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Fernando Santos e Queiroz, uma amizade forjada pelos caminhos de ferro de Portugal mas que ficará "um bocadinho de lado" durante 90 minutos

Na conferência de antevisão ao Portugal-Irão de segunda-feira (às 21h de Saransk, 19h de Lisboa), o selecionador nacional lembrou a amizade de 35 anos com o seu rival e antigo treinador, mas num jogo em que está tanto em jogo, esse é um assunto que terá de ficar on hold. João Moutinho parece recuperado e será, pelo menos, opção para o encontro com o Irão. Lídia Paralta Gomes é a enviada especial da Tribuna Expresso ao Mundial 2018, na Rússia

Lídia Paralta Gomes

JACK GUEZ/Getty

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Ai Saransk, Saransk. Quem diria que uma cidade tão pequena, a mais pequena deste Mundial, cujo centro se vê em 30 minutos, nos desse uma caminhada tão penosa até à sala de imprensa do estádio. Está calor aqui, muito calor. E sem hotéis suficientes para tanta gente que por cá vai passar sem criar raízes durante a fase de grupos da prova, resta-nos procurar um apartamento particular para dormir.

Alex recebe-me e apresenta-me o irmão. Que, diz-me, se chama “Alexey”. Se calhar percebi mal. Mostra-me a casa, abre a janela e, no seu inglês básico, aponta: “Look, the stadium”. De facto o estádio está mesmo ali à minha frente. Deixo as minhas coisas, caminho até à Mordovia Arena. Chegar lá é rápido, o problema é que a casa está em frente à porta 3 e a entrada dos jornalistas é na porta 7. Estão 31 graus. A volta ao estádio parece interminável. Como é que uma cidade tão minúscula tem um estádio que parece nunca mais acabar? Isso, diga-se, são outras questões. Extra-futebol, entendem?

Adiante.

Chego finalmente à sala de imprensa com os bofes de fora. A equipa de segurança parece antipática, mas é falso alarme. Falso alarme é também a proximidade do meu apartamento: eu consigo vê-lo desde o estádio, mas até entrar na sala de imprensa afinal são uns bons 20 minutos de caminhada, à torreira do inclemente sol da Mordóvia, região governada pelo filho de um bom amigo do presidente do país, diz-se por aí.

Portugal só chega a Saransk mais ao final da tarde e por isso já não vai apanhar com este calor todo. A conferência de imprensa, diga-se, também foi morna, ainda que às tantas Fernando Santos tenha referido que “não entra nos jogos” de quem tem mais a perder ou a ganhar no jogo de segunda-feira, depois de Carlos Queiroz ter afirmado que o Irão nada tinha a perder e, pelo contrário, Portugal tinha muito a perder.

“As duas equipas podem chegar ao oitavos de final, quem não chegar, fica a perder”, disse.

Por estes dias fala-se muito desta situação não muito normal de dois treinadores da mesma nacionalidade se defrontarem num Mundial. Fernando Santos, que até já esteve na posição em que está agora Queiroz, diz que na hora de entrar em campo isso pouco interessa: “Eu quando estava no lugar dele só pensava em ganhar. Nesse momento somos profissionais, não contam os países”.

Carlos Queiroz e Fernando Santos conhecem-se há muitos anos. Muitos, muitos anos. Segundo o selecionador nacional, são 35, mas na segunda-feira, a amizade “vai ficar um bocadinho de lado”. E que este não é um jogo entre Carlos Queiroz e Fernando Santos, mas sim entre Irão (“Para mim a melhor equipa da Ásia”) e Portugal.

“Somos amigos e no final vamos continuar a ser amigos. Quando ele era meu treinador, ele era professor, eu era engenheiro, trabalhávamos os dois e por isso muitas vezes viajávamos depois da equipa, de comboio, e falávamos muito de futebol”. Pelos caminhos de ferro de Portugal forjou-se uma amizade que estará on hold pelo menos durante duas horas.

Duas horas que serão decisivas. Portugal tem pelo menos de empatar para passar aos oitavos de final, frente a uma equipa “bem organizada, estrategicamente forte, com jogadores experientes, muitos já a jogar em campeonatos europeus”.

“Fez duas belíssimas exibições. É uma equipa com boa organização defensiva mas é mais que isso: quando tem bola também sabe jogar”, reforça o selecionador nacional, que não confirmou se João Moutinho vai recuperar a tempo do jogo, apenas que se treinou na manhã deste domingo. “Nos 23 estará de certeza”, disse.

O que Fernando Santos não disse foi se já telefonou à família a dizer quando regressa a casa. “Eu telefono-lhes todos os dias, à minha mulher, à minha filha, ao meu neto, que ainda por agora já me entende bem”.

Então que pelo menos que daqui a 24 horas, uns pozinhos a mais, Fernando Santos diga ao neto que ainda vai demorar mais uns dias até o ver.