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Os argentinos têm huevos a mais

Pareceu, durante 45 minutos, que a Argentina tinha encontrado os arames para se prender, como uma equipa, à genialidade de Lionel Messi. Até que a Nigéria marcou e os argentinos regrediram à sua forma guerreira, lutadora e atabalhoada de estar em campo. Os huevos que eles tanto dizem serem precisos, e que tão mal lhes têm feito ao futebol nos últimos anos, foram o que os salvou (2-1), num golo do improvável Marcos Rojo, que acabou com uma Pulga às cavalitas - enquanto a loucura geral tinha Maradona, na bancada, a mostrar os dois dedos do meio

Diogo Pombo

Richard Heathcote

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Digam-me, por favor, se há uma locomoção mais graciosa, mais impecavelmente fluida, mais parecida a uma levitação desafiadora da gravidade que nos ordena a colarmo-nos à terra, do que o momento em que o metro e setenta centímetros deste corpo corre, acho que à velocidade máxima a que pode correr, e usa a coxa esquerda, o pé canhoto e o pé direito para controlar, ajeitar e pontapear uma bola de futebol, enquanto se mexe, precisamente, como quem apenas corre em linha reta e essa coisa redonda fosse parte indissociável de todo esse movimento?

Se há, desconheço.

Porque não há o mais pequeno esgar, ou sintoma de perturbação, na lógica de braço direito à frente do tronco-perna esquerda esticada para trás, e por aí em diante, na corrida de Lionel Messi, quando Ever Banega lhe atira uma bola retilínea.

É um daqueles passes longos cortados com força, que atrapalharia muito bom ser humano que estivesse a sprintar e, no meio da urgência da sua coordenação motora, lhe fosse pedido que a dominasse, sem abrandar, evitasse um nigeriano fisicamente superior e a rematasse com o pé que menos lhe apraz, como se estivesse a rematá-la com o outro pé, que será a oitava ou nona maravilha deste mundo.

Se essa bola contivesse, também, o desespero de 45 milhões de argentinos, as suas respetivas críticas e pressões, a sua crença de que a seleção serve é a salvação até para a conta da eletricidade lá em casa, qualquer um tremeria. Mas Lionel é Messi e marca, é capaz de sorrir como não mostrava os dentes há 689 minutos e quatro anos, última vez que fizera um golo em Mundiais, também contra a Nigéria. Os ciclos são viciosos e até este prova um ciclo também é um círculo onde sempre se volta ao mesmo sítio.

É verdade que os argentinos, ao terceiro ato, se aproximaram uns dos outros. Beneficiaram do alívio da teimosia de quem neles manda a partir do banco, que aliviou com Banega o desnível de talento em redor de Messi, fazendo-os procurar o farol entre as linhas e com tabelas. Verdade é que a bola parou e o 10 a curvou no livre que acabou no poste, depois de ser passada por quem parece ver o jogo a partir de cima, lá do alto, e Higuaín quase a desviar do guarda-redes.

Muito verdadeiro também é reconhecer que, durante 45 minutos, a Argentina fez as coisas bem feitas, pressionou, correu com tino, organizou-se no espaço e, coletivamente, funcionou para um indivíduo em particular conseguir prosperar. Diego Maradona, na bancada, até delirava e revirava os olhos com um bradar aos céus psicadélico.

Só que a linha do círculo sempre se reencontra.

E os argentinos voltaram a ser argentinos. Retornaram à sua mais comum versão dos últimos três, quatro anos. Uma forma atabalhoada de estar em campo, despojados de qualquer estrutura coesa com a bola, ou sem ela, com o passar a bola a Messi no topo da lista de prioridades de cada um a partir do momento em que, na área, três argentinos atacam um cruzamento sem adversários por perto, sem que algum deles falasse - deu canto, deu um agarrar estupidificante de Mascherano e deu o penálti com que a calma de Victor Moses empatou.

Faltavam trinta e nove minutos e, assim, a Argentina estava a empacotar-se para regressar a casa.

Robbie Jay Barratt - AMA

A cada tentativa que tinham com a bola, eles auto-destruíam-se um pouco mais, atraiçoavam-se com a urgência de cada um a ser o pânico de uma equipa colada a desespero, não a talento. O sôfrego Mascherano disfarçava tudo o que se lhe pede, e que já tem a menos, com raça a mais. Otamendi e Rojo fundiam-se numa batata quente sempre que Musa os atacava velozmente com a bola. O jeito de Banega que mais convinha a quem precisa dele por perto recuava no campo, para ser um filtro de jogo, e afastava-se de Messi.

E Lionel, tentando agigantar-se, encolheu, aprisionado na bolha do herói solitário que volta a sentir as toneladas da expetativa e responsabilidade a caírem sobre quem mais talento tem, mas que é impotente - como toda a gente, não tem solução para a falta de qualidade generalizada.

Os nigerianos tentam e rematam e ameaçam, mais do que assustam. E a cada minuto, em cada tentativa, a Argentina parece estar um pouco mais longe de se resgatar com engenho. A sua melhor tentativa é um déjà vu, um cronicamente trágico, já revisto no pé de Higuaín, o avançado que sempre pode, e nunca acerta, nas fases da vida em que a seleção o quer como salvador. O passar dos minutos, adensado pelo empate dos islandeses com os croatas, no jogo paralelo do grupo, anuncia um desfecho fatal para eles.

Esfolam-se para que da garra e da luta venha algo de bom, vão pelo mais fácil de optar quando a desordem os engoliu, há muito. E, atolados no seu pântano de improbabilidade, já confiantes de que ter huevos era a única salvação possível, houve uma bola que chegou a Gabriel Mercado quando Marcos Rojo estava na área da Nigéria.

OLGA MALTSEVA

Portanto, um central que era lateral direito e de quem esperar uma bola tensa, certeira e perfeita seria como jogar à roleta russa, e um defesa cujos pés são martelos pneumáticos de chutões para longe.

Aquela estranha relação originou um cruzamento com esses adjetivos e um remate ao primeiro toque, de pé direito, indefensável. E toda uma loucura desenfreada, onde Messi vibrava como um louco, às cavalitas do novo herói, Maradona extasiava na sua loucura muito própria, esticando piretes nas duas mãos, e os argentinos - que já venceram dois Mundiais, estiveram na final há quatro anos e têm memórias de grandes momentos -, choravam no estádio por conseguirem um golo nos últimos minutos, do último jogo da fase de grupos, contra a Nigéria.

Eles qualificaram-se para os oitavos-de-final, terão mais uma oportunidade, merecida ou não, de magicarem algo que disfarce esta existência sofrível, de coração aos pulos, que os denigre e faz Lionel Messi parecer mais terráqueo do que, realmente, é. Alguma coisa que os libertem do colete de forças da pressão que faz as lágrimas escorrerem pelas caras de Higuaín ou Di María, quando o sofrimento acabou. Que impeça Messi de terminar um jogo a lançar-se em carrinhos desesperados.

No fundo, que haja um plano, uma estratégia, um pouco de organização coletiva, para que ter huevos não seja a única coisa que os argentinos se resignem a ter quando o futebol lhes arremessar umas pedras. Porque, a jogarem assim, o futebol vai continuar a atirá-las.

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