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É praticamente impossível que Portugal ataque com qualidade se continuarmos assim (a análise tática do Portugal-Irão)

Coletivamente falando, Portugal tem muitos problemas em termos de posicionamento, especialmente ofensivamente, diz o analista de futebol Tiago Teixeira, que explica o que se passou no Portugal-Irão (1-1)

Tiago Teixeira, analista de futebol

RICARDO MORAES/GETTY

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Ao contrário do que aconteceu no jogo contra Marrocos, onde a seleção marroquina foi bastante pressionante e procurou sempre condicionar a primeira fase de construção da seleção portuguesa, a seleção do Irão permitiu que os jogadores portugueses tivessem sempre muito espaço e tempo para construir, mas nem assim a qualidade portuguesa neste momento do jogo aumentou significativamente.

Chega a ser ridícula a quantidade de erros que são cometidos por Portugal na fase de construção, principalmente do ponto de vista tático - tanto do ponto de vista da ocupação do espaço como ao nível das decisões tomadas por cada jogador.

Posicionamentos como os representados nas duas imagens seguintes foram uma constante durante o jogo todo e prejudicaram muito a seleção portuguesa: estavam sempre demasiados jogadores fora do bloco defensivo do Irão, mesmo quando a pressão era praticamente nula.

Na primeira imagem, com a bola ainda no meio campo defensivo de Portugal, William, Pepe e Fonte estão praticamente uns em cima dos outros, não aproveitando assim a superioridade numérica em que estavam. Depois, mais quatro jogadores portugueses (Cédric e Guerreiro abertos e Adrien e João Mário por dentro).

Ou seja, sem contar com o Patrício, estão SETE jogadores portugueses para um iraniano. Como é que se pode construir de forma apoiada e com qualidade pelo corredor central, se não existem linhas de passe verticais porque os jogadores estão todos ao lado uns dos outros?

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Na segunda imagem, mais do mesmo, mas agora no meio-campo ofensivo.

A maioria dos jogadores portugueses estão posicionados fora do bloco defensivo do Irão, onde não oferecem nenhum tipo de opção de passe interior nem procuram criar superioridades numéricas na zona da bola - o que dificulta, em muito, a criação de oportunidades de golo.

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Mesmo nos poucos momentos em que Portugal conseguiu fazer a bola chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média, a enorme distância entre elementos nunca permitiu que o lance fosse aproveitado da melhor maneira.

Exemplo disso é a jogada do minuto 34, onde Fonte conseguiu fazer a bola chegar a André Silva entre linhas, através de um passe vertical. Os jogadores portugueses estavam todos tão longe dele que a única opção que lhe restou foi voltar a colocar a bola fora do bloco defensivo iraniano.

A falta de qualidade coletiva que a seleção portuguesa demonstra no momento ofensivo, onde raramente são dadas as melhores condições ao portador da bola para que a ligação entre a fase de construção e de criação seja feita de maneira apoiada e criativa. Isso permite às seleções adversárias crescer no jogo, uma vez que Portugal se torna bastante inofensivo e revela enormes dificuldades em criar situações claras de golo.

É praticamente impossível que Portugal ataque com qualidade se continuarmos a ver os jogadores todos afastados uns dos outros, ou quando próximos, muito mal posicionados, sem tirarem nenhum partido do facto de estarem em superioridade numérica.

As esperanças em criar algo ofensivamente estão sempre depositadas nos rasgos individuais que os jogadores mais talentosos podem oferecer, quando deviam ser momentos coletivos bem trabalhados, dada a qualidade individual que Fernando Santos tem ao seu dispor.

PAULO NOVAIS

Lances como o do golo (excelente combinação entre Adrien e Quaresma, em direção ao corredor central) e o do penálti (excelente passe vertical de William para João Mário, que depois de receber entre linhas a passou a Ronaldo) foram uma miragem num jogo onde os problemas voltaram a ser os mesmos, assim como a felicidade em conseguir um bom resultado face à exibição realizada.