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O meu nome é João Pequeno

Num jogo em que a generalidade dos colegas se dispersou em fintas, discussões com o árbitro amador, correções posicionais, falhas de marcação zonais inacreditáveis, Moutinho assistiu Ronaldo, recuperou oito bolas, quatro delas no campo adversário, interceptou seis jogadas, só errou dois passes em 39 - e não tentou uma única finta. A Tribuna Expresso escolhe João Moutinho como o melhor português em campo frente a Marrocos

Pedro Candeias

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Não conheço João Moutinho melhor do que qualquer outra pessoa que tenha passado pouco mais de trinta minutos com ele em duas entrevistas. Mas em ambas as conversas, feitas em momentos diferentes da carreira, fiquei com a mesma impressão: que Moutinho era um tipo ponderado, profissional e adulto.

Acho, aliás, que Moutinho foi adulto a vida toda e é por isso estranho que só tenha 31 anos - parecem-me muitos mais, até porque ele nunca foi realmente um puto.

Assim de chofre, recordo-me apenas de um deslize protocolar durante o amigável Torneio Guadiana quando chamou os jornalistas e disse que queria trocar o Sporting pelo Everton - foi no verão de 2008, Moutinho tinha 21 anos e já era capitão há dois. Sabemos como a história acabou: o médio continuou em Alvalade, acabou vendido ao FC Porto, onde ganhou praticamente tudo, e seguiu para o Mónaco, onde também ganhou algumas coisas, nomeadamente o respeito internacional.

Nesse trajeto, Moutinho nunca mudou, como se tivesse nascido a jogar futebol assim: passos pequenos e certeiros, processos simples que escondem a capacidade técnica, bolas roubadas e bolas entregues com precisão cirúrgica. Um jogador arrumadinho, um líder sem espalhafatos e sem truques, nem altos nem baixos no ECG, mas absolutamente fiável para qualquer treinador.

No jogo desta quarta-feira, enquanto a generalidade dos seus colegas se dispersava em fintas, discussões com o árbitro amador, correções posicionais, falhas de marcação zonais inacreditáveis, João Moutinho assistiu Ronaldo, recuperou oito bolas, quatro delas no campo adversário, interceptou seis jogadas, só errou dois passes em 39 - e não tentou uma única finta [dados da InStat].

À frente de William, ao lado de William, por vezes atrás de William, metido entre os centrais ou a disfarçar o péssimo momento de Raphaël Guerreiro e a estranha apatia de João Mário, Moutinho esteve em todo o lado, como um ladrãozinho do Oliver Twist a ir silenciosamente ao bolso dos robustos marroquinos.

Se Portugal teve algum equilíbrio emocional e tático durante o jogo, deve-o a Moutinho, o futebolista pequeno de cérebro grande, que pensa quando os outros entram em ansiedade.

O nome dele é João Pequeno e é então o homem do jogo para a Tribuna Expresso.