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Ainda vive um trinco dentro de Deschamps (a crónica do França 2-Austrália 1)

A França ganhou (2-1) à Austrália num jogo em que não foi claramente superior como se lhe exigia. Mas, pronto, quem tem futebolistas assim, arrisca-se sempre a ganhar um encontro. Nem que seja com um autogolo caricato e caído do céu no exato momento em que Pogba decidiu acordar da letargia que atormenta os que chegam longe na vida cedo demais e depressa demais

Pedro Candeias

Kevin C. Cox

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Pois que sim, que a França se apresentou com os seus jogadores mais notáveis - três carros de assalto (Kanté, Pogba e Tolisso) no meio campo, três velocistas puros na frente (Griezmann, Dembelé e Mbappé) - e a palavra "favoritos" escrita na cara de todos os franceses. A Austrália, que joga no outro canto do mundo, não seria obstáculo ao andamento irresistível que os gauleses iriam impôr desde o início - a ausência de Mendy (em recuperação) também não podia servir de desculpa perante o desnível hemisférico entre estas seleções.

E, assim, sem surpresa, a França entrou bem melhor do que a Austrália, rematou duas, três vezes à baliza de Mathew Ryan, e num dos meus múltiplos grupos de whatsapp apareceu logo a piada do costume: "Acho que os australianos se arriscam a empatar 0-5". Não nos levem a mal, é que deu mesmo a sensação de que estaríamos prestes a assistir a um atropelamento daqueles.

A piada morreu pouco depois, sem punch line.

Porque a Austrália serenou e começou a jogar futebol, melhor futebol até do que os franceses, sem o toque dos artistas geneticamente abençoados, mas com a diligência, voluntarismo e solidariedade dos operários - e os princípios estudados de um aluno aplicado. A bola saía do guarda-redes para o central que procurava o médio que descia para encontrar uma linha de passe. Sem chutões para a frente, como se a herança britânica fosse um pormenorzito.

É muito provável que isto seja o reflexo do trabalho do selecionador, Bert van Marwuijk, um tipo com uma carreira curiosa: se bem se lembram, este holandês foi, vá, 'dispensado' da Holanda após o Euro2012 (zero pontos), levou a Arábia Saudita a uma qualificação direta para este mesmo Mundial, não chegou a acordo para a renovação de contrato com os árabes e foi convidado pela Austrália em janeiro deste ano. E já sabe que sairá no final deste campeonato do mundo.

Bom, mas voltando ao jogo, a Austrália conseguiu neutralizar o meio-campo francês, e houve um futebolista que se evidenciou: Mooy, que secou o multimilionário Pogba com a esperteza que não lhe (re)conhecíamos. Na primeira-parte, houve lances de perigo para os dois lados e o empate a zero era digno para os australianos e surpreendente para os franceses.

Na segunda-parte, a França chegou ao golo (58') após um penálti assinalado com recurso ao VAR (o primeiro na história dos mundiais) e convertido, sem balanço, por Griezmann. Para quem já viu alguns jogos de bola, este é um momento que tende a ser crucial para os grandes e fatal para os pequenos: a pressão desaparece e o talento e a superioridade cristalizam-se no relvado. Mas, uma vez mais, a Austrália teve segurança, e desta vez também teve o disparate de Umtiti (mão na bola) que resultou na segunda grande penalidade (62') do encontro. Mile Jedinák chutou, a bola entrou a justificar uma exibição enérgica e competente.

Depois, Deschamps retirou de campo Griezmann e Dembelé e pôs Giroud e Fékir, uma troca-por-troca pouco ambiciosa que revelou o trinco que ainda vive dentro do selecionador francês. Mas, pronto, quem tem futebolistas assim, arrisca-se sempre a ganhar um encontro. Nem que seja com um autogolo caricato e caído do céu no exato momento em que Pogba decidiu acordar da letargia que atormenta os que chegam longe na vida cedo demais e depressa demais.

Ficou 2-1, devia ter ficado 1-1.