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Anda lá Neymar, que sejas tu, não interessa como, não interessa quanto, o que conta é no final, que a vitória seja nossa

Este domingo o Brasil arranca o seu Mundial2018 diante da Suíça. Christiana Martins, jornalista brasileira radicada em Portugal, escreve sobre um trauma recente que tem de ser sacudido como a areia do corpo - pelos pés de Neymar

Christiana Martins

David Ramos - FIFA

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Ainda escuto a explosão da bola no portão de ferro, nas tardes pálidas e sonolentas dos meus domingos infantis. Eu, fechada no apartamento de classe média no quinto andar do edifício onde vivia no tradicional bairro da Tijuca, via da janela a insistência, a aplicação e sobretudo o júbilo daqueles garotos de calções e sem chinelos a arrebentar com força a bola contra o portão. perdiam a noção da hora e jogavam tudo fora por mais um tiro de canhão.

Sumiram no meu passado, ficaram nas esquinas da memória como o sinónimo de um futebol brasileiro cada vez mais preso dentro das grades dos condomínios, asfixiados pela insegurança, com o jogo de pés amarrado pelo medo da violência urbana, tão quotidiana e real quanto mítica.

Os garotos hoje aprendem futebol em escolinhas de condomínios. Como um garoto brasileiro pode aprender futebol e não ensinar? Alguma coisa mudou e não pudemos evitar. Mudou a sociedade brasileira. O jogo de pés, o tricô de jogadas, a alegria do engano, oscilando entre a lentidão do meio de campo e o corropio lá da frente quando o génio desequilibra a jogada. Onde estão? Perderam-se nas praias, foram atropeladas pela infância digitalizada e sedentária? Aonde estão os moleques que nos redimiam? Matamo-los nas estatísticas que comprovam o extermínio de uma juventude que acumula a cor com a pobreza?

Ah, e como dizia tão bem Chico Buarque, mais um grande amante de futebol, "se já jogamos tudo fora, me conta agora, como hei de acreditar?" Primeiro foi o carrasco Paolo Rossi em 1982 - e eu fechada na casa de banho a rezar por um milagre que nuca chegou -, a inocência do amor infantil chegou ao fim. Acabou ali o amor puro, o encanto de pertencer a uma pátria sempre de chuteiras. Desde a Espanha, a minha relação com o futebol foi de encantada distância, vibrando nas vitórias, sorrindo com superioridade nas derrotas, afinal, os outros também têm de ganhar qualquer coisa. Mas o golpe, o corte mesmo foi no último Mundial, a Copa de todos os sonhos, em casa, com o Brasil todo vestido de amarelo, nada poderia falhar.

Nada.

A maldição ficara presa em 1950, o tempo não se repete. Nada nos vai travar. Temos fé. Mas não, falhou, tudo, sete vezes os alemães enfiaram a bola na baliza brasileira. Sete tiros, sete golpes. Se há gatos com sete vidas, há uma equipa com sete mortes: Brasil. Nós. E logo para os alemães, ricos, organizados, desenvolvidos. Não podia ser pior, mas foi. Doeu e custou. Acabou ali alguma coisa na minha relação com o futebol. Perdeu a graça.

Ao terceiro tiro, desliguei a televisão, mandei embora quem estava a assistir ao jogo em minha casa, mandei as crianças para a cama, apaguei as luzes e mudei de canal para uma série norte-americana (eles não dominam ainda a redondinha), e com um olho no ecrã e outro no telemóvel, ia vendo a humilhação aumentar, a vergonha crescer. No fim, nem uma lágrima, a torrente de golos alemães secara tudo, sobretudo a sombranceria de quem se acostumara a vencer. Não havia desculpa possível. Falhamos. Perdemos. Não sobrou nada naquela noite. Só o gosto amargo da cachaça não tragada. Um engasgo que dura há quatro anos.

Nestes quatro anos, a camisola da seleção foi usurpada pela política desigual e está manchada pela corrupção das instituições brasileiras. saiu dos estádios e invadiu as manifestações que partiram o país e as famílias ao meio. Fez inimigos, parceiros de arquibancada. Vestir de amarelo hoje é mais um posicionamento político do que uma demonstração de amor pelo futebol e pela história vitoriosa de um desporto popular.

Mas num estalar de dedos, ainda de luto pelo a última Copa, passaram-se quatro anos e chegou a hora. Mais uma vez estamos reunidos em frente à televisão. Vamos lá buscar a fitinha do Bonfim, colocar umas cervejas na geladeira, pimenta na farofa e água no feijão, à espera de uma redenção que nos lave a alma daquelas sete feridas. Afinal, já dizia o mestre, " a saudade é pior do que esquecimento" e nenhum de nós consegue apagar a saudade da alegria de Garrincha, Pelé, Zico, a aristocracia solta de Falcão, a loucura vulgar de Romário, o sorriso todo tordo dos nossos Ronaldos de pés abençoados. Os nossos ídolos ainda são os mesmos.

Ao que sabe Neymar? À solução? Esperamos que sim, num futebol pago a peso de ouro, sem os pés sujos da rua, nem cheios de areia da praia, terá de ser ele. Apesar de tudo, que o talento ainda seja minimamente genético. E lá longe, mais perto de Putin do que de mim, uma sabiá há de cantar, alegre com o regresso ao que nos é devido por direito: a glória do belo futebol. A Suíça é um relógio que temos de atrasar, partir, parar. E me perdoem, em terra de poetas da bola, a beleza é mesmo fundamental. Já chega de conversa, anda lá Neymar, que sejas tu, não interessa como, não interessa quanto, o que conta é no final, que a vitória seja nossa. Porque, se não for," já não sei mais como tentar disfarçar e esconder o que não dá mais para ocultar".