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Este México é um escândalo

Tal como há quatro anos, a campeã do Mundo caiu na estreia. O México bateu a Alemanha por 1-0, num encontro em que a tricolor mostrou que quando arranca para o ataque é muito difícil de travar e se viu uns alemães completamente fora do seu ADN: desesperados, ineficazes. É mais uma surpresa neste Mundial e já ninguém se lembra das festas pré-Mundial dos jogadores mexicanos

Lídia Paralta Gomes

Ryan Pierse/Getty

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O México enganou-me. Enganou-me e eu não tenho problemas nenhuns em admitir tal coisa. Segundos antes de Hirving Lozano marcar o golo que vergaria a campeã do Mundo, tinha pensado cá com os meus botões que a coisa ia processar-se da seguinte maneira: o México ia continuar a atacar, a desperdiçar e mais tarde ou mais cedo a Alemanha ia marcar um golo e resolver a questão. Na onda do 11 contra 11 e no final ganha a Alemanha, sabem?

Isto aconteceu mesmo alguns segundos antes de Herrera ganhar a bola já dentro do meio-campo alemão e um companheiro lançar rapidamente para o ataque, onde Chicharito e Lozano triangularam até o avançado do PSV passar tranquilamente por Ozil e chutar para a baliza de Neuer.

Foi um golo que teve todo o pragmatismo que até aí estava a faltar ao México, equipa que ainda antes do Mundial se viu envolvida num escândalo com picantes ingredientes, a saber, festas de 24 horas e dezenas de acompanhantes femininas, que terá obrigado, alegadamente, Hector Herrera a vir a Portugal tratar de “assuntos pessoais”.

Pois bem, nada disso parece ter desanimado as hostes astecas. Escândalo foi mesmo ver o campeão do Mundo a perder na estreia - tal como aconteceu há quatro anos com a Espanha. E escândalo é o que este México consegue jogar quando os ataques saem bem - o que nem sempre aconteceu, valha a verdade -, quando Herrera toma a batuta, quando se gritam “olés” das bancadas do Luzhniki, cheias de 78 mil almas.

Futebol elétrico

O Alemanha-México teve uns primeiros 45 minutos de luxo, talvez os melhores que se viram, com intensidade e eletricidade a níveis elevadíssimos e ataques de parte a parte, a Alemanha com mais cabeça e calma, o México mais na vertigem. E, não poucas vezes, na trapalhada.

Caso paradigmático: aos 28 minutos, Carlos Vela recebeu um passe que o deixou completamente livre na esquerda. Na área, esperava Chicharito. Mas a bola foi direitinha para as pernas de um defesa da Alemanha. E como este, houve muitos outros: o México só não marcou mais golos porque os defesas alemães são demasiado frios para levarem com muitos rodriguinhos ou mais aquela fintinha.

A ver-se a perder, coisa à qual não está exatamente habituada, na 2.ª parte a Alemanha desatou em correrias desenfreadas para o ataque, mas raras vezes bem (coisa que, também, não é muito habitual ver nos alemães) e os defesas mexicanos foram limpando como podiam, sem nunca desaproveitar a oportunidade para lançar contra-ataques.

Neste particular, Miguel Layún, ainda jogador do FC Porto, foi um dos mais perigosos: os dois remates mais perigosos da tricolor saíram dos seus pés e aos 81 minutos só não ficou isolado em frente a Neuer porque Jiménez (entrou na 2.ª parte) falhou um passe aparentemente simples, que podia muito bem ter matado o jogo ali.

Acabou por não ser preciso. Até ao fim Alemanha rematou muito mas desesperadamente, coisa que é tão contra o seu ADN que foi quase estranho de ver. Após o apito final, Chicharito chorava. Nas bancadas, os mexicanos cantaram, de lágrimas nos olhos, agarraram-se uns aos outros, eles que estão na Rússia aos magotes, seguindo a sua tricolor.

Depois do empate entre a Argentina e a Islândia, aqui está mais uma surpresa. Foram onze contra onze e no final não ganhou a Alemanha. E no México, já ninguém se deve lembrar daquilo que se passou antes do Mundial.