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A Realpolitik, o romantismo e os amigos de Kasper

A Dinamarca venceu o Peru (1-0) num jogo em que o pragmatismo nórdico bateu o idealismo sul-americano. É pena, mas é o que é

Pedro Candeias

Elsa

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Acho que vou começar pelo equipamento que é branco nas meias e nos calções, e é cortado por uma oblíqua faixa presidencial vermelha no peito e nas costas da camisola; o símbolo está do lado esquerdo.

Clássico.

O kit do Peru é possivelmente o mais simples e o mais bonito de todos, imaculado no sentido bíblico do termo, porque resistiu ao tempo e não fez compromissos com o pecado capitalista que reformula equipamentos a bem do último grito da moda. E a bem dizer, a jersey é fundamentalmente romântico, mas o romantismo é para os ingénuos e a ingenuidade trama-nos no futebol.

Porque o jogo do Peru é divertido, ofensivo, apoiado e arriscado, e é praticado por gente oxigenada, como Carrillo e Advíncula, que procura o 1x1 em zonas em que a cautela recomenda o chuto para fora. No jargão intelectual do futebol de hoje, uma equipa que se impõe é a que procura-ser-protagonista - e isso foi o que o Peru fez durante a maior parte dos 90 e poucos minutos em que jogou contra a Dinamarca.

Sem problemas em ter a bola, os peruanos construíram jogadas vistosas e muitas vezes perigosas na primeira-parte e também na segunda, jogadas essas que retive e que passo agora a descrever:o falhanço espectacular do penálti de Cueva, que chutou para o Machu Picchu; o desequilíbrio cénico de Carrillo quando ia rematar para a glória; o toque de calcanhar do cocainómano ocasional Guerrero; Farfán que já não é o mesmo Farfán, algo que se costuma dizer aos homens quando a idade se instala - a todos, menos a Cristiano Ronaldo, claro; e aquela defesa do filho de Peter Schmeichel novamente num lance de Carrillo.

O ex-Sporting e ex-Benfica, aliás, foi um dos melhores jogadores em campo, mas nem ele nem os seus colegas conseguiram pular aquela última barreira que separa o triunfo do empate; o idealismo e a Realpolitik.

E a derrota aconteceu porque, no intervalo de tudo o que foi descrito dois parágrafos atrás, o engenhoso Eriksen pegou na bola num contra-ataque e pô-la no pé de Poulsen no momento certo. Obviamente, sendo os nórdicos, nórdicos, mesmo os mestiços como Poulsen, aquilo deu golo e a Dinamarca ganhou já depois de entregar o seu destino às mãos do filho de Peter Schmeichel. Que, já agora, se chama Kasper, o que dá um jeitaço enorme para o título que acabei de escrever.

  • Ainda vive um trinco dentro de Deschamps (a crónica do França 2-Austrália 1)

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    A França ganhou (2-1) à Austrália num jogo em que não foi claramente superior como se lhe exigia. Mas, pronto, quem tem futebolistas assim, arrisca-se sempre a ganhar um encontro. Nem que seja com um autogolo caricato e caído do céu no exato momento em que Pogba decidiu acordar da letargia que atormenta os que chegam longe na vida cedo demais e depressa demais