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Todo o mundo tenta, mas foram os suíços a empatar o penta

A primeira parte fazia adivinhar um jogo espetacular, atacante e entusiasmante, como o golo de Philippe Coutinho. Só que a Suíça empatou no início da segunda e abrandou, muito, o pentacampeão do mundo e um sofrível Neymar. Há 40 anos que o Brasil não ganhava o primeiro jogo do Mundial

Diogo Pombo

JOE KLAMAR

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Vi em tempo real, em câmara lenta e, depois, ainda em super slow motion, forma estrangeira que está tão na moda mencionar quando se abranda, ao máximo, uma coisa tão espetacular como esta, sobre a qual não faço a mais pequena ideia o que escrever, mesmo com tantas repetições revistas. Toldado pode estar o julgamento sobre a bola que Philippe Coutinho, um tipo cujo pai ou avô (o parentesco é um bocado irrelevante), era ele pequeno, lhe teve que pagar para ele começar a rematar à baliza, decisão que, pelos vistos, nunca tomava.

Bendita insistência e quantia gasta nesse moleque porque, agora que passou algum tempo, já dá para escrever que o Brasil pôs-se a ganhar à Suíça, por 1-0, quando Dzemaili cortou um cruzamento para o pé direito de Coutinho. O mestre que desencantou uma obra forte, arqueada e com efeito, à entrada da área, que fez a bola bater no poste antes de entrar na baliza.

Ao quarto dia e ao vigésimo minuto do 11º jogo apareceu, provavelmente, o golo mais bonito do Mundial. Uma invenção expectável, no fundo, devido a dois motivos: por ser patologicamente crónico esperarmos que seja um brasileiro a desencantar uma artimanha tão vistosa; porque é no Brasil que existe maior afinidade pela bola por metro quadrado, seja nas ruas do país, seja na seleção.

A viagem bananeira que o pé de Philippe Coutinho dá à bola surge nos intervalos de passes longos despreocupados de Marcelo, o artista que joga a defesa esquerdo e, basicamente, é bem-sucedido a fazer o que bem lhe apetecer. De saídas de bola a fixar adversários com calma e com base no triângulo de Alisson, Miranda e Thiago Silva. Das linhas de corrida de Gabriel Jesus e Willian, dotadas de todo o sentido para abrir espaço para os outros.

De um futebol com toques de primeira, gestos bonitos aqui e ali, muitas tabelas e uma falsa sensação de facilidade, que até disfarça o jeito trapalhão de Paulinho. E suficiente, não sei se repararam, para nem se mencionar Neymar, o sambódromo ambulante de fintas e arrancadas que é vítima da (ainda) falta de ritmo pelos três meses de lesão - e da escolta permanente de Behrami, o primeiro suíço a jogar em quatro Mundiais que abafa as ações do craque e lhe ganha quase todos os duelos.

A Suíça não vive disto, mas também não sofre mais do que um remate de Paulinho, na pequena área, e um cabeceamento de Thiago Silva, num canto, porque encolhe a influência de Neymar, enquanto tenta perceber como alcançar a área brasileira com os passes que até faz a mais que o Brasil na primeira parte. Mesmo que sem risco, intensidade ou presença entre linhas.

Matthew Ashton - AMA

A analogia batida e rebatida do relógio suíço, não imbatível, sim infalível no seu funcionamento, com as mil e uma peças minúsculas encaixadas, até se aceita. Na medida em que a Suíça não espanta, nem é particularmente bonita no seu futebol, mas mantém-se organizada, sem espaços descomunais abertos, as linhas coesas, os jogadores a darem sempre os apoios defensivos.

É muito por culpa desta sua organização que, ao vermos Zuber fazer o 1-1, de cabeça, num canto em que o árbitro não descortina o empurrão maroto nas costas de Miranda, já não vemos as mesmas espetaculares e vertiginosas jogadas de perigo durante o resto da partida.

São mais quarenta minutos de futebol partilhado por uns suíços mais passivos, alegres no conservadorismo para conservarem o empate, e pelos brasileiros com menos vertigem e mais Neymar, demasiado Neymar. Porque este Neymar é ousado, inventor, driblador e desejoso de tourear adversários, como sempre, mas ainda não tem a potência e os arranques que uma fratura num dedo do pé lhe tirou, há uns meses.

Por isso errou e falhou e dezenas de bolas perdeu, também forçado pela força perseguidora de Behrami, e o Brasil foi perdendo fio de jogo e critério com ele. É redundante constatar que muito do que os brasileiros criam em ataque depende de Neymar e, tendo-o assim, apenas tiveram remates desgarrados dele, de Firmino e de Coutinho (este na área, bem perigoso).

Um remate de cabeça, coisa muito dele, foi o melhor que Neymar fez, já nos últimos cinco minutos, antes de Thiago Silva quase marcar, da mesma forma, num canto, e de Miranda fazer o mesmo na ressaca de outro: as três melhores oportunidades do Brasil na segunda parte vieram de bolas que pararam e foram, cruzadas para a área, coisa também muito Brasil (aviso: este parágrafo contém ironia).

Algo muito dos brasileiros é cantarem, desde 2002, que "todo o mundo tenta, mas só o Brasil é penta". Hoje, eles bem tentaram viver para lá de Neymar, mas não fizeram mais do que com a Suíça empatar. Há sete Mundiais (ou desde 1978) que o Brasil vencia o jogo de estreia no torneio.

Anadolu Agency