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Behrami, o suíço que ousou tocar no menino e foi ‘xingado’ por um país inteiro

O moleque de quem os brasileiros tudo esperam e sempre faz algo de espetacular não fez nada de especial contra a Suíça, no primeiro jogo do Brasil neste Mundial. Em parte, porque passou muito tempo lesionado, não está em forma, as coisas saíram-lhe mal e sofreu 10 faltas. A outra parte é Valon Behrami, provocador só de duas dessas faltas, mas o principal responsável pelo eclipse do brasileiro no jogo. O que não caiu muito bem no goto dos brasileiros

Diogo Pombo

Maja Hitij - FIFA

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Chegámos a esta altura da existência humana, tenho lá eu a mínima das ideias dos porquês, em que um dos 365 dias da nossa volta ao sol é dedicado ao ato egocêntrico, mais auto-centrado, que extraímos da tecnologia.

O Dia Mundial da Selfie, na passada quinta-feira, é uma celebração do egocentrismo provocado pela tecnologia - à medida que os telemóveis espertos entraram nas nossas vidas, banalizámos a câmara: antes, apontávamos ao que os olhos veem e a memória poderia esquecer; agora, centramo-la no que podemos ver no reflexo do espelho.

E se há coisa celebrizada, em grande parte, por tanto abuso deste narcisismo modernizado e fotográfico, é o Instagram. A aplicação que permite partilhar fotografias como quem inspira e expira, está cheio delas e os futebolistas, como pessoas normais que são, também vão contribuindo para esta produção massiça.

Ora, nesse mundo fotograficamente partilhável, existe um mundo ainda maior entre Neymar e Valon Behrami.

O brasileiro é seguido por mais de 94 milhões de curiosos, ou a população de quase onze Suíças, que alimentou com mais de quatro mil pedaços de social-seguidismo, onde cabem as óbvias selfies entre todo o espetáculo que é a vida de Neymar além-futebol.

E o suíço é apenas um normal futebolista, cuja atividade por ali nem se resume a centena e meia de publicações, quase todas preenchidas com momentos fotográficos de jogos, treinos, viagens de avião ou a família. É seguido por cerca de 150 mil pessoas.

Neymar é um fenómeno global enquanto Behrami é um humilde episódio europeu - o que é tão reflecte o que cada um deles é num campo de futebol.

Um deles é samba, parceiro, é o ludibrioso artista brasileiro que joga fintando, driblando e tentando hiperbolizar qualquer ação que tenha no jogo. O outro é o moderado suíço, que joga como uma máquina constante a meio campo, onde sempre estimou a moderada técnica com a musculatura em tudo o resto que há no futebol, além de ter a bola entre os pés.

O figurado choque de estilos fez-se literal, há dias, quando a ginga do Brasil bateu contra a consistência da Suíça. O empate (1-1), ou a não vitória na entrada de um Mundial, chocou os brasileiros que são pentacampeões e já não experimentavam tal sensação desde 1978. O hábito de ganhar muitas vezes, e à boleia de craques que fazem do futebol o engenho tão bonito que realmente é, fê-los ultrajar com o resultado.

E contra um suíço em particular.

Assim que o jogo arrancou, já Behrami se tornara num helvético especial, o primeiro a estar em quatro Campeonatos do Mundo. E, por força da estratégia da sua seleção, ele forçou-se sobre Neymar durante 71 minutos, empenhado cumpridor da tarefa de vigiar o desequilibrante craque, tentar contê-lo e limitar ao máximo ao máximo, na medida do possível, a sua influência no jogo brasileiro. Que sempre é muito.

Instagram

E a maneira possível a Behrami de o fazer foi carregar o seu físico sobre o frágil Neymar. Encostou-se a ele, deu-lhe cargas de ombro, pressionou-o com o corpo e, quando as primeiras tentativas não resultavam, as segundas recorriam a fazer coisas que o futebol não permite. Neymar sofreu 10 faltas, duas vindas de Behrami, mas não foi por esta contabilidade que esta conversa volta ao Instagram.

Porque, nos dias seguintes ao jogo, algumas publicações de Behrami foram invadidas por comentários de brasileiros. Insultaram o suíço, desejaram-lhe atrocidades e a tudo quanto lhe é familiar, criticaram-no e ridicularizaram a forma como jogou - que, em grande parte, provocou a pobre e errática exibição de um Neymar que se manteve agarrado à bola.

Há uma fotografia que conta com mais de 140 mil comentários. É uma dose cavalar de xingamento (palavra muito brasileira) dirigida ao tipo nascido Titova Mitrovica, no Kosovo. Foi na antiga Jugoslávia, em 1990, mais ou menos quando a família Behrami fugiu da Guerra dos Balcãs e assentou na Suíça, onde apenas uma petição com duas mil assinaturas mudou as ideias do governo que os queria deportar, porque Valon era um prometedor atleta de meio fundo e havia razão para os deixar ficar no país.

Ele cresceu para se tornar no capitão da Suíça, dono de joelhos mutilados por lesões, carentes de gelo após cada treino ou jogo aos quais são forçados, que tem 80 partidas pela seleção e talvez faça a 81ª esta sexta-feira, contra a Sérvia (19h, RTP1), se a articulação magoada contra o Brasil o deixar.

Aos anos que Valon Behrami, hoje com 33, está ciente de que, quando se retirar, terá "o corpo partido" pela dose física que sempre deu ao seu estilo de jogo. Foi essa forma de existir no futebol que vulgarizou o impacto de Neymar durante a sua primeira aparição no Mundial e desencadeou a indignação de tantos brasileiros sentimentais. Podem criticá-lo e ofendê-lo à vontade, porque a estratégia deu resultado e, provavelmente, ainda dará contra outro alguém, neste Mundial.

JEWEL SAMAD