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Os problemas de Portugal frente a Marrocos: maus posicionamentos e demasiadas bolas longas na frente

Depois do golo de Ronaldo... mais nada. Portugal teve muitas dificuldades frente a uma seleção marroquina muito pressionante - e o analista Tiago Teixeira explica porquê

Tiago Teixeira, analista de futebol

Pepe a lançar uma bola longa para o ataque de Portugal

Chris Brunskill/Fantasista

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Mais um jogo, mais uma exibição muitíssimo inferior ao resultado alcançado. Parece imagem de marca da seleção portuguesa: jogar muito pouco futebol mas conseguir, sem saber bem como, um resultado favorável.

O jogo começou com o golo de Portugal, num excelente movimento de Cristiano Ronaldo, que deixou o seu marcador direto (Marrocos defende as bolas paradas com marcação homem a homem) completamente “perdido”. E basicamente, o golo foi a única coisa boa que se viu da seleção portuguesa durante os 90 minutos, porque tudo o resto foi bastante mau, principalmente a nível ofensivo, onde a seleção portuguesa foi praticamente inexistente.

Na primeira fase de construção, as dificuldades foram as mesmas de sempre. Más decisões da dupla de centrais Pepe e Fonte, e do lateral direito Cédric, e/ou falta de linhas de passe para sair a jogar de forma apoiada.

Dois exemplos: o primeiro é um lance aos 20 minutos e meio, onde Moutinho consegue bater a primeira linha de pressão de Marrocos com um passe vertical para William que, de primeira, coloca a bola em Fonte. O problema surge quando Fonte recebe a bola. Sendo imediatamente pressionado, e sem nenhuma linha de passe vertical (nem João Mário nem Ronaldo baixaram para ser opção), só lhe restou um passe mais longo, que acabou num defesa marroquino.

O segundo exemplo é um lance aos 41 minutos e meio, no qual Pepe opta por um chutão (que terminou num jogador marroquino, obviamente) quando tinha William ao seu lado e a pedir-lhe a bola, com todas as condições necessárias para a receber e permitir à seleção portuguesa sair de forma apoiada para o ataque.

Precipitação.

Como a primeira fase de construção foi tão pobre, a seleção portuguesa nunca conseguiu chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média marroquina com a bola controlada, mesmo quando esse espaço era grande.

É claro que a pressão agressiva dos jogadores marroquinos dificultou muito o trabalho dos defesas e médios portugueses, mas se tivessem tido capacidade de bater essa pressão, havia muito espaço para jogar, como se pode ver na imagem seguinte, que representa um lance aos 11 minutos da primeira parte.

Com vários jogadores marroquinos na zona da bola, de modo a condicionar a construção de Portugal, o espaço entre a linha defensiva e os médios aumentava, sem que Portugal o conseguisse aproveitar durante todo o jogo.

Mesmo nos momentos em que houve mais tempo e espaço para construir (a seleção marroquina a controlar o espaço em vez de ser agressiva sobre o portador da bola), os posicionamentos dos jogadores portugueses nunca se revelaram os mais indicados - isto se o objetivo for atacar com qualidade pelo corredor central em vez de passar o jogo todo a bater na frente.

Na imagem que se segue, está representado um lance que ocorreu perto do minuto 16 da primeira parte.

Apesar do espaço entre os defesas e os médios marroquinos até ser grande, apenas Guedes o ocupa. Ronaldo e Bernardo estão completamente abertos, João Mário atrás da primeira linha de pressão e Moutinho de perfil com William.

Com este tipo de estrutura posicional, é bastante complicado construir de forma apoiada pelo corredor central, uma vez que as linhas de passe verticais são praticamente inexistentes.

A verdade é que a seleção marroquina foi superior em todos os momentos do jogo. Demonstrou mais qualidade na construção e, ainda que a pressa com que tenham ligado alguns lances os tenha prejudicado, os marroquinos conseguiram entrar na grande área portuguesa mais do triplo das vezes que Portugal foi capaz de fazer o mesmo.

Foram também muito mais agressivos na reação à perda da bola, o que contribuiu muito para que Portugal se sentisse desconfortável em posse durante quase todo o jogo - e acabasse a sofrer, apesar da vitória.