sobre Cristiano Ronaldo demoraram uns bons minutos a aparecer, quando chegou a vez de Pepe e Fernando Santos fazerem a antevisão ao jogo de quarta-feira (às 15h de Moscovo, menos duas horas em Lisboa) houve praticamente uma enxurrada delas.

Será mais essencial Ronaldo para Portugal do que outras estrelas para outras seleções? A pergunta deu o mote para uma conferência ligeiramente irritada de Fernando Santos. Dos nossos colegas sudaneses, chega mais uma pergunta sobre a perponderância de Ronaldo. "Mas alguém ganha alguma coisa sozinho?", pergunta/responde mister Santos.
Depois, vamos para a Ásia. Da China vem uma pergunta sobre o gesto de Ronaldo após o último golo com a Espanha, quando como que cofia uma barba imaginária no queixo. Isso quer dizer que está a deixar uma mensagem ao Mundo? Que ele é que é o G.O.A.T?

Aí, Fernando Santos até se ri. E com vontade. "Eu ainda agora fiz esse gesto. Estavam aqui os fotografos todos a tirar fotos e eu com a mão no queixo. É um gesto normal para os portugueses". Fica a explicação para terras orientais.

Chega depois uma questão em francês, de novo sobre Ronaldo e sobre recordes, nomeadamente se Ronaldo poderá bater os 13 golos marcados por Just Fontaine no Mundial de 1958. E mais uma resposta exasperada. "Parece que estamos num jogo de ténis ou no atletismo, que são desportos individuais. No atletismo é que se batem recordes".

O que Fernando Santos quer dizer no meio de tudo isto é que Ronaldo é importante, é muito importante, mas que Portugal é uma equipa, é um coletivo e que, aliás, foi assim que venceu o Campeonato da Europa há dois anos.

Mais do que nunca, Fernando Santos não abre o jogo para a mínima coisa. As respostas às perguntas sobre a estratégia para o jogo contra Marrocos e o rescaldo do jogo de Espanha são o mais gerais possível e só uma questão da famosa jornalista mexicana Inés Sainz sobre o que gostou do jogo com Espanha quase faz o selecionador nacional dizer um bocadinho mais.

"Eu gostava de responder a essa pergunta, mas se responder vou estar automaticamente a dizer aquilo que não gostei e não quero dar essa informação ao adversário", frisa.

Ah, o adversário. Marrocos. A bem da verdade, foi por Marrocos que Fernando Santos começou a conferência: "É uma excelente equipa, para mim uma das melhor equipas de África. Tem um treinador experiente e jogadores que atuam nos melhores campeonatos europeus. São jogadores rápidos, que conhecem bem os conceitos técnico-táticos e que colocam muita intensidade em campo".

De Portugal, o selecionador nacional promete uma equipa que "vai dar tudo o que tem para dar em termos de intensidade, organização e paixão". Porque também foi por causa disso que Portugal foi campeão da Europa.

Por isso e porque encarou todos os adversários com "respeito e humildade", lembra Fernando Santos. Algo que não houve no México, no Mundial de 1986, quando a Seleção Nacional foi surpreendida por Marrocos.

Desta vez, Portugal está mais do que avisado.