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Grupo C

O primeiro nulo num jogo que uma nulidade foi

França e Dinamarca empataram 0-0 num jogo em que o empate servia as intenções de ambas as equipas, que se qualificaram para a fase seguinte. O que não será razão para que nem sequer tivessem tentando que o resultado do encontro fosse outro. No final, o Luzhniki uniu-se numa monumental (e merecida) assobiadela

Lídia Paralta Gomes

Clive Rose/Getty

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A menos que nesta discussão esteja uma equipa chamada “Seleção Nacional do Euro 2000”, os últimos jogos das fase de grupos de uma grande competição em que o destino das equipas está praticamente definido tendem a ser, digamos, um valente tédio. E o Dinamarca-França desta terça-feira entra diretamente para um dos lugares desta lista, naquele que foi o primeiro nulo deste Mundial, ao jogo 37, o que, diga-se, tem o seu quê de admirável.

E nem é que tudo estivesse absolutamente definido para ambas as equipas: já apurada, França não tinha ainda o primeiro lugar assegurado e a Dinamarca precisava de um empate para carimbar um lugar nos oitavos de final, ainda que até uma derrota pudesse não fazer mossa à seleção nórdica.

Perante este cenário, as duas equipas entraram em campo, no gigante Luzhniki, cheio com quase 80 mil pessoas, com uma espécie de pacto de não-agressão assinado, França até já com algumas segundas linhas no onze e a Dinamarca a experimentar um sistema de três centrais. Tudo em ritmo de particular, portanto.

Para mais, no outro jogo do grupo, a Austrália ia perdendo, pelo que o único interesse do duelo seria a definição do primeiro lugar, coisa que a Dinamarca não se preocupou muito em procurar, apesar de até ter sido a equipa que entrou melhor e de talvez até ter algumas razões de queixa após um par de lances na área gaulesa que o VAR não se preocupou em confirmar.

Mas para um ritmo anestesiador a partida seguiu, com a França a conseguir rapidamente equilibrar mas a mostrar muito pouco para lá de um par de boas trocas de bola que nunca culminaram em verdadeiro perigo para a baliza de Kasper Schmeichel. Aliás, o primeiro remate digno desse nome só apareceu para lá da meia-hora, com Dembele a tentar de longe, mas a bola saiu um niquinho ao lado.

Os adeptos não gostaram. E com razão

Os adeptos não gostaram. E com razão

Matthias Hangst/Getty

Na 2.ª parte não houve adendas ou alterações ao pacto de não-agressão. O jogo tornou-se tão chato que às tantas, confesso, comecei a dar mais atenção a quase tudo menos ao jogo: a como as camisolas da Dinamarca são tão retro, a como os números dos jerseys de França parecem ter uma certa influência art déco ou como a música que a banda tradicional russa que tocava aqui numa praça ao lado soava ao “Take this Waltz” do Leonard Cohen (provavelmente era só por causa do “ai, ai, ai, ai”).

Então dos segundos 45 minutos o que dizer? Que Erikson ainda tentou duas vezes de longe, que Fekir rematou à malha lateral segundos após entrar e que Didier Deschamps ainda colocou Mbappé em campo, mas provavelmente só para assustar um bocadinho, porque produção atacante foi coisa que não se viu.

Por isto e muito mais, mal acabou o jogo, Dinamarca e França, alegremente apuradas para a fase a eliminar, foram brindadas por um merecido coro de assobios. E 80 mil pessoas a assobiar é obra. É que as pessoas que pagam para ir ao futebol, ainda mais a um jogo do campeonato do Mundo, não estarão seguramente à espera que todos os jogos acabem 4-3. Mas esperam, pelo menos, que as duas equipas tentem marcar. Intenção que não foi absolutamente clara na tarde desta terça-feira em Moscovo.