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Precisamos dos “Bernardos” desse Portugal fora

O Mundial acabou para nós mas o futuro começa agora. Tiago Teixeira, analista de futebol, explica de que maneira, utilizando Bernardo Silva como exemplo. Porque ganhar não é o oposto de praticar bom futebol

Tiago Teixeira, analista de futebol

Bernardo Silva, jogador do Manchester City

KIRILL KUDRYAVTSEV/GETTY

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Conhecem o jogo eletrónico chamado Tetris? Sábado, dei por mim a imaginar o mister Fernando Santos a jogá-lo. As peças a caírem, uma por uma, lentamente, mas o mister a revelar muita dificuldade em perceber onde encaixá-las melhor. O tempo de jogo ia passando e os espaços vazios eram cada vez mais, porque as peças não estavam a ser encaixadas no sítio mais correto. No fim, tivemos apenas um amontoado de peças, todas desorganizadas, e uma pontuação bastante mais fraca do que era exigido.

No Tetris humano a que chamamos seleção portuguesa de futebol, o mais evidente erro de encaixe tem um nome: Bernardo Silva.

Por toda a qualidade técnica e inteligência com que o jogador do Manchester City constrói e cria, era ele a peça-chave, aquela que podia ter elevado a qualidade do futebol praticado, mas tal não foi possível. Atenção: não por culpa própria, mas sim pelo contexto que o rodeava. E que contexto foi esse?

Chris Brunskill/Fantasista

Partindo do sistema de jogo 4-4-2, a seleção comandada por Fernando Santos usou e abusou do jogo exterior, sem nunca o fazer da melhor maneira, sofrendo muito para criar oportunidades de golo evidentes.

As combinações curtas nos corredores laterais foram uma raridade (poucos apoios próximos e principalmente falta de mobilidade) e o cruzamento para a área foi sempre a opção mais utilizada para chegar a zonas de finalização.

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Ao contrário do que acontece no Manchester City, onde Bernardo Silva, apesar de jogar aberto na ala, tem sempre inúmeras linhas de passe próximas, ou seja, apoios próximos de colegas com quem pode combinar, assim como uma dinâmica ofensiva bem trabalhada, na seleção portuguesa a preocupação com a criação de superioridades numéricas era pouca (exemplo na imagem anterior) - e tudo se resumia a dois ou três passes antes de cruzar para área, não tirando qualquer partido da qualidade técnica e criatividade de Bernardo Silva.

Mas era no corredor central que Bernardo Silva deveria ter passado a maior parte do tempo - e este foi o principal erro de Fernando Santos.

“Amarrá-lo” ao corredor lateral direito foi limitar o processo ofensivo da seleção portuguesa, que tanta falta de criatividade demonstrou, principalmente pelo meio. Com opções de passe em todas as direções, como só no corredor central acontece, o talento de Bernardo Silva poderia ter sido mais devidamente aproveitado - e, consequentemente, a seleção teria bem mais a ganhar em termos ofensivos.

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Posicionamentos como os da imagem, com Bernardo Silva no corredor central e linhas de passe à sua direita, esquerda e dentro do bloco defensivo adversário, tinham aumentando muito a qualidade do ataque posicional de Portugal, porque tinham permitido a Bernardo demonstrar que é, de longe, o jogador com mais atributos técnicos e cognitivos para jogar em zonas onde o espaço e o tempo para pensar e executar são menores.

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Lances como este representado na imagem podiam e deviam ter surgido mais vezes nos jogos disputados no Mundial, mas, para isso, era preciso que Bernardo Silva tivesse passado mais tempo no corredor central, em vez de estar quase sempre no corredor lateral direito.

Ninguém percebe tão bem como ele os timings de soltar a bola nem o contexto que o rodeia e, por isso, dar-lhe condições para combinar, decidir e progredir pelo corredor central tinham transformado para melhor o futebol praticado pela seleção portuguesa.

Não era exigido a Fernando Santos que apresentasse um modelo de jogo de excelência, mas não é desculpável que não tenha percebido como utilizar da melhor maneira o talento que tinha ao seu dispor.

É à volta de jogadores como Bernardo Silva que a seleção portuguesa tem que construir o seu futuro.

Elsa - FIFA

É fundamental criar condições coletivas ao nível do modelo de jogo para que a qualidade técnica, inteligência e criatividade destes jogadores - os “Bernardos” desse Portugal fora - sejam potenciadas ao máximo, pois só assim podemos voltar a ser uma seleção que pratique um futebol de qualidade.

Porque ganhar não é o oposto de praticar bom futebol.