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Dos cantos do mundo para os cantões e para o Mundial (a Suíça está nos oitavos)

A multi-étnica Suíça empatou com a Costa-Rica (2-2) e vai encontrar a Suécia nos oitavos de final do Rússia2018. Num grupo onde estavam Sérvia e Brasil, o trabalho suíço é notável

Pedro Candeias

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Sobre a neutralidade da historicamente pacífica Suíça: não é verdade. Durante séculos, e basta consultar os manuais, os suíços produziram vários exércitos de formidáveis mercenários que serviram outros reinos, sobretudo o francês, a troco de qualquer coisa, ouro, influência, títulos, fosse o que fosse. Portanto, bem lá no fundo, sob a capa de um suposto desinteresse acerca do que se passa fora dos cantões, os suíços são espertos, estratégicos e cínicos, e mantêm o espírito do recrutamento bem vivo, pelos vistos.

Vejamos o caso Suíça - Costa Rica. Os multi-étnicos suíços precisavam apenas de um ponto para passar à fase seguinte e já sabiam com quem poderiam cruzar nos oitavos: México ou Suécia, sendo factual que os europeus são adversários mais derrotáveis do que os americanos. Já os costarriquenhos estavam por tudo e só não queriam sair do Mundial sem um golinho marcado, pois a eliminação era ponto assente para quem não tinha um em dois jogos - e somava zero golos marcados.

Pois então, a Suíça, calculista e resultadista, entrou em campo sem forçar muito e expôs-se várias vezes aos caribenhos liderados pelo elegante Bryan Ruiz. Assim, antes dos 10 minutos, Sommer viu duas bolas baterem-lhe nos ferros, por Gamboa e pelo irrequieto Daniel Colindres, que durante a primeira-parte tentou a sorte que lhe foi sendo negada pelo guarda-redes ou pelas circunstâncias.

Mas, depois, Dzemaili acertou no alvo da Costa Rica, após uma jogada iniciada pelo temível corredor direito suíço: Shaquiri passou a Lichsteiner que cruzou para Embolo que amorteceu para o golo de Dzemaili; um kosovar, um suíço, um camaronês e um macedónio, como um esquadrão de soldados da fortuna do século XXI.

A Suíça, mais controladora mas nem por isso mais perigosa, chegou ao intervalo em vantagem e começou a segunda com outro susto, desta vez por Joel Campbell, o segundo ex-Sporting da Costa Rica. Aliás, seria Cambpell a ganhar um canto que resultou num golo do gigantesco Kendall Waston, rapagão para 1,96m e várias dezenas de quilos em número que não arrisco adivinhar. Foi uma festa louca e sadia, porque os costarriquenhos sabiam que não deixariam a Rússia totalmente a zero. A partir daí, o encontro passou a estar mais dividido e as oportunidades a nascerem de um lado e do outro, por Celso Borges e Drmic, e os golos também: o Drmic, de sangue croata, bateu Keylor Navas; Bryan Ruiz chutou contra o poste ao converter um penálti após falta de Zakaria, de ascendência sudanesa e congolesa, mas a bola bateu caprichosamente em Sommer e entrou para o empate final.