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Grupo D

Um conto de fadas é um conto de fadas: tem um início, um meio e um fim

A Croácia entrou em campo com nove suplentes e ainda assim derrubou o sonho da Islândia (2-1). Para a história, fica o fim do conto de fadas que começou no Euro2016 de um país pequeno cheio de gente valente e leal que joga o jogo pelo jogo, sem fitas ou fintas barrocas. Por outro lado, a Croácia fez nove pontos, num grupo onde também estavam a Argentina e Nigéria. É provável que falemos dela mais vezes neste Mundial2018

Pedro Candeias

Este é Gunnarsson, jogador-fétiche desta Islândia de gente forte e poderosa. Aqui, já o jogo acabou e lá está ele a distribuir simpatia nas bancadas

Maja Hitij - FIFA

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Há uma tendência em todas as histórias de Vikings que são contadas pela cultura pop – creio que não vou falhar por muito. Então, há uma tribo formada por homens guerreiros que vivem em barcos e que vão a muitos sítios espalhar o terror, movidos a hidromel bebido em canecas de latão amolgadas. É uma massa uniforme de músculos, tatuagens, elmos sobre cabelos loiros, barbas desalinhadas, espadas, cornos e grunhidos; todos propositadamente indistinguíveis, menos um: o herói, que, das três, uma, ou é estrangeiro, de uma tribo rival ou um filho bastardo que inevitavelmente seduzirá a filha do líder, permeável aos encantos do forasteiro corajoso, inteligente e com outros talentos que não a pura força bruta.

Esse tipo é Gilfy Sygurdsson e os outros são Saevarsson, Halldórsson, Hallfredsson, Magnússon, Saevarsson, Sigurdsson, Gudmundsson, Finnbogason ou os favoritos de toda a gente, Bjarnason e Gunnarsson. Juntos são a seleção islandesa e a histórias deles é admirável: a nação mais pequena e valente a alguma vez pisar o Mundial. E a tendência, aqui, também é retratá-los como um armada de soldados indiferenciados que se movem como se fossem um só, menos Sygurdsson, porque é isso mesmo que eles são: uma armada de soldados indiferenciados que se movem como se fossem um só, menos Sygurdsson.

Sem preconceitos.

Competem todos de forma leal, objetiva e com processos muitos simples: pôr a bola na frente, correr, conquistar metros, correr mais, e esperar que num ressalto, num duelo físico ou num lance definido pelo nosso herói Sygurdsson, o golo apareça. Sem truques e sem anti-jogo, apenas o jogo pelo jogo, disputado entre homens duros que disputam a bola no limite, sabendo que vão aleijar e aleijar-se, mas isso pouco importa, que eles não estão ali para fitas ou fintas barrocas.

Num desses lances vigorosos, Bjarnason partiu o nariz no cotovelo de Pjaca e ficou a sangrar abundantemente, saindo de campo – porque o protocolo assim o exige – e entrando pouco depois com um papel a estancar a hemorragia que lhe manchava os calções e até as meias. Apenas mais um jogo de futebol para o pequeno Thor islandês que procurava o sonho de ultrapassar a fase de grupos do Mundial.

Afinal, não era de todo impossível: no Euro2016 tinham-no conseguido e a Croácia até estava a jogar com nove suplentes por estar apurada. Aliás, dava a ligeira impressão, dado o onze remendado e a pouca disposição para correr, de que a Croácia não se importaria muito de perder com os islandeses – é que isso significaria a eliminação da Argentina de Messi, mas isso sou eu e as minhas teorias conspirativas.

Assim, depois de uma entrada tremida, a Islândia conseguiu impôr-se energicamente no adormecido meio-campo croata e acabou a primeira-parte com as melhores oportunidades para chegar ao golo: Finnbogason (40'), Bjarnarsson (45') e Gunnarson (45 + 1') remataram para defesas do gigantesco Kalinic.

De facto, tudo era possível. Mas não provável.

Por alguma razão – provavelmente o desejo de serem primeiros no Grupo, de selarem uma qualificação limpa ou, então, mero orgulho –, os croatas entraram decididos na segunda-parte, trocando a bola com um bocadinho mais de velocidade, a necessária para baralhar o jogo posicional da Islândia. Badelj chutou ao poste ao 51' e dois minutos depois lá para dentro, assistido por Pivaric, e a Islândia levou o murro que a fez tremer. Mas não tombar.

Reagiu, como reagem os valentes, com nobreza, por Ingason (cabeceamento ao poste), pelo inesgotável Bjarnarsson (73') e em seguida chegou inclusivamente ao empate, num penálti batido por Sygurdsson após mão de Lovren (76'). Noutro lado da Rússia, a Nigéria tinha empatado a Argentina e os islandeses tentaram arriscar mais, expondo-se ao perigo da profundidade da Croácia que, entretanto, pôs Rakitic no relvado para dar a clarividência que o ansioso Kovacic não deu. E, enfim, quem tem jogadores como Perisic, um ambidextro perfeito, para situações limite, tem golo.

Contas feitas, a Croácia soma três vitórias e nove pontos num grupo que tinha a Argentina, a Nigéria e a Islândia. Se calhar, devia ter começado por aqui, mas julgo que falaremos mais vezes dos croatas daqui para a frente. Já sobre os islandeses, até à próxima.