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Corta o cabelo Neymar, samba Neymar, cai Neymar, marca Neymar

O Brasil derrotou a Costa-Rica por 2-0 e ambos os golos foram marcados nos descontos, um por Coutinho, o outro por Neymar, a figura do jogo mesmo quando não é o melhor do jogo

Pedro Candeias

Koji Watanabe

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Dailson dos Reis não foi convocado por Tite nem consta na extensa comitiva do Brasil e, no entanto, anda junto de Neymar, Gabriel Jesus, Coutinho, Fagner, Douglas Costa, Casemiro, Danilo, sabe-se lá quem mais, aos abraços e em selfies com todos eles.

Dailson dos Reis também não tem clube e não há mal nisso - há jogadores portugueses que também não têm - mas tem um nome de guerra, Nariko, pelo qual é mais conhecido, e podia dar-se o caso de haver um erro de perceção nosso ao ler a ficha brasileira para o Mundial.

Mas não, nem Dailson nem Nariko constam na lista. Talvez porque Nariko não seja futebolista, nem preparador físico, fisiatra, psicólogo ou cozinheiro; Nariko é apenas cabeleireiro e há muito brasileiro com ele pelos cabelos.

A raíz do problema é o novo penteado de Neymar que amigo Nariko curvilineamente concebeu –uma espécie de tufo que começa no cucuruto e termina numa popa e num novelo de críticas. De repente, a exibição sofrida do Brasil diante da Suíça (1-1) estava em Neymar, mais preocupado com o seu aspecto e com o seu variado repertório técnico do que com o adversário que o provocou, apertou e deixou praticamente fora do jogo durante os 90 minutos.

Havia que resolver isso, cortando a dúvida rente contra a Costa Rica.

Foi o que aconteceu, mas não exatamente como se previa que pudesse acontecer, num atropelamento e fuga. O Brasil entrou melhor, é verdade, e teve o primeiro remate pelo inevitável Coutinho que acabaria por marcar o golo ao 90’, num jogo que se prolongaria até ao 96’– e esses minutos de desconto foram os melhores 360 segundos dos brasileiros durante todo o encontro. Foi também nesses seis minutos que Neymar fez o 2-0.

Dança, Neymar

Na primeira-parte, para resumir a coisa, o Brasil chutou sete vezes e só uma delas foi à baliza de Keylor Navas. Houve aquele lance de Coutinho, claro, um golo bem invalidado a Gabriel Jesus (26’) por fora-de-jogo e uma receção sambada de Neymar que acabou nas mãos do guarda-redes da Costa Rica e do Real Madrid. E foi isto em termos de ocasiões perigosas para a seleção de Tite, organizada novamente em 4x3x3, com Casemiro atrás de Coutinho e de Paulinho, Neymar e Willyan nas alas, Gabriel lá à frente.

A estratégia de partir para cima do adversário com um jogo apoiado não funcionou porque as linhas de passe escasseavam (mérito da organização da Costa Rica), porque os brasileiros pouco se mexiam sem bola ou porque Neymar a perdia, em falta ou por danças . E perdeu-a algumas vezes, já que era pelo corredor esquerdo que o Brasil mais acelerava, com Marcelo, Coutinho e o craque do PSG, o que faz dele o lado mais forte e simultaneamente mais fraco da equipa – nenhum destes três é especialmente dotado para correr atrás dos adversários, o que é ok no caso de Neymar, menos mau com Coutinho, mas preocupante com Marcelo, já que é, bom, o defesa-esquerdo-do-Brasil.

Foi por aí, então, que a Costa Rica tentou lançar os seus contra-ataque, logo que Bryan Ruiz conseguia esticar o jogo - ao minuto 13, o momento mais flagrante dos underdogs, quando Gamboa arrancou pela sua direita, cruzou para trás e Celso Borges falhou o remate.

Cai, Neymar

Na segunda-parte, Tite tirou Willyan, estranhamente inábil neste Mundial, pôs Douglas Costa no seu lugar e o Brasil espevitou. Aconteceu um cabeceamento de Gabriel Jesus à trave; Paulinho ofereceu um golo cantado a Coutinho, que desafinou; Neymar chutou para uma defesa felina de Keylor Navas, chutou novamente na passada com a bola a sair um pouco ao lado - e depois, deixou-se cair dramaticamente, como William Dafoe no Platoon, à espera de um penálti para Oscar que o VAR enjeitou.

Marca, Neymar

Pelo meio, Tite já tinha arriscado, sacando Paulinho e pondo Firmino, alterando o meio-campo de três para dois, mais dois extremos e dois avançados metidos entre os cinco defesas caribenhos. O Brasil acelerou definitivamente, as ocasiões de perigo foram-se acumulando à porta de Navas e uma delas iria inevitavelmente entrar: Marcelo cruzou para Firmino que deu de cabeça para Coutinho que chutou de bico, como Romário fazia, para o triunfo.

E Romário é um protagonista nesta história, porque começou o jogo como o terceiro melhor marcador do Brasil e acabou como quarto: Neymar, instantes depois de fazer um cabrito na linha a Yeltsin Tejeda, fez o seu golo 56 num encosto em vólei após cruzamento de Douglas Costa.

Depois, ajoelhou-se e chorou. Pode ser que assim falem menos do cabelo, certo Neymar?