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A nova (e única) Musa de inspiração dos argentinos

O mesmo jogador que, há quatro anos, fez um par de golos à Argentina, marcou dois golaços à Islândia e deu à Nigéria o resultado que torna menos má a situação do país onde à hora do jogo, na capital, se lia "Força Nigéria" nos painéis de trânsito. Ahmed Musa foi o expoente dos nigerianos que fizeram 16 remates na segunda parte, depois na primeira nem um tentarem, e derreteram a organização fria dos islandeses, que ainda falharam um penálti

Diogo Pombo

Lars Baron - FIFA

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“Talvez não sejamos os mais tecnicistas. Nem os mais bonitos de se olhar. Mas iam querer lutar contra nós? Não me parece.”

A mim parece que Aron Gunnarsson é muito perspicaz. Tem a razão toda do mundo no que disse, ou escreveu, na qualidade de capitão do país onde, até há bem pouco tempo, a neve e o gelo e o tremendo mau feitio do planeta, nesse sítio em específico, nem tornavam suposto haver lá humanos a subsistir, quanto mais futebol.

É pelo acumular de improbabilidades gélidas, repetidas, nestes último par de anos, como uma bola de neve que não cessa de aumentar, que a Islândia goza de um fraquinho invernoso nos corações de quem gosta de ver bola. Depois, os islandeses são, como o eram em 2016, os jogadores e os treinadores com noção própria e consciência de tudo o que são e não são, do que podem ser e do que nem vale a pena atreverem-se a tentar. Se há seleção em que a muleta e o chavão do pragmatismo assenta, é neles.

Estes tipos esquálidos de pele, uns quantos fortemente tatuados, todos engrandecidos e fortificados pela teoria da evolução aplicada numa terra tão agrestes, têm as linhas dos defesas e médios sempre bem formadas. Cobrem os espaços quase sempre bem, compensam-se, ajudam-se, dão coberturas e obrigam qualquer adversário a tentar contorná-los por fora, pela carga de trabalhos que é furá-los pelo meio.

Se há utilidade para nós, povo mediterrânico e falante em língua românica, em todos os islandeses terem o apelido acabado em -son, é na indiferença que existe quando a Islândia não tem a bola - não interessa quem, todos sempre correm, fecham, lutam, são coesos, organizados e estáveis.

Com a bola, a sua noção das coisas em que são mais fortes dá-lhes o estilo direto, de saídas longas com bolas em Finnbogason, para servir quem chega de frente, de preferência o craque Sigurdsson, para ele, a quem a bola mais obedece, decidir se a remata ou a cruza, nesse caso à procura de Bjarnason, o extremo com pinta de guitarrista em banda de metal que ataca, constantemente, as costas do lateral adversário. É assim, ou de livre, que a Islândia remata seis vezes e três à baliza, na primeira parte.

Fria, dura e mecanizada, a ser mais perigosa e eficiente dentro do seu estilo, do que a Nigéria.

A seleção africana está cheia de homens velozes e que gostam de fazer jogadas a abrir, vontades um pouco contraditórias ao uso que dá à muita bola que tem. Confia-a John Obi Mikel, o capitão que vem, pede, toca e vai, recebe e passa e recebe outra vez, que se cansa na mixórdia de trocas de bola a que poucos outros reagem. A Nigéria não é capaz, sequer, de tentar um remate.

E a maneira mais apropriada de descrever, via analogia, o que vemos depois, é um abrupto derretimento do icebergue que sustenta os islandeses - porque os nigerianos aquecem, globalmente, tudo que têm.

Sergei Bobylev

Toda aquela posse de bola infrutífera e sobre dependente em Mikel evolve. O capitão recebe, vira-se e à frente já tem Musa e Moses a esticarem a largura, dando espaço à equipa para jogar e atacando, depois, o espaço em diagonais. Já tem os outros médios, Etebo e Ndidi, a ligarem-se a ele. E, no fundo, tudo já acontece mais rápido, com mais risco e valentia. Aos poucos, vai-lhes ficando mais fácil lutar contra a Islândia, pois já jogam mais do que lutam.

De uma existência lenta e previsível, os nigerianos passaram a jogar muito e bem e rápido. Os passes tornaram-se efetivos e quebradores das linhas islandesas, sobretudo assim que ligaram, pela primeira vez, um transição frenética: terminaram-na com Ahmed Musa a desencantar uma receção em suspensão e a bater de ressalto, na bola.

O 1-0 foi quase tão bonito de ver como o 2-0, outro contra-ataque, este mais egocêntrico e dependente no arranque com que Musa deixou um islandês para trás, entrou na área, sentou o guarda-redes e um defesa para, com calma, rematar o inevitável. A Nigéria que o intervalo rejuvenesceu era espetacular, eficaz no jogo de posição com bola e aceleradora de qualquer jogada que entrava no último terço do campo islandês.

Os nigerianos não são, e dificilmente o poderão ser, a equipa mais espetacular do Mundial - que nem jogadores ou equipa têm para o serem -, embora capazes foram de ligar um dos 45 minutos mais bonitos de se ver do torneio. Porque à simplicidade e ao não errar nas coisas simples juntaram velocidade e risco, enquanto a Islândia se desorganizava com o ritmo que impunham e só ameaçou no penálti em que Sigurdsson, algo letárgico, bateu a bola por cima da barra.

A Nigéria que nunca atirou a bola à baliza na primeira parte transformou-se na Nigéria que rematou por 16 vezes na segunda. O Musa que marcou dois golos ainda disparou contra a barra e acertou quase todas as ações que tentou fazer. Enquanta celebrava os golos, como um louco, algures do outro lado do mundo os argentinos festejavam com ele, na sua loucura.

O mesmo velocista que, há quatro anos, fez dois golos à Argentina, acabou com a Islândia e equilibrou a diferença de golos entre o país do tango que até a cura para o cancro exige à seleção, e a nação das 330 mil pessoas que arranja futebolistas suficientes para andar nestas lides.

Agora, basta a seleção de Lionel Messi vencer, à última jornada, e esperar que os croatas atropelem os islandeses como passaram por cima dos argentinos, para, sabe-se lá como, ainda chegar aos oitavos-de-final. Mas, eis o problema: precisam de jogar mais do que esta Nigéria, algo que não fizeram até ao momento.

Procurem alguma inspiração em Musa, porque já nem Messi é capaz de o fazer.