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Fagner, o jogador que podia não estar aqui, mas que agora é titular do Brasil

Foi uma das surpresas da convocatória de Tite, ganhou o lugar no onze após a lesão de Danilo e manteve a confiança do selecionador quando o lateral ex-FC Porto recuperou. Fagner é um dos atores improváveis deste Brasil cheio de craques, mas o jogador do Corinthians podia não estar entre nós: aos 6 anos sofreu um acidente caricato que por pouco não o matou

Lídia Paralta Gomes

Sergei Bobylev/Getty

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O nome é estranho mas não houve qualquer erro no Registo Civil. Fagner, um dos atores improváveis de um Brasil cheio de protagonistas, chama-se Fagner em homenagem ao cantor de música popular Raimundo Fagner, que teve talvez como maior sucesso a música “Borbulhas de Amor”, em que o cantor diz que gostava de ser um peixe, para mergulhar no límpido aquário da mulher amada e fazer borbulhas de amor para a encantar, seja lá o que isso for.

“Não coloquei só por causa do cantor. Já tinha um filho Fábio, aí veio ele e dei a ideia do nome. Se teve influência? Claro que teve, até porque só conheço um Fagner. Mas o cantor é Raimundo Fagner e eu quis tirar o Raimundo, não é? Gosto de todas as músicas dele, mas hoje nem ouço mais”, disse Calisto, pai de Fagner, numa entrevista ao jornal “Lance”, ainda Fagner era jogador do Vasco da Gama.

É possível que hoje Fagner, o futebolista, seja muito mais conhecido do que Raimundo Fagner, o cantor cearense. Porque de desconhecido lateral-direito, a surpresa na convocatória de Tite a, agora, titular da seleção do Brasil passaram apenas alguns meses. Esta noite, em Kazan, no jogo dos quartos de final frente à Bélgica, na lateral direita não vai estar Danilo, que chegou à Rússia como putativo titular, após a lesão grave de Daniel Alves. Quem vai lá estar é Fagner, que agarrou o lugar depois do antigo jogador do FC Porto se magoar no primeiro jogo do escrete no Mundial, frente à Suíça. É que mesmo depois de Danilo recuperar, Tite não abdicou do jogador do Corinthians, o homem que mais festejou a convocatória para o Mundial. E não abdicou dele pelas suas exibições seguras, pela sua capacidade de desarme - é um dos jogadores do Mundial com mais recuperações de bola, 11 em apenas três jogos, pela sua raça.

E, talvez, pela história de constante superação do jogador que completou 29 anos já na Rússia.

A porta de vidro que quase o matou

Fagner está na Rússia, mas podia não estar, já que se lesionou algumas semanas antes do Mundial e esteve em dúvida até ao último minuto. E também podia não estar aqui, e por aqui leia-se Terra, o mundo dos vivos. Aos seis anos, enquanto brincava com o irmão e um amigo no bairro Jardim Capelinha, em São Paulo, Fagner chocou contra uma porta de vidro.

Fagner é um dos jogadores do Mundial com mais desarmes. São 11, em apenas três jogos

Fagner é um dos jogadores do Mundial com mais desarmes. São 11, em apenas três jogos

Matthias Hangst/Getty

O braço esquerdo do garoto ficou muito mal tratado. “Os estilhaços cortaram até ao osso, cortaram todos os nervos, vasos sanguíneos e tudo. Ficou cinco horas na mesa de cirurgia”, lembrou o pai Calisto à Globo antes do Mundial. Calisto que criou os filhos sozinho, depois da mulher abandonar a família.

Desse dia, Fagner só se lembra de apagar e acordar no hospital. Não se lembra de ser operado de urgência, nem se lembra dos médicos dizerem ao seu pai que o sangramento era de tal forma abundante que caso tivesse chegado alguns minutos depois ao hospital, talvez o menino não tivesse sobrevivido.

Fagner sobreviveu, mas com sequelas. Durante a operação, feita “às pressas”, como lembrou Calisto ao “Lance”, os ligamentos do braço foram mal suturados. “Quase perdeu o braço. Foi recuperar depois num outro hospital e tive até de vender o carro para poder pagar parte da cirurgia para ele não perder o braço”, contou o pai. A primeira das muitas tatuagens de Fagner foi precisamente para esconder as cicatrizes destas primeiras operações.

Talvez por tudo isto, Fagner nunca se tenha visto como jogador de futebol. Mas o certo é que pouco depois de recuperar do acidente apresentou-se num teste no Corinthians e foi aprovado. “Fui indo, fui ficando, até virar profissional”, disse à Globo.

E deu nas vistas de tal forma que aos 17 anos foi contratado pelo PSV. Só que na Holanda nada correu bem. “Você acha que chega lá e joga, só que não é bem assim”, frisou o lateral. Depois de uma primeira época em que pouco jogou e de uma segunda em que nada jogou, decidiu voltar ao Brasil.

Fagner na primeira passagem pelo Vasco da Gama, em 2010

Fagner na primeira passagem pelo Vasco da Gama, em 2010

Buda Mendes/Getty

E voltou, sem nada. Durante seis meses não teve clube nem treinou. Estava desempregado. Pensou deixar o futebol e voltar a estudar. Mas aí o Vasco da Gama deu-lhe uma oportunidade para relançar a carreira, que Fagner agarrou com ambas as mãos. Depois de vencer a Taça do Brasil com a equipa do Rio de Janeiro, a Europa abriu-lhe novamente as portas. Desta vez o Wolfsburgo da Bundesliga, em 2013.

Apesar da segunda passagem pela Europa ter sido mais feliz do que a primeira, o lateral voltou ao Vasco da Gama na época seguinte, naquilo que foi apenas uma ponte para o seu verdadeiro desejo: voltar ao Corinthians, o clube que o tinha formado. Desde 2014 que Fagner, o jogador com nome de cantor popular, amante de carros antigos (tem um Chevrolet Opala e um Carocha, ou Fusca como se diz no Brasil) é titular do Timão, onde já foi campeão brasileiro por duas vezes. A primeira, em 2015, curiosamente com Tite no comando. E a segunda, em 2017, como capitão da equipa de São Paulo, onde veste a camisola 23, apesar de odiar números ímpares - cada um com as suas superstições.