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Com trivela, com sofrimento (uma crónica de batimentos cardíacos que falham)

A magia de Quaresma parecia dar o mote para uma noite tranquila de futebol. Mas nós adoramos sofrer. Entre uma grande penalidade falhada por Cristiano Ronaldo, uma decisão simultânea do VAR nos dois jogos do Grupo B, uma grande penalidade marcada pelo Irão e um remate à malha lateral logo de seguida, o nosso coração quase falhava um batimento. Mas estamos vivos, estamos aqui. O empate 1-1 frente ao Irão leva-nos agora para Sochi, onde no sábado Portugal defronta o Uruguai nos oitavos de final

Lídia Paralta Gomes

Clive Mason/Getty

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Do Luzhniki ao Fisht foi um minuto e dois VARs. Já estávamos na compensação no Irão-Portugal e no Espanha-Marrocos. Portugal ganhava, Espanha perdia. O primeiro lugar era nosso, já se pensava no regresso à capital, no embate com o anfitrião. Mas no mesmo minuto, o VAR em Kalinegrado deu golo a Espanha e em Saransk deu penálti ao Irão, que marcou após uma mão na área de Cédric.

E de repente, empates nos dois jogos e Portugal, que tinha estado praticamente todo o tempo no 1.º lugar virtual do Grupo B, desce para segundo. E quase descia para terceiro quando na jogada seguinte ao golo ao Irão, Taremi só com Patrício à frente rematou às malhas laterais.

E eu juro que vi a bola lá dentro, a balançar a rede.

Estamos nos oitavos de final, é verdade, mas há aqui todo um anticlímax estranho. Porque aos 54 minutos, Cristiano Ronaldo teve nos pés o golo que nos daria o descanso, depois de na 1.ª parte, quase ao intervalo, Ricardo Quaresma ter marcado daquela forma que só Ricardo Quaresma sabe marcar: de trivela, no meio de não sei quantos adversários. Só que, coisa que não estamos muito habituados a ver, Cristiano falhou a grande penalidade. E, a partir daí, começou a desenhar-se o guião do thriller que ia rebentando espectacularmente nas nossas mãos nos descontos.

Nós portugueses temos essa coisa de atrair sofrimento. Entre o que provocamos a nós mesmos e aquele que vem ter connosco, terá de ser das mais distintivas marcas nacionais. Mas estamos nos oitavos de final e no sábado é a Sochi que voltamos para defrontar o Uruguai, que esta segunda-feira aplicou três sem resposta à Rússia. Entre o sofrimento que nos leva à maior carga de nervos mas que depois também nos dá alegrias enormes, estamos vivos, continuamos aqui na Rússia.

Tudo isto num jogo que Portugal quase sempre controlou, apesar de tudo. A lição do jogo com Marrocos foi tomada a sério. Portugal não entrou sôfrego como nos dois primeiros encontros: a ideia era controlar, lá está. A entrada de Adrien ajudou a dar mais músculo ao meio-campo e André Silva poder de choque no ataque. Nos primeiros 20 minutos o que se viu em Saransk foi um Portugal paciente, a trocar a bola, a arriscar pouco. A tentativa de adormecer o adversário para depois o ferir de morte.

O plano não corria mal, mas a meio dos primeiros 45 minutos começaram a surgir algumas das sombras do jogo frente a Marrocos: passes errados, perdas de bola, alguma incapacidade de definir no último terço. Sem nunca perder por completo o controlo do jogo, a verdade é que a Seleção Nacional começou aqui e a ali a dar alguma liberdade ao Irão. Ajudou a segurança de Pepe nos momentos de maior aperto, a combatividade de Adrien Silva, a infinita calma de William.

O momento mágico de Quaresma (mais um)

O momento mágico de Quaresma (mais um)

Clive Mason/Getty

Foi já numa fase mais lenta do jogo que apareceu aquilo que até aí tinha faltado a Portugal: magia, repentismo. Por Quaresma, quem havia de ser. Ele que até estava a ter uma 1.ª parte meio errática, com vários passes errados e cruzamentos mal medidos, combinou com Adrien Silva sacou da varinha e apresentou a trivela aos iranianos. Um golo à Quaresma, porque não há, não pode haver outro jogador no Mundo com tantos golos de trivela como o extremo do Besiktas.

Um golo mesmo antes do intervalo para sacudir algum do nervosismo que se instalava. No outro jogo, Espanha e Marrocos iam empatando. Apetecia dizer “Está bom assim, não mexe”. Mas mexeu, os nossos desejos nem sempre são ordens.

A entrada na 2.ª parte foi muito semelhante à da 1.ª e por momentos pensou-se que a coisa estava feita. Mas a grande penalidade falhada por Ronaldo foi gasolina para os adeptos iranianos nas bancadas, eles que protagonizaram uma sequela do Mundial 2010, com The Return of Vuvuzelas. E aos próprios jogadores de Queiroz também. A percepção de que Cristiano Ronaldo afinal é humano dá ânimo aos outros terráqueos, coisa mais natural do Mundo. Portugal tremeu aí, é um facto, mas o Irão, apesar de ter rondado mais vezes do que o que gostariamos a nossa área, acabou por nunca criar verdadeiro perigo, até ao tal lance da grande penalidade, decisão do VAR que demorou uma eternidade a aparecer.

Gostamos de sofrer, só pode ser. Mas estamos aqui, o susto já passou, estamos vivos. Sábado há mais.